CRÔNICAS
José Alexandre Ramos


Conto de Natal
José Alexandre Ramos


Viu o segurança ao longe e não quis arriscar. Sabia que se a apanhassem, a colocariam na rua, não porque estivesse a pedir daquela vez, mas porque já a conheciam como pedinte, o que era suficiente para a porem fora do centro comercial. Saiu para a rua e levava no pensamento o gigante urso que vira na loja dos peluches. Não tinha grande predilecção pelos peluches, Isso é para os mais bebés, pensava, mas aquele urso grandalhão seria o ideal para as noites de frio que se faziam sentir nesta altura. Na calçada deslizava pelas montras e quedava-se a sorrir para os tons vermelho e verde das decorações. É Natal, diziam, mas para ela pouco lhe dizia essa palavra. Gostava de ver as montras das lojas com outras cores, enfeitadas de estrelas e com luzes que piscavam. À noite era bonito ver em arcos e subindo pelos postes as fadas, os anjos, os pais natal, as renas, sinos e estrelas a luzirem. Nunca se importava com mais nada, apenas ver e sorrir para este mundo de luz e cor que enfeitava os dias e as noites de frio de Dezembro. Nem tão pouco se importava com a noite da consoada, que passava no centro social porque o irmão a ia buscar. Era das únicas vezes que via o irmão: um rapazola nos seus quase vinte anos, que trabalhava, como servente de trolha, quando não estava preso por pequenos furtos, ou algo relacionado com a droga que também consumia.
Este ano a coisa parecia ser diferente. Assaltava-lhe uma espécie de sentimento que nunca tinha tido, ou dado conta antes. Lembrava-se da mãe, do pouco que a memória lhe consentia. Chorava, porque via as outras crianças de mão dada entre o pai e a mãe, chorava sem soluçar, aprendeu a reprimir as convulsões do choro mas não era capaz de limpar aquela névoa que lhe cobria o olhar, nem evitar que as lágrimas rolassem pelo seu rosto sujo. Quando alguém reparava que ela chorava e lhe perguntavam se estava bem, ela simplesmente era malcriada e respondia torto. Ninguém tinha nada com isso! Ela não queria que tivessem pena dela. Pedia a esmola e se esta fosse miserável, mostrava a língua. Certa vez foi pontapeada por um homem, Ai o caraças da rapariga, querem lá ver? Ficou tão revoltada que seguiu o homem, escondida. E quando ele menos esperava, numa loja cheia de gente, arrancou-lhe a carteira que trazia no bolso traseiro das calças. Ele ainda berrou, Agarrem a ladra, e começou a correr, mas ela conhecia a cidade como ninguém e lá se escondeu num canto até ser noite. A carteira estava recheada de algumas notas, os documentos do homem, e uma fotografia em que estava o homem, uma mulher e uma rapariguinha, talvez da sua idade. Imaginou como seria esta altura com aquela família… Quentes numa casa, felizes, a comerem bolos como os que namorava na montra da pastelaria, passeando nas ruas de mãos dadas… Deixou cair uma lágrima e, ao perceber que já chorava, não conseguiu evitar, sozinha como estava, rompeu num convulsivo pranto.
Véspera de Natal. Decidiu dar alguma indiferença ao rebuliço das pessoas, não queria que isso a afectasse, que a fizesse chorar. Lembrou-se então de fazer malvadezas: ir contra as pessoas que andavam carregadas, empurrar outras crianças, roubar o que pudesse. As pessoas eram tão indiferentes a ela, eram tão felizes que a não enxergavam, e isso dava-lhe raiva. Cansada depois de uma valente correria por ter roubado um balão a um rapazito que sorria para ela, foi descansar para o beco onde passava as noites. Arrumou o cartão de uma caixa velha a fazer de enxerga e embrulhou o balão num farrapo, para repousar a cabeça. Não era sempre que tinha uma almofada, mas ela pouco sabia de camas e de almofadas, sabia apenas que encostar a cabeça no balão lhe dava um pouco mais de conforto. Com um cobertor velho aconchegou-se. Lembrou-se do rapazinho a sorrir-lhe. Devia estar a gozar com ela, por ele ter um balão e ela não. Ah! Como se ela já não fosse crescida o suficiente para não ligar a balões! Mas o parvalhão continuava a sorrir-lhe e olhava para o balão e para ela. Bem feito, ficou sem ele, por causa das manias. A mãe dele nem reparou quando ela desatou a correr e o rapaz armou um grande berreiro. E ele de mão dada à mãe, e a chorar como um bebé, o parvalhão. A imagem do rapaz a pedir auxílio encheu-a de raiva. Levantou-se e comprimiu tanto o balão que o rebentou. Enroscou-se nos trapos e adormeceu, já a tarde começava a cair.
Sonhou que tinha uma família, a mãe dela, o irmão, e imaginou um pai. Comiam carne assada, tinha um bonito casaco vestido. De vez em quando a mãe pegava-lhe na mão e beijava-a. Ela estava feliz. Comia chocolates e dava-se ao luxo de guardar rebuçados numa pequena caixa. Todos riam quando ela falava, contava sobre as crianças que tinha empurrado e magoado na rua, dos roubos que tinha feito naquele dia, e todos continuavam a rir. Depois falou no rapazinho a quem roubara o balão e que este tinha ficado a chorar como um bebé. Ninguém riu dessa vez. Estavam tristes. Então sentiu que por trás dela o pai vinha com um urso gigante e quando se voltou para o agarrar, todos diziam És uma bebé, a gostar de ursos, és uma bebé! Ela gritou tanto de vergonha que a cabeça do urso estourou.
Acordou assustada e a transpirar. Já estava escuro. Ergueu-se e tremeu de frio. No ar agitava-se uma chuva miudinha. Saiu do beco onde se escondia e foi espreitar a rua principal. Viu ao longe muitas pessoas com sacos repletos de embrulhos de várias cores e reluzentes. Viu as luzes da rua a tremerem como se de frio. Chovia mais. Àquela hora já era costume o irmão ter vindo buscá-la para irem para o centro onde comeriam o bacalhau e bolo com frutas às cores. Sentou-se num degrau de escada, e deixou-se ali ficar olhando as pessoas que pareciam malucas a correrem… Levantou-se e chegou-se para as portas do centro comercial. Havia uma música bonita lá dentro, mas não podia entrar porque o segurança já a olhava de esguelha. Depois ouviu a voz suave de uma mulher que falava em noite de paz e de esperança, desejando Feliz Natal a todos os clientes. As pessoas saíam do centro contentes, alegres, e nem reparavam nela. Apenas o rapazinho a quem ela roubara o balão horas antes. Passaram-se entretanto algumas horas e o irmão não apareceu.
Foi assim que descobriu o que era o Natal. Era o que ela nunca tivera. Nada interessava que fosse Dezembro ou Agosto. Ela nunca tivera uma família, agasalho, carinho, sorrisos, nada. Ela não tinha nada. E este ano não tinha também o irmão. Recolheu-se novamente no seu beco escuro, embrulhou-se nos farrapos e deixou-se chorar, soluçando desta vez sem vergonha nem arrependimento. O sono retornou, quando se sentiu mais aliviada. Não queria sonhar. Apertou bem os olhos para não ver nem pensar em nada, mas a imaginação atraiçoava-a com a imagem obstinada de um rapazinho segurando um balão colorido e sorrindo para ela.


(Novembro 2004)


 

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