Praça da Liberdade
Na paragem do autocarro
os velhos perfilam-se como tropas reumáticas, na esperança do melhor
lugar com vista, e atropelam-se na sua senilidade, quando assoma o
rosto quadrado envidraçado do veículo que lhes oferece o destino da
viagem como se um título de um livro se tratasse
- Praça da Liberdade.
Gera-se alguma confusão ali, os velhos com os menos velhos e os jovens
na sua resignada impaciência, permitindo
- Agora é a minha vez, jovem
quando o que fala havia chegado há momentos, e no meio da confusão, do
empurra para lá, que o autocarro vai enchendo, o motorista ronca com o
veículo a impaciência dos horários e do trânsito, as portas vão a
fechar-se
- Um momento senhor!
e enquanto o veículo a transbordar de gente arranca e não arranca, eu,
passado a último da fila,
- Um momento senhor!
entro apressadamente, já as portas se fecham atrás de mim, e o veículo
arranca vagaroso, colocando as pessoas de pé em desequilíbrio, de
encontro umas às outras, olhares que se trocam em cansaço, os que
viajam sentados despertam da sonolência destes solavancos e os velhos
protestam
- Ninguém cede lugar.
Corremos pela estrada que se vê livre do trânsito após o primeiro
cruzamento com semáforos e a primeira travagem brusca do motorista que
leva o horário no título do livro
- Praça da Liberdade
Cada cem metros a cena se repete, é uma paragem onde entram e saem
outras pessoas, cansadas do trabalho, é sexta-feira, levam para casa a
carga mal-humorada de uma semana de labuta, e ainda que cansados das
pernas, das costas, dos braços
- Ninguém cede lugar
e todos os lugares vão sendo ocupados pelos velhos, titulares de uma
condição que não arranca protestos, nem mesmo àquele jovem, que
ninguém sabe mas se compreende, pelo gesto dorido do olhar, que está
agoniado, talvez doente, talvez febril, talvez muita coisa que não nos
passa pela cabeça, e no entanto,
- Agora é a minha vez, jovem.
Os velhos que surgem pela tardinha em todas as paragens dos autocarros
junto aos jardins públicos, após uma longa jornada de naipes e suecas,
pontas de cigarro amarelecendo nos lábios, punhos em riste sobre as
mesas improvisadas, as cartas caem ao chão
- Já não é vale, reiniciemos o jogo. Toninho não te enerves pá, que
isto é a feijões!
algumas mulheres
(quiçá desempregadas, quiçá de férias, quiçá apenas mulheres donas de
casa e dos filhos, como existem desde antigamente
- Não senhor, já não há mulheres como antigamente,
ouve-se, protestando, um velhote de cabeça branca e de bengala
acompanhado por uma velhota com a mesma aparência, embora não pareça
de todo que a velhice lhe tenha chegado à língua
- Aquela puta da minha nora, Sê Jaquim, aquela puta que vai acabar com
o meu filho)
mulheres passeando pelos jardins os seus filhos, gozando de uma
liberdade escravizada pela maternidade, pela desgraça do desemprego,
ou pela resignação e ponto final.
O autocarro é como um carrossel da feira popular, destes modernos, que
chocalham as pessoas ao ponto de se assustarem de que vão ser
cuspidas. Ocupam os lugares com melhor vista as senhoras cabeça de giz
ou de um tom mais arroxeado, de gargantilhas e anéis coroados de
pedras enormes nos dedos,
- Apesar que hoje já não se pode andar na rua com o que temos, com a
ladroagem que anda por aí!
e batons vermelhos nos lábios sumidos, as unhas pintadas; e penso, que
fazem estas velhas de museu a estas horas em que os contribuintes das
suas reformas saem da penosa jorna atrás de uma linha de fabrico, de
um balcão de loja, de um escritório debitando faxes, números e
atribulações várias, não esquecendo as pobres mas moderníssimas
técnicas de limpeza, antigas mulheres-a-dias, com as mãos rubras da
esfrega e do sabão, tresandando a lixívias.
Que fazem estes velhos e velhas a horas tão impróprias num autocarro
cheio de gente em pé, a quem todas as articulações lhes doem, a quem o
olhar não suporta a claridade que cresce nas lâmpadas brancas do
autocarro, a quem os dedos não obedecem para agarrar o varão de
segurança, e tudo isto sem protestos, porque
- Agora é a minha vez, jovem,
e todas as vezes são as mesmas vezes, sempre os mesmos velhos e velhas
a quem devemos respeito; e se acaso algum distraído, ou algum
obstinado que não cede o lugar aquecido junto da vidraça,
- É esta a liberdade de hoje, antigamente não era assim, tinha-se
respeito pelos idosos!
Empolada, uma mulher de meia idade reclama, o senhor já devia era
estar em casa, a gente, que vem de trabalhar é que tem de ir em pé,
enquanto os velhos andam o dia todo a roçar os cus pelos bancos de
jardim, e a estas horas é que se lembram de vir no autocarro, vê-se
logo que não têm filhos para cuidar, jantar para fazer, roupa para
passar; e logo uma cabeça de giz,
(ou arroxeada, com gargantilhas e pedras enormes dos anéis enfiados
nos dedos rugosos),
já foi meu tempo, minha senhora, também já trabalhei e criei os meus
filhos.
De modo que todos têm razão ou não têm, uns porque lhes é realmente
devido o descanso da viagem, sem abanões, sem se esmagarem nos corpos
dos outros, porque saem do trabalho; outros porque a idade não permite
os mesmos abanões e que se esmaguem contra os corpos mais fortes. O
autocarro e o motorista é indiferente a isto tudo, ouve todos os dias
as mesmas e outras amargas lamentações e barafustos dos utentes, a ele
só lhe interessa que cumpra o horário e o destino como título de um
livro,
- Praça da Liberdade,
que os passageiros lhes mostrem os passes, principalmente os passes,
porque não há pachorra para vender o bilhete da corrida, há trocos não
há trocos, e no meio disto perde-se tanto tempo. Em todas as paragens
saem velhos, misturados com menos velhos e os jovens que querem sair,
mas
- Agora é a minha vez, jovem
e demoram tanto tempo a levantar-se dos assentos de plástico,
tremelicando pressionam o botão da campainha que avisa o motorista
STOP; as gentes saem, alguns velhos ainda ficam para trás, arrastando
lentamente o corpo por entre os outros corpos cansados que mal
conseguem mover, e nisto o motorista impiedoso arranca, e novamente os
protestos
- Um momento, senhor!
Nova travagem brusca, novo solavanco, os corpos afagam-se
promiscuamente, numa passiva e resignada intimidade com o estranho do
lado, de trás, da frente.
Até que o fim da linha surge, emancipam-se os sentados que já se
levantam, agora com pressa de outros destinos; alguns ainda vão
continuar a sua sina de utentes, porque para chegar a casa ainda falta
uma viagem de mais cinco quilómetros e outro autocarro apinhado de
gente. Para a maior parte, para os velhos que desaguam na praça e
parecem desaparecer, trata-se mesmo do fim do capítulo, e num alívio
as portas do autocarro abrem-se para a liberdade, como se de uma
prisão de tortura se tratasse; piso o chão da praça de que levava o
título no rosto quadrado do autocarro, e afinal
- Praça da Liberdade
é isso mesmo que significa, saio do autocarro reflectindo nisto e
naquilo que se passa todos os dias e sinto-me livre, livre para a pé
poder percorrer o resto do caminho que me falta para chegar a casa.
31 de Março de 2004
José Alexandre Ramos