A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Canto IV











				1 - 	Continua a narração do Gama ao rei de Melinde
					"Depois de procelosa tempestade,
					Noturna sombra e sibilante vento,
					Traz a manhã serena claridade,
					Esperança de porto e salvamento;
					Aparta o sol a negra escuridade,
					Removendo o temor do pensamento:
					Assim no Reino forte aconteceu,
					Depois que o Rei Fernando faleceu.


				2 - 	Dom João I
					"Porque, se muito os nossos desejaram
					Quem os danos e ofensas vá vingando
					Naqueles que tão bem se aproveitaram
					Do descuido remisso de Fernando,
					Depois de pouco tempo o alcançaram,
					Joane, sempre ilustre, alevantando
					Por Rei, como de Pedro único herdeiro, 
					(Ainda que bastardo) verdadeiro.


				3
					"Ser isto ordenação dos céus divina,
					Por sinais muito claros se mostrou,
					Quando em Évora a voz de uma menina,
					Ante tempo falando o nomeou;
					E como cousa enfim que o Céu destina,
					No berço o corpo e a voz alevantou:
					— "Portugal!  Portugal!" alçando a mão
					Disse "pelo Rei novo, Dom João." —


				4 - 	Motins. Morte do conde Andeiro,
					amante da rainha Leonor Teles
					"Alteradas então do Reino as gentes
					Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,
					Absolutas cruezas e evidentes
					Faz do povo o furor por onde vinha;
					Matando vão amigos e parentes
					Do adúltero Conde e da Rainha,
					Com quem sua incontinência desonesta
					Mais (depois de viúva) manifesta.


				5
					"Mas ele enfim, com causa desonrado,
					Diante dela a ferro frio morre,
					De outros muitos na morte acompanhado,
					Que tudo o fogo erguido queima e corre:
					Quem, como Astianás, precipitado,
					(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
					A quem ordens, nem aras, nem respeito;
					Quem nu por ruas, e em pedaços feito.


				6 - 	Leonor Teles chama em seu
				  socorro o genro, D. João I de Castela
					"Podem-se pôr em longo esquecimento
					As cruezas mortais que Roma viu
					Feitas do feroz Mário e do cruento
					Sila, quando o contrário lhe fugiu.
					Por isso Lianor, que o sentimento
					Do morto Conde ao mundo descobriu,
					Faz contra Lusitânia vir Castela,
					Dizendo ser sua filha herdeira dela.


				7 - 	Prepara-se o rei de Castela para invadir Portugal
					"Beatriz era a filha, que casada
					Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
					Por filha de Fernando reputada,
					Se a corrompida fama lhe concede.
					Com esta voz Castela alevantada,
					Dizendo que esta filha ao pai sucede,
					Suas forças ajunta para as guerras
					De várias regiões e várias terras.


				8 - 	Descrição da Espanha
					Vem de toda a província que de um Brigo
					(Se foi) já teve o nome derivado;
					Das terras que Fernando e que Rodrigo
					Ganharam do tirano e Mauro estado.
					Não estimam das armas o perigo
					Os que cortando vão co'o duro arado
					Os campos Lioneses, cuja gente
					C'os Mouros foi nas armas excelente.


				9 - 	Províncias de Espanha
					"Os Vândalos, na antiga valentia
					Ainda confiados, se ajuntavam
					Da cabeça de toda Andaluzia,
					Que do Guadalquibir as águas lavam.
					A nobre Ilha também se apercebia,
					Que antigamente os Tírios habitavam,
					Trazendo por insígnias verdadeiras
					As Hercúleas colunas nas bandeiras.


				10
					"Também vem lá do Reino de Toledo,
					Cidade nobre e antiga, a quem cercando
					O Tejo em torno vai suave e ledo
					Que das serras de Conca vem manando.
					A vós outros também não tolhe o medo, 
					Ó sórdidos Galegos, duro bando,
					Que para resistirdes vos armastes,
					Aqueles, cujos golpes já provasses.


				11
					"Também movem da guerra as negras fúrias
					A gente Biscainha, que carece
					De polidas razões, e que as injúrias
					Muito mal dos estranhos compadece.
					A terra de Guipúscua e das Astúrias,
					Que com minas de ferro se enobrece,
					Armou dele os soberbos moradores,
					Para ajudar na guerra a seus senhores.


