Isto de escrever
Atormentas-me com isto de escrever quase diariamente como se fosse a
mesma obrigação
- Tire-me o relatório diário das vendas
e sabes muito bem que não é assim, nunca o foi, por vezes alguns
colegas de escola
(a escola secundária era perto da biblioteca, mesmo ao lado, um
pequeno jardim onde se sentavam casais a mordiscar-se no pescoço, as
gangas roçando)
encomendavam-me poemas para oferecer às namoradas, e eu, sem saber
dizer não, pegava numa folha de papel
(quadriculado, o mesmo que se usava para a disciplina de matemática de
que perdi as bases, talvez no segundo ano do ciclo, hoje o sexto ano,
não,
no sétimo ano, já era no sétimo, os primeiros dias no liceu, a tal
escola secundária ao lado da biblioteca, um pequeno jardim onde
casais…
Papel quadriculado que nunca usava porque a matemática desde o sétimo
ano nada significava para mim, um papel igual ao pavimento do jardim
onde casais roçando a ganga e mordiscando-se no pescoço, ou solitários
velando a água parada e suja do lago, observando o crescimento das
árvores,
hoje árvores tão grandes, tantos anos passados).
De modo que, ou como dizia… os colegas apaixonados, esperando um dia
deixar o lago parado e sujo e o crescimento das árvores aspirando a um
pescoço mordiscado, à ganga roçada,
- Tira-me o relatório diário das vendas
ou seja,
- Escreve-me um poema como se fosse para fulana
e quem era fulana, como escrever algo para ela, um poema, uma quadra,
um simples verso que fosse, não tinha jeito nenhum para literaturas de
encomenda
(literaturas, que estupidez, chamar literatura a poemas que)
tal como não me é possível correr todos os dias aqui para escrever o
quer que seja, não sou capaz, bem o sabes, as palavras (já to disse)
atropeladas, engarrafadas; quero lá saber que isto seja uma espécie de
diário, que tipo de coisas poderia eu escrever, a não ser explicar o
que comi, o que bebi, quem vi, quantos quilómetros percorri, quantas
vendas em relatórios onde apenas lhes falta o quadriculado, eu que
nunca gostei de papeis quadriculados, e no entanto, quando,
- Escreve-me um poema como se fosse para fulana
rasgava uma folha do papel quadriculado, já que a matemática não o
gastava, na altura pura e simplesmente ignorava os números; certos
professores faziam a chamada pelo número do aluno e não pelo nome, e
quando questionavam 19, o 19 ausente, o 19 sem resposta, sem voz, 19
repetiam e eu sem saber, ou fingindo não saber que o 19 me era
destinado,
(anos mais tarde chamaram-me para uma cirurgia, e a enfermeira,
indicando-me o fundo de um corredor branco,
- A sua cama é a dezanove
mas eu não respondi, não sabia que o dezanove, perdão, que a cama era
para mim, eu sem responder à chamada da enfermeira, enrolada em papeis
quadriculados de exames ao coração que não eram meus, nos gráficos das
análises, e eu que nem sequer tinha sido visto pelo médico, a
enfermeira como se tivesse um livro de ponto, apontando o fundo do
corredor,
- A sua cama é a dezanove).
19 não era o meu nome e por isso não respondia, só não me era marcada
a falta porque os colegas gritavam alertando-me, e eu
atrapalhadíssimo, já rubro de vergonha, erguendo o braço Estou aqui,
mas nunca me afirmando como um 19.
Os poemas saíam-me sem qualidade, sem sentimento, desencontrados,
pareciam escritos para uma parede branca (uma fulana?), para um nada
mais invisível que o próprio nada e no entanto,
- Está bom, perfeito, obrigado, vou entregar-lhe
da mesma forma que aqui também gostas do que escrevo, mas garanto-te
que quando o faço porque mo pedes é como se
- 19
e eu sem responder à tua chamada, à procura do papel quadriculado de
que nunca gostei
(não fica nada bem escrever nas quadrículas literatu
perdão, que estupidez,
escrever textos, esboços dessa literatura que queres tanto que eu
faça, mas bem sabes que não sou capaz)
e escrevo para um nada mais invisível que o próprio nada, e tu
(talvez de pescoço mordiscado, a ganga roçada)
- Nota dezanove, muito bem!
José Alexandre Ramos