CRÔNICAS
José Alexandre Ramos



 

Sem Asas

O campo acabara de ser lavrado. Era um bonito dia de sol e um imenso azul abençoava todo o céu. O meu bando acabara de chegar ao campo para encontrar comida, após a noite repousante e um despertar chilreado partilhado com pardais, seresinos, verdilhões, tentilhões, pintassilgos, pintarroxos, e mais longe, os assobios dos melros, dos rouxinóis, das felosas e dos piscos. As carriças também madrugam, como todos os pássaros. Noutra árvore perto gorjeavam os bicos-de-lacre, pequeninos e irrequietos. Eu sou um lugre, mas há quem nos chame de canarinhos-do-norte ou ainda rabecos, pela nossa maneira de cantar, que faz lembrar vários pequenos violinos desafinados a tocar ao mesmo tempo. Temos uma plumagem verde e amarelada, e os machos possuem uma gravata preta, mesmo abaixo do bico, a condizer com o capuz negro da cabeça. Somos primos dessa malta verde e castanha ou arruivada como os verdilhões, e os pintassilgos, ou mesmo os pardais. Muito parecidos somos com os seresinos, há quem nos confunda, até.

Após a nossa higiene matinal, que se resume em alisar com o nosso bico os voos e as plumas, com a água fresca da manhã, junto de um regato, e de comunicarmos uns com os outros pelo canto, partimos à procura de alimento. Comemos várias sementes, e depenicamos hortaliça verde e tenra. Após a refeição matinal, fazemos grandes voos picados, intervalando com períodos em que nos dependuramos vários nos galhos das árvores, a alisar as penas, a cantar, ou fazendo corte às fêmeas que são um pouco mais claras que nós e não têm a gravata nem o capuz negros. Não temos grandes predadores, a não ser que nos descuidemos com algum gato mal intencionado ou estejamos perto de pequenos falcões. O nosso sentido de alerta é bastante apurado, como aliás qualquer pássaro do nosso porte, pelo que o risco de vida é pequeno. Sofremos mais quando neva ou chove intensamente, o que nos dificulta a procura do alimento. Também não nos damos muito bem com o calor, pelo que somos aves migratórias, devido à sazonalidade do clima: viajamos sempre para um clima ameno, mas a nossa predilecção é sempre mais a norte. Não nos incomodamos muito com o frio desde que seja possível encontrar alimento, água corrente e árvores para brincar, cantar e recolher ao fim do dia. Penso que podemos dar graças por sermos pássaros felizes, e que, como qualquer outra ave, prezamos muito a liberdade, porque é a nossa natureza explorar o mundo que conhecemos, voando.

Nesse dia, porém, quando com o meu bando andávamos à procura de alimento, ouvimos um da nossa espécie chamando do chão, de um outro campo contíguo. Não tivéramos sorte naquele campo acabado de lavrar e levantamos voo. Íamos a passar acima das árvores mais baixas, em direcção a outro local onde normalmente também comíamos. Ao ouvir aquele chamar que parecia mais um apelo de ajuda ou um aviso de perigo, eu e mais outros cinco ou seis do nosso bando, curiosos, demos meia volta e pousamos nos galhos das árvores. O resto do bando continuou a viagem. Não nos preocupamos. Apenas iríamos acolher esse outro companheiro que parecia perdido e logo retomaríamos o rumo. O que chamava, que entretanto deixou de emitir o silvo para começar num chilreio para que nos aproximássemos, permanecia no chão, e obstinado em não levantar voo, apesar de nós insistirmos, voando de árvore em árvore. Parecia que nos queria dizer algo, saltitava e gorjeava. Resolvi tomar a iniciativa de ir para junto dele e foi então que reparei que estava dentro de uma caixa feita de arames. Na parte superior haviam sementes espalhadas naquilo que parecia ser uma pequena pá. Não sabia o que fazia o outro ali enfiado, saltitante de poleiro em poleiro, quando tinha comida por cima dele. Notei que a parte superior estava separada pela inferior por uma série de arames. Será que ele passaria entre aqueles arames? Resolvi experimentar. Os outros companheiros que ainda estavam nos galhos das árvores, decidiram também descer e inspeccionar tudo aquilo com a curiosidade e desconfiança que nos é característica. O que nos intrigava era aquele outro que nos havia chamado e parecia encarcerado entre aqueles arames. Apesar de desconfiados, não sentíamos perigo, não havia nenhum outro animal por perto, fossem gatos, cães, homens ou outro qualquer. Saltei para dentro do compartimento que tinha sementes. Observei o outro, no patamar de baixo, e ainda tentei furar por entre os arames. Foi em vão, realmente não se podia passar. Os outros andavam de volta, dependurando-se nos arames e comunicando com o encarcerado. Queriam chegar à comida que ele tinha junto de si, no interior. Como ainda não tínhamos comido nada, foi grande o apelo daquelas sementes que estavam diante de mim, pelo que dei umas bicadas.