				12 - 	Aconselha-se o rei de Portugal
						com os principais do reino
					"Joane, a quem do peito o esforço cresce,
					Como a Sansão Hebréio da guedelha,
					Posto que tudo pouco lhe parece,
					Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
					E não porque conselho lhe falece,
					Co'os principais senhores se aconselha,
					Mas só por ver das gentes as sentenças:
					Que sempre houve entre muitos diferenças.


				13
					"Não falta com razões quem desconcerte
					Da opinião de todos, na vontade,
					Em quem o esforço antigo se converte
					Em desusada e má deslealdade;
					Podendo o temor mais, gelado, inerte,
					Que a própria e natural fidelidade:
					Negam o Rei e a pátria, e, se convém,
					Negarão (como Pedro) o Deus que têm.


				14 - 	Nuno Álvares Pereira
					"Mas nunca foi que este erro se sentisse
					No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
					Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
					Reprovando as vontades inconstantes,
					Aquelas duvidosas gentes disse,
					Com palavras mais duras que elegantes,
					A mão na espada, irado, e não facundo,
					Ameaçando a terra, o mar e o mundo:


				15 - 	Fala de Nuno Álvares Pereira
					—"Como!  Da gente ilustre Portuguesa
					Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,
					Como!  Desta província, que princesa
					Foi das gentes na guerra em toda a parte,
					Há-de sair quem negue ter defesa?
					Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
					De Português, e por nenhum respeito
					O próprio Reino queira ver sujeito?


				16
					—"Como!  Não seis vós inda os descendentes
					Daqueles, que debaixo da bandeira
					Do grande Henriques, feros e valentes,
					Vencestes esta gente tão guerreira?
					Quando tantas bandeiras, tantas gentes
					Puseram em fugida, de maneira
					Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
					Presos, afora a presa que tiveram?


				17
					—"Com quem foram contino sopeados
					Estes, de quem o estais agora vós,
					Por Dinis e seu filho, sublimados,
					Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?
					Pois se com seus descuidos, ou pecados,
					Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
					Torne-vos vossas forças o Rei novo:
					Se é certo que co'o Rei se muda o povo.


				18
					—"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
					Igual ao Rei que agora alevantastes,
					Desbaratareis tudo o que quiserdes,
					Quanto mais a quem já desbaratasses.
					E se com isto enfim vos não moverdes
					Do penetrante medo que tomastes,
					Atai as mãos a vosso vão receio,
					Que eu só resistirei ao jugo alheio.

			
				19
					—"Eu só com meus vassalos, e com esta 
					(E dizendo isto arranca meia espada) 
					Defenderei da força dura e infesta 
					A terra nunca de outrem sojugada.  
					Em virtude do Rei, da pátria mesta, 
					Da lealdade já por vós negada, 
					Vencerei (não só estes adversários)
					Mas quantos a meu Rei forem contrários."—


				20
					Bem como entre os mancebos recolhidos
					Em Canúsio, relíquias sós de Canas,
					Já para se entregar quase movidos
					A fortuna das forças Africanas,
					Cornélio moço os faz que, compelidos
					Da sua espada, jurem que as Romanas
					Armas não deixarão, enquanto a vida
					Os não deixar, ou nelas for perdida:


				21 - 	Preparativos de Guerra
					"Destarte a gente força e esforça Nuno, 
					Que, com lhe ouvir as últimas razões, 
					Removem o temor frio, importuno, 
					Que gelados lhe tinha os corações. 
					Nos animais cavalgam de Neptuno, 
					Brandindo e volteando arremessões; 
					Vão correndo e gritando a boca aberta: 
					—"Viva o famoso Rei que nos liberta!"—


				22
					"Das gentes populares, uns aprovam
					A guerra com que a pátria se sustinha;
					Uns as armas alimpam e renovam,
					Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
					Capacetes estofam, peitos provam,
					Arma-se cada um como convinha;
					Outros fazem vestidos de mil cores,
					Com letras e tenções de seus amores.


				23
					"Com toda esta lustrosa companhia
					Joane forte sai da fresca Abrantes,
					Abrantes, que também da fonte fria
					Do Tejo logra as águas abundantes.
					Os primeiros armígeros regia
					Quem para reger era os mui possantes
					Orientais exércitos, sem conto,
					Com que passava Xerxes o Helesponto.


				24 - 	Ordem de batalha
					"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
					Açoute de soberbos Castelhanos
					Como já o fero Huno o foi primeiro
					Para Franceses, para Italianos.
					Outro também famoso cavaleiro,
					Que a ala direita tem dos Lusitanos,
					Apto para mandá-los, e regê-los,
					Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.


