CRÔNICAS
José Alexandre Ramos

 

Tentação

Olho para o delinear do teu corpo e perco-me em pensamento. És tentação. Por cada curva das tuas ancas, perco-me, solitário, e, embora excitado, angustiado. Porque não são as minhas mãos que te tocam, são apenas os meus olhos. É Agosto e o calor sufoca. Sufoca-me este desejo másculo e viril de te possuir, beber a tua juventude, repousar nos teus lábios as palavras que, sôfrego, não sei falar. És uma tentação, ternurenta tentação. Fresca com a brisa dos teus cabelos. Brilhante com a alvura do teu sorriso. Os teus lábios enlouquecem-me, fazem-me tremer como varas verdes. Sinto entumecido o meu membro viril, preparado para a mais longa batalha, tomar de assalto o teu corpo que respira de desejo.
Olhas-me entre a timidez dos teus poucos anos, incomodada com a inexperiência. Não sabes o que quero. Um simples beijo? Mordiscar os teus lábios até se afoguearem? Segredar-te ao ouvido um quero-te macio e ofegante?... Coras com tais pensamentos. Tens as pernas juntas, guardando o teu corpo como gazela assustada. Se pudesse pegar-te na mão… Longos dedos tens, que eternas carícias farão. Sinto todo o meu corpo faminto e inquieto, por te ver, fatigado por lutar contra a vontade de te agarrar.
Atirar-te-ia contra a palha deixada além, naquele campo deserto. Olharias o azul do céu como nunca antes havias visto. Desnudar-te-ia o teu seio branco e virgem, e na auréola do teu mamilo muito rosada atearia o fogo que consumiria os nossos dois corpos. Descobrindo-se um ao outro, e erguendo epopeias tácteis com as polpas dos dedos. Imagino afagando-te a floresta nova do teu púbis, e abririas os lábios com sede, todo o teu ser torturado de desejo.
Mas estás aí, sentada, de pernas juntas e mãos no regaço, o cabelo apanhado deixando ver a penugem de pêssego do teu pescoço e dos teus ombros descobertos. Faz calor. É Agosto na terra e no meu corpo. No teu rosto também, de tão afogueado que está. Evitas olhar-me?... Porque não vens tu ter comigo, acariciando este rosto amargurado?... Evitas-me pelo medo. Medo que cresças.
Sabes, és uma bonita mulher de dezanove anos, mas podias ter quinze ou dezassete (já serias assim tão bela?). És o encanto dos meus quarenta. Só por isso és tentação. Tivesse eu a tua idade, aprenderíamos os dois a conjugação do verbo amar, sem fazer um único som com a voz, seria a escrita da paixão sobre os dois corpos nus e virgens, fazendo do momento o mais belo poema, ou dos primeiros mais belos que escreveríamos por aquele campo deserto…
Mas, porque será a idade assim tão importante?

© 2003 José Alexandre Ramos
 

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