Na verdade, tá ligado
Ana
Mello
No meu laboratório doméstico fiquei analisando o vocabulário do
meu filho de doze anos e sua tribo. Tem um dos índios que em cada
frase coloca no mínimo dois: tá ligado. Tem também o tipo assim,
direto, man, ô meu.
Sei que quando jovens usamos muitas gírias, roupas parecidas, gostamos
do que nossos amigos gostam. É legal, dá segurança.
Mas além das limitações da escrita que o MSN permite e eu não dou
conta de corrigir agora mais a comunicação oral para atormentar.
Não resisti, chamei o amigo para uma conversa.
- Mateus, não quero interferir no teu modo de ser, aprovo que tenhas
amizade com meu filho, mas não achas que usas muito, tá ligado?
- Pois olha Ana, tá ligado, eu nem me dou conta, tá ligado.
Bom, a conversa aprofundou e os “tá ligado” até diminuíram.
Ele provou ser bom na argumentação, e que está bem no colégio.
Ele acredita que os adultos também usam suas gírias e enchem a
paciência repetindo-as até na TV. Referindo-se ao “na verdade”.
Expliquei que “na verdade” não é gíria, é uma locução adverbial que
quer dizer "realmente, certamente, de certo, por certo". Já usada há
muito tempo.
Machado de Assis já usou no romance D. Casmurro: “Na verdade, Capitu
ia crescendo às carreiras”. E no conto Uns braços: “Na verdade, eram
belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa do que
fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar;”.
Muitos outros autores já usam há muito tempo.
Agora está na moda, os repórteres usam nas entrevistas da TV. É usado
em diálogos informais e discursos acadêmicos. Os políticos usam muito.
O que para alguns se faz necessário, pois existe também o “na
mentira”.
Concordamos finalmente que tudo que é demais atrapalha, e que falar e
escrever corretamente requer estudo diário. Cometer erros não deve ser
motivo para desistir ou ficar acanhado. Corrigir com educação
contribui mas usar o conhecimento para constranger está completamente
por fora, é preconceito lingüístico.
MORFOLOGIA E SINTAXE
amor gramatical,
ele interrogação
ela ponto final