				25
					"E da outra ala, que a esta corresponde,
					Antão Vasques de Almada é capitão,
					Que depois foi de Abranches nobre Conde,
					Das gentes vai regendo a sestra mão.
					Logo na retaguarda não se esconde
					Das quinas e castelos o pendão,
					Com Joane, Rei forte em toda parte,
					Que escurecendo o preço vai de Alarte.


				26
					"Estavam pelos muros, temerosas,
					E de um alegre medo quase frias,
					Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,
					Prometendo jejuns e romarias.
					Já chegam as esquadras belicosas
					Defronte das amigas companhias,
					Que com grita grandíssima os recebem,
					E todas grande dúvida concebem.


				27
					"Respondem as trombetas mensageiras,
					Pífaros sibilantes e atambores;
					Alférezes volteam as bandeiras,
					Que variadas são de muitas cores.
					Era no seco tempo, que nas eiras
					Ceres o fruto deixa aos lavradores,
					Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,
					Baco das uvas tira o doce mosto.


				28 - 	Começa a batalha
					"Deu sinal a trombeta Castelhana,
					Horrendo, fero, ingente e temeroso;
					Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
					Atrás tornou as ondas de medroso;
					Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
					Correu ao mar o Tejo duvidoso;
					E as mães, que o som terríbil escutaram,
					Aos peitos os filhinhos apertaram.


				29
					"Quantos rostos ali se vêem sem cor,
					Que ao coração acode o sangue amigo!
					Que, nos perigos grandes, o temor
					É maior muitas vezes que o perigo;
					E se o não é, parece-o; que o furor
					De ofender ou vencer o duro amigo
					Faz não sentir que é perda grande e rara,
					Dos membros corporais, da vida cara.


				30 - 	Proeza de Nuno Álvares Pereira
					"Começa-se a travar a incerta guerra;
					De ambas partes se move a primeira ala;
					Uns leva a defensão da própria terra,
					Outros as esperanças de ganhá-la;
					Logo o grande Pereira, em quem se encerra
					Todo o valor, primeiro se assinala:
					Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
					Dos que a tanto desejam, sendo alheia.


				31
					"Já pelo espesso ar os estridentes
					Farpões, setas e vários tiros voam;
					Debaixo dos pés duros dos ardentes
					Cavalos treme a terra, os vales soam;
					Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
					Quedas coas duras armas, tudo atroam;
					Recrescem os amigos sobre a pouca
					Gente do fero Nuno, que os apouca.


				32
					"Eis ali seus irmãos contra ele vão,
					(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,
					Que menos é querer matar o irmão,
					Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
					Destes arrenegados muitos são
					No primeiro esquadrão, que se adianta
					Contra irmãos e parentes (caso estranho!)
					Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.


				33 - 	Sertório. Coriolano. Catilina.
					"Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
					Catilina, e vós outros dos antigos,
					Que contra vossas pátrias, com profano
					Coração, vos fizestes inimigos,
					Se lá no reino escuro de Sumano
					Receberdes gravíssimos castigos,
					Dizei-lhe que também dos Portugueses
					Alguns tredores houve algumas vezes.


				34
					"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
					Tantos dos inimigos a eles vão!
					Está ali Nuno, qual pelos outeiros
					De Ceita está o fortíssimo leão,
					Que cercado se vê dos cavaleiros
					Que os campos vão correr de Tetuão:
					Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,
					Torvado um pouco está, mas não medroso.


				35
					"Com torva vista os vê, mas a natura
					Ferina e a ira não lhe compadecem
					Que as costas dê, mas antes na espessura
					Das lanças se arremessa, que recrescem.
					Tal está o cavaleiro, que a verdura
					Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
					Alguns dos seus, que o ânimo valente
					Perde a virtude contra tanta gente.


				36 - 	Dom João I
					"Sentiu Joane a afronta que passava
					Nuno, que, como sábio capitão,
					Tudo corria e via, e a todos dava,
					Com presença e palavras, coração.
					Qual parida leoa, fera e brava,
					Que os filhos que no ninho sós estão,
					Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
					O pastor de Massília lhos furtara;


				37
					"Corre raivosa, e freme, e com bramidos
					Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
					Tal Joane, com outros escolhidos
					Dos seus, correndo acode à primeira ala:
					—"Ó fortes companheiros, ó subidos
					Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
					Defendei vossas terras, que a esperança
					Da liberdade está na vossa lança.


				38
					—"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
					Que entre as lanças, e setas, e os arneses
					Dos inimigos corro e vou primeiro:
					Pelejai, verdadeiros Portugueses!"—
					Isto disse o magnânimo guerreiro,
					E, sopesando a lança quatro vezes,
					Com força tira; e, deste único tiro,
					Muitos lançaram o último suspiro.


				39
					"Porque eis os seus acesos novamente
					Duma nobre vergonha e honroso fogo,
					Sobre qual mais com ânimo valente
					Perigos vencerá do Márcio jogo,
					Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
					Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
					Assim recebem junto e dão feridas,
					Como a quem já não dói perder as vidas.


				40 - 	Perdas Castelhanas
					"A muitos mandam ver o Estígio lago,
					Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
					O Mestre morre ali de Santiago,
					Que fortíssimamente pelejava;
					Morre também, fazendo grande estrago,
					Outro Mestre cruel de Calatrava;
					Os Pereiras também arrenegados
					Morrem, arrenegando o Céu e os fados.


				41
					"Muitos também do vulgo vil sem nome
					Vão, e também dos nobres, ao profundo,
					Onde o trifauce Cão perpétua fome
					Tem das almas que passam deste mundo.
					E porque mais aqui se amanse e dome
					A soberba do amigo furibundo,
					A sublime bandeira Castelhana
					Foi derribada aos pés da Lusitana.


				42 - 	Desbarato do rei de Castela
					"Aqui a fera batalha se encruece
					Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
					A multidão da gente que perece
					Tem as flores da própria cor mudadas;
					Já as costas dão e as vidas; já falece
					O furor e sobejam as lançadas;
					Já de Castela o Rei desbaratado
					Se vê, e de seu propósito mudado.


				43
					"O campo vai deixando ao vencedor,
					Contente de lhe não deixar a vida.
					Seguem-no os que ficaram, e o temor
					Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
					Encobrem no profundo peito a dor
					Da morte, da fazenda despendida,
					Da mágoa, da desonra, e triste nojo
					De ver outrem triunfar de seu despojo.


				44
					"Alguns vão maldizendo e blasfemando
					Do primeiro que guerra fez no mundo;
					Outros a sede dura vão culpando
					Do peito cobiçoso e sitibundo,
					Que, por tomar o alheio, o miserando
					Povo aventura às penas do profundo,
					Deixando tantas mães, tantas esposas
					Sem filhos, sem maridos, desditosas.


				45 - 	Pasa Nuno Álvares ao Alentejo e Andaluzia
					"O vencedor Joane esteve os dias
					Costumados no campo, em grande glória;
					Com ofertas depois, e romarias,
					As graças deu a quem lhe deu vitória.
					Mas Nuno, que não quer por outras vias
					Entre as gentes deixar de si memória
					Senão por armas sempre soberanas,
					Para as terras se passa Transtaganas.


				46
					"Ajuda-o seu destino de maneira
					Que fez igual o efeito ao pensamento,
					Porque a terra dos Vândalos fronteira
					Lhe concede o despojo e o vencimento.
					Já de Sevilha a Bética bandeira
					E de vários senhores num momento
					Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa
					Obrigados da força Portuguesa.


				47 - 	Pazes
					"Destas e outras vitórias longamente
					Eram os Castelhanos oprimidos,
					Quando a paz, desejada já da gente,
					Deram os vencedores aos vencidos,
					Depois que quis o Padre onipotente
					Dar os Reis inimigos por maridos
					As duas ilustríssimas Inglesas,
					Gentis, formosas, ínclitas princesas.


				48 - 	Tomada de Ceuta por Dom João I
					"Não sofre o peito forte, usado à guerra,
					Não ter amigo já a quem faça dano;
					E assim não tendo a quem vencer na terra,
					Vai cometer as ondas do Oceano.
					Este é o primeiro Rei que se desterra
					Da Pátria, por fazer que o Africano
					Conheça, pelas armas, quanto excede
					A lei de Cristo à lei de Mafamede.


				49
					"Eis mil nadantes aves pelo argento
					Da furiosa Tethys inquieta
					Abrindo as pandas asas vão ao vento,
					Para onde Alcides pôs a extrema meta.
					O monte Abila e o nobre fundamento
					De Ceita toma, e o torpe Mahometa
					Deita fora, e segura toda Espanha
					Da Juliana, má, e desleal manha.


				50 - 	Morte de Dom João I
					"Não consentiu a morte tantos anos
					Que de Herói tão ditