Lugar-comum
José Alexandre Ramos
Deixo a esferográfica deslizar sob a minha mão direita para te
escrever algumas palavras. E acendo um cigarro porque as palavras,
etéreas, não se materializam, e por cada fumaça que puxo do cigarro é
como se quisesse arrancar a palavra certa, a frase mais coerente, o
parágrafo perfeito, para te dizer qualquer coisa como
- Gosto de ti
e no entanto este
- Gosto de ti
é tão pouco para o que há para dizer, e talvez seja por isso que em
vez de discorrer no papel ou dizer-to no olhos, bloqueada, fico sem
nada dito. Nada feito. Nada escrito. Talvez.
Queimou-se o cigarro morto entre o indicador e o maior da
mão esquerda, esmago a ponta no cinzeiro, e é então que sinto que os
meus lábios tremem. Escondem um soluço, tremendo, e é nos lábios que
nasce a torrente de espasmo que forçadamente quer percorrer todo o meu
corpo, sacudindo-o. Num pranto envergonhado. Tremendo os lábios,
porque não sabem se dizer
- Gosto de ti
será suficiente para que tu e eu própria entendamos o que há realmente
entre nós, para lá do teu olhar de esguelha, por cima do jornal, e os
gestos do meu embaraço pairando no silêncio da distância que nos
desune.
Nada fazes. Perdes-te revolvendo o jornal nas páginas
desportivas e deixaste em cima da pequena mesa da sala de estar a
revista de domingo, como se a revista, de algum modo, fosse para ti, e
à tua maneira, um
- Gosto de ti
imaginando-me perdida nos artigos sobre a saúde do corpo, a beleza, as
receitas de culinária e os passatempos, mas, sabes, por mais que me
esforce, não são essas as palavras que ouço no mais íntimo de mim.
Acentua-se, na maneira como viras as páginas do jornal e no silêncio
dos teus lábios herméticos, a distância que nos separa.
Sirvo-me de mais uma chávena de café, bebo-o sofregamente
como se fosse um elixir qualquer que volvesse o tempo, os objectos,
para que nada disto fosse assim. Acto contínuo, acendo um novo
cigarro, mas o fumo repetido a esta hora da manhã pesa-me demasiado
nos pulmões, pelo que duas ou três fumaças depois já o estou a esmagar
no cinzeiro de vidro.
Olho para ti e quero que olhes para mim. Mas é o jornal
que tu queres olhar. Estás num espaço onde me tens barrada a entrada.
Se vou ter contigo,
(como se tocar-te fosse uma espécie de murmúrio ao teus ouvidos
- Gosto de ti),
já sei que me dizes que queres que te deixe em paz, que estás a ler o
jornal e detestas ser interrompido, que vá passear o cão, ver se o
periquito tem água e sementes, se há alguma roupa para dobrar, se o
almoço já está adiantado, se o lixo está no contentor.
Assim tem sido há vinte anos. Sem filhos que os recusaste
porque não és capaz, sem amigas ou amigos que me venham visitar por
gosto e propósito, não aqueles que trazes de vez em quando para
jantar, mas amigos meus verdadeiros, que me façam distrair daquilo que
eu sou, daquilo em que me conformei em ser – a tua mulher – como se o
facto de ser a tua mulher,
(tua de papel e aliança abençoada pelo deus que acreditas e que pensas
ajudar o teu clube nas noites em que joga com outro clube a partida do
futebol que assistes refugiado com os teus amigos e comparsas pela
televisão com cabo no café mais adiante),
significasse ter de servir-te, existir para servir-te.
Maquilho-me, componho a roupa, uso os perfumes que me
ofereces em todos os meus aniversários que celebrei a teu lado na
mesma atitude
- Gosto de ti
para que me olhes, apesar de saber que muitas das vezes te interrogas,
desconfiado, porque me maquilho e visto assim, e que sintas que a
minha presença não é uma tua necessidade pontual, mas a mulher que
escolheste para viver contigo e com quem devias partilhar todos os
momentos.
Tudo em vão. As folhas do jornal ocupam com o seu ruído
amarrotado o silêncio que afinal não preenche a casa. No sofá estás tu
e o teu mundo. Eu sou mais uma peça de bibelot arrumada no pó do
esquecimento.
Porque será que não estou bem, passados estes vinte anos
em que afinal outro homem não revelaste ser senão este mesmo, tu
mesmo, que estás enterrado desde que nos casamos nesse sofá lendo as
páginas desportivas do jornal, e que me olha de soslaio como se
ordenasses Não incomodes!, dobrando as folhas impressas num revoar de
pássaros espantados nos teus braços? Porque será?
Infelizmente já sei o porquê, o que não imaginas. É pelo
mesmo motivo que voltei a fumar, deixando-te surpreso quando me viste
há dias, novamente com o vício a soprar pelos meus lábios, sempre
impecavelmente pintados para ti. E tu pouco te importaste, disseste
que a saúde era minha, ao passo que tu fumas mais do que eu, e daí
fazes pretexto para voltares a inundar a sala, o quarto, a casa de
banho com o cheiro pestilento do fumo excessivo que carregas.
O motivo. Das minhas mais recentes insónias e das minhas
mais recentes fingidas dores de cabeça que te irritam e desiludem, nas
parcas vezes que me procuras para outro fim que não seja dar-te de
comer, dar-te de vestir, dar-te o conforto de uma casa composta. O
motivo dos meus olhos borratados do rímel, o motivo de, ao fim destes
anos todos, esperar-te na sala de estar, embrulhada numa manta, até
altas horas da madrugada, quando dizes que é o trabalho, são os
clientes, é o patrão.
O motivo encontrei-o com a mesma dedicação que sempre tive
ao tratar a tua roupa suja, como de costume despojada no chão do
quarto ou da casa de banho, após uma noite em que estiveste longe,
porque o trabalho, dizias tu, porque os clientes, porque o patrão.
Terá sido um dos teus clientes, o teu patrão quiçá, ou outro alguém do
teu tão cansativo trabalho que terá deixado dentro de um dos teus
bolsos um pedaço de um guardanapo de papel, entre muitos gatafunhos
que não soube entender, mas onde se via nitidamente a viva flor da
tinta que exibia um
- Gosto de ti ?
28
de Outubro de 2004