Amor e guisado
Ana Mello
Ah! As mulheres! Faziam tudo para agradar os homens.
Vera foi sempre assim.
Roupa lavada, comida na mesa. Cumprir os deveres de esposa depois de
ter arrumado a cozinha, colocado os meninos para dormir, passado a
roupa para o dia seguinte.
Quando ele dormia, ela levantava quietinha para ler. Era a hora que
ela tinha, só dela.
Foi lendo que ela começou a pensar se realmente as mulheres precisavam
agradar tanto para serem amadas.
Para testar seu amor e seu poder, tomou uma decisão.
Resolveu comprar guisadinho pronto no açougue. O marido não admitia.
Ela desmontou a máquina de moer carne que ela odiava lavar. Molhou e
dispôs as peças sobre a pia para secar. Seguiu tudo normalmente como
se ela tivesse moído a carne.
César sentou-se, ela serviu seu prato. Os meninos também começaram a
comer. Na primeira garfada do marido, ela acompanhando
disfarçadamente, ele fala:
- Guisado de açougue!
Vera toda ofendida:
- Imagina! Aqui em casa não entra guisado de açougue. Na viste a
máquina lavada?
- Então a máquina que está suja.
Furiosa ela encerrou o assunto. Acusada de dupla incompetência,
comprar guisado e não lavar a maldita máquina direito.
Mas o acontecimento foi aos poucos perdendo a força e a importância.
Os filhos cresceram, casaram e César cada vez mais apaixonado pela
mulher que lhe surpreendia sempre.
Vera voltou a estudar, faz aula de piano, e descobriu o que muitas
mulheres levam muitos casamentos para saber.
Os homens amam porque amam, não porque são servidos.
Na cozinha
amor e pimenta
prazer inesperado
o coração inventa