CRÔNICAS
José Alexandre Ramos

 

Isto de escrever

Atormentas-me com isto de escrever quase diariamente como se fosse a mesma obrigação

- Tire-me o relatório diário das vendas

e sabes muito bem que não é assim, nunca o foi, por vezes alguns colegas de escola

(a escola secundária era perto da biblioteca, mesmo ao lado, um pequeno jardim onde se sentavam casais a mordiscar-se no pescoço, as gangas roçando)

encomendavam-me poemas para oferecer às namoradas, e eu, sem saber dizer não, pegava numa folha de papel

(quadriculado, o mesmo que se usava para a disciplina de matemática de que perdi as bases, talvez no segundo ano do ciclo, hoje o sexto ano,

não,

no sétimo ano, já era no sétimo, os primeiros dias no liceu, a tal escola secundária ao lado da biblioteca, um pequeno jardim onde casais…

Papel quadriculado que nunca usava porque a matemática desde o sétimo ano nada significava para mim, um papel igual ao pavimento do jardim onde casais roçando a ganga e mordiscando-se no pescoço, ou solitários velando a água parada e suja do lago, observando o crescimento das árvores,

hoje árvores tão grandes, tantos anos passados).

De modo que, ou como dizia… os colegas apaixonados, esperando um dia deixar o lago parado e sujo e o crescimento das árvores aspirando a um pescoço mordiscado, à ganga roçada,

- Tira-me o relatório diário das vendas

ou seja,

- Escreve-me um poema como se fosse para fulana

e quem era fulana, como escrever algo para ela, um poema, uma quadra, um simples verso que fosse, não tinha jeito nenhum para literaturas de encomenda

(literaturas, que estupidez, chamar literatura a poemas que)

tal como não me é possível correr todos os dias aqui para escrever o quer que seja, não sou capaz, bem o sabes, as palavras (já to disse) atropeladas, engarrafadas; quero lá saber que isto seja uma espécie de diário, que tipo de coisas poderia eu escrever, a não ser explicar o que comi, o que bebi, quem vi, quantos quilómetros percorri, quantas vendas em relatórios onde apenas lhes falta o quadriculado, eu que nunca gostei de papeis quadriculados, e no entanto, quando,

- Escreve-me um poema como se fosse para fulana

rasgava uma folha do papel quadriculado, já que a matemática não o gastava, na altura pura e simplesmente ignorava os números; certos professores faziam a chamada pelo número do aluno e não pelo nome, e quando questionavam 19, o 19 ausente, o 19 sem resposta, sem voz, 19 repetiam e eu sem saber, ou fingindo não saber que o 19 me era destinado,

(anos mais tarde chamaram-me para uma cirurgia, e a enfermeira, indicando-me o fundo de um corredor branco,

- A sua cama é a dezanove

mas eu não respondi, não sabia que o dezanove, perdão, que a cama era para mim, eu sem responder à chamada da enfermeira, enrolada em papeis quadriculados de exames ao coração que não eram meus, nos gráficos das análises, e eu que nem sequer tinha sido visto pelo médico, a enfermeira como se tivesse um livro de ponto, apontando o fundo do corredor,

- A sua cama é a dezanove).

19 não era o meu nome e por isso não respondia, só não me era marcada a falta porque os colegas gritavam alertando-me, e eu atrapalhadíssimo, já rubro de vergonha, erguendo o braço Estou aqui, mas nunca me afirmando como um 19.

Os poemas saíam-me sem qualidade, sem sentimento, desencontrados, pareciam escritos para uma parede branca (uma fulana?), para um nada mais invisível que o próprio nada e no entanto,

- Está bom, perfeito, obrigado, vou entregar-lhe

da mesma forma que aqui também gostas do que escrevo, mas garanto-te que quando o faço porque mo pedes é como se

- 19

e eu sem responder à tua chamada, à procura do papel quadriculado de que nunca gostei
(não fica nada bem escrever nas quadrículas literatu

perdão, que estupidez,

escrever textos, esboços dessa literatura que queres tanto que eu faça, mas bem sabes que não sou capaz)

e escrevo para um nada mais invisível que o próprio nada, e tu

(talvez de pescoço mordiscado, a ganga roçada)

- Nota dezanove, muito bem!

José Alexandre Ramos

 

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