Outras Palavras
Ana Mello

 

Um pouco do lixo
Ana Mello

Aqui, o caminhão do lixo passa com hora marcada. Leva quase tudo, deixa só alguns restos, dos sacos furados pelos gatos vadios que moram na rua, ou pelos carroceiros.
Os gatos e os carroceiros têm muito em comum. Procuram comida, vivem de sobras.
Algumas vezes pedem, chorosos, quase doces. Em outras, rasgam, sujam com raiva. Dormem na rua e enroscam-se para fugir do frio. As fêmeas parecem sempre grávidas e os filhotes crescem para logo disputarem a comida. Querem família e conforto.
Não há como não produzir lixo, nem como evitar, a curto prazo, que as pessoas vivam do lixo. Lembrei agora dos versos do Manuel Bandeira, no poema O Bicho. “Vi ontem um bicho /Na imundície do pátio/Catando comida entre os detritos/Quando achava alguma
coisa/Não examinava nem cheirava/Engolia com voracidade/O bicho não era um cão,/Não era um gato/Não era um rato./O bicho, meu Deus, era um homem”.
As pesquisas mostram que o lixo pode ser fonte de riqueza, se reciclado. No Brasil, a cada ano são desperdiçados R$ 4,6 bilhões porque não se recicla tudo que poderia. Só a cidade de São Paulo produz mais de 12.000 toneladas de lixo por dia isso porque
cada ser humano produz cerca de um quilo. Atualmente, a produção anual de lixo em todo o planeta é de aproximadamente 400 milhões de toneladas (Fonte: Ambiente Brasil).
Além disso, as pessoas que trabalham no lixo desprotegidas, estão expostas a uma série de doenças como diarréias, tétano, febre tifóide, tuberculose, doenças gástricas e leptospirose.
Acredito na reciclagem, que as pessoas economizem, doem, não desperdicem. Na organização dos catadores em cooperativas. Na coleta seletiva e na responsabilidade individual. Pense – colocar o lixo em um saco e entregá-lo no caminhão – não resolve o problema. O lixo ainda é de quem o produziu. Se ele for jogado em um terreno baldio ou na beira do rio, ainda assim será nosso. É a mesma coisa que colocar embaixo do tapete, resolve por pouco tempo.
O lixo conta tudo a nosso respeito. O que comemos, escondemos ou compramos.
Menosprezá-lo é mostrar quem realmente somos.

Minicontando: Substância
João acostumou-se a trabalhar duro desde cedo. Apesar da vida não lhe dar moleza, seu coração era leve e singelo. Suas mãos, ásperas e fortes. Há anos trabalhava no lixo. Catar, separar, vender.
Já tinha visto de tudo. Fotos, roupas, livros, pássaros e cachorros mortos. Um feto, humano. Neste dia ele teve certeza – o homem dilui-se no lixo.

 

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