O melhor sono
Ana Mello
Aprendemos desde cedo a observar, tirar conclusões e usar da
experiência de outros para não repetir os mesmos erros. Algumas
coisas, nós fazemos, mesmo com a certeza de que é um risco ou faz mal
a saúde. Fumamos, bebemos, aceleramos em locais proibidos.
E tantos outros pecadilhos.
Ciente, ou quase, dos danos que teremos que arcar.
Talvez porque no íntimo, julgamos que determinados acontecimentos não
nos atingirão jamais. É difícil aceitar até que aconteçam com os
outros.
Há anos eu menosprezava a depressão, achava exagero, frescura até. Foi
uma depressão após o parto que me fez reconhecer a gravidade do
problema.
Fui aprendendo a respeitar os problemas de todos.
Sempre acreditei também, que exames médicos não devem ser temidos,
afinal eles estão aí para nos ajudar. Se for diagnosticado um
problema, que venha, devemos enfrentá-lo.Novamente falhei na avaliação
e na semana passada, me apavorei com uma endoscopia.
Todos dizendo que era simples e eu tremendo. Senti-me um pouco
aliviada no dia do exame, pois meus companheiros de espera
compartilhavam da mesma angústia. Ri, falei muito, foi a maneira que
usei para enfrentar o nervosismo.
Depois veio o remedinho aquele que bota a gente para dormir, derruba
até elefante.É remédio para se tomar deitado porque senão a cama
jamais será encontrada. O maldito pode produzir amnésia anterógrada,
ou seja, esquecemos os eventos recentes.
Esqueci totalmente o trajeto do hospital até em casa.
Dormi o dia inteiro, acordei com a cabeça leve.Assim fica fácil
entender, porque as pessoas que não conseguem enfrentar determinadas
situações, recorrem às drogas. Fugir do mundo e dos problemas pode
parecer uma delícia.
Sofri pelo resultado, azucrinei todo mundo mas felizmente não é nada
grave.
E tirei mais uma conclusão importante – mentira de quem diz que o
melhor sono é o sono depois do sexo. É mesmo o sono depois da
endoscopia.
Piadas a parte, tem horas em que seria bom ser criança novamente e não
ter
preocupações.
Minicontando: Jogada de menino
Voltava do trabalho, no meio da rua aquela linda bola de futebol,
novinha.
Por um momento quis ser criança novamente. Só pensar nos brinquedos,
correr e suar,
aproveitar o tempo, ver o tempo passar e querer que passe mais rápido,
até o natal.
Não pensar em contas ou em dinheiro. Comer doces e mais doces. Gelar a
garganta
com refrigerante. Adorar férias e não ter que planejá-las. Dormir
quando der sono
e acordar quando passar.
Fechei os olhos e chutei bem forte. Tive que correr.
Quebrei a janela do vizinho.