Nunca o meu pequeno coração bateu tanto devido ao tamanho do susto que apanhei. Mal havia debicado numa das sementes, algo caiu por cima de mim, fazendo um barulho enorme. Era mais uma enfiada de arames. Os outros que tinham descido comigo, assustados e alarmados, voaram para os galhos das árvores e chilreavam inquietos. Eu também estava assustado e muito atabalhoadamente tentei sair, enfiando a cabeça entre os arames. Não conseguia passar. Dali a instantes, senti a terra tremer juntamente com os passos pesados de humanos. Eram dois, dois jovens humanos. Acercaram-se daquela caixa repleta de arames e pareciam entusiasmados, porque riam. Pensei tratar-se de uma partida, mas não deixei de estar irrequieto e ao mesmo tempo furioso, porque se aquilo tinha sido uma partida, fora de muito mau gosto pois não valeu o susto. Entretanto os meus companheiros tinham já fugido, assustados com a presença humana. Um dos jovens abriu cuidadosamente a fiada de arames que havia caído sobre mim e pegou-me na sua mão, enfiando-me de seguida numa outra caixa feita igualmente de arames. Continuei a tentar sair dali, mas em vão. Já me doía a cabeça de tanto tentar furar e esforçar os arames.

Hoje sei dizer que caixas são essas, feitas de arame. Chamam-lhes gaiolas. É numa dessas que vivo agora. O que me aconteceu foi ter caído numa armadilha dos humanos e o que me surpreende foi terem usado um da minha espécie para que a armadilha funcionasse. Nunca me faltou comida, nem água, nem sombra das árvores, nem que me recolhesse do frio e da chuva. Porém, estive sempre limitado a este pequeno espaço, que partilho com os meus detritos, limpos semanalmente, o que me dá um grande alívio. Sou, desde então, observado pelas caretas dos homens, que colocam os dedos e emitem uns assobios. Tentarão comunicar? Se eles me compreendessem talvez me libertassem, por isso tenho vindo a cantar e a chilrear, na esperança que o façam. Passou-se tanto tempo e vieram as estações do frio e das chuvas, depois do calor e de novo das chuvas. Fui-me resignando, como outros pássaros enfiados em gaiolas como eu. Cantamos lamentos com saudade dos céus imensos. Por vezes damos às asas, fazendo de conta que voamos. E durante muito tempo, após a higiene e alimentação que são ainda a única condição de sermos o que somos, pássaros, fico a observar aquele meio humano. Parece-lhes indiferente a nossa tristeza. Percebi que nunca nos entenderam nos nossos lamentos. Já me levaram como chamariz para outras caçadas iguais à que fui vítima, mas recusei-me a incitar os companheiros que passavam livres. Emiti sempre fortes silvos de perigo, para que compreendessem que não se deviam aproximar. Apesar disso, alguns, talvez porque eram ainda novos, lá tiveram o mesmo destino que eu.

Ao observar os humanos fico sempre a imaginar como reagiriam eles se estivessem encarcerados em gaiolas como eu e os outros pássaros estamos. Não compreendo o sentido de tudo isto. Os humanos parecem contentes por nos verem aqui. Até parecem carinhosos connosco. Mas se gostam tanto de nós, porque não nos abrem estas ridículas portas em arame e nos deixam ser o que sempre fomos? Apenas pássaros que querem voar, brincar, cantar e comer. Livremente. Continuo à espera do futuro, com esperança. Mas não sou feliz, faço é por esquecer que estou preso aqui dentro, recordando os dias em que voava com o meu bando, migrando sempre, à procura de melhores condições. Se não precisasse de manter as minhas forças para o tão desejado dia da libertação e para que possa voar o mais alto possível, penso que deixaria de comer. A comida numa prisão sabe a fel.

Entretanto houve um dos pássaros aqui engaiolados que conseguiu escapar pela portinhola que os humanos se esqueceram de fechar quando faziam limpeza. Era um pintassilgo. Tonto talvez pela felicidade de reaver a liberdade, mal soube voar. Os homens ainda tentaram apanhá-lo. Ele escapou aos humanos, mas, distraído, talvez por se ter esquecido, depois de tanto tempo preso, do sentido do perigo, acabou nas garras de um gato que o levou na boca e o terá talvez comido. Será uma lição para que não tentemos a fuga? Não quero saber, antes morto do que para sempre engaiolado. Pelo menos deve ser boa a sensação de olhar pela última vez para as coisas sem ter barras de arame à frente… e sentir que podemos de novo voar, ainda que possa haver um gato mal intencionado à espreita… Será que vou sair daqui um dia? Onde estará o meu bando? Com esta saudade vou cantar um pouco, mas baixinho, porque fiquei muito triste ao recordar tudo o que se passou.

José Alexandre Ramos

 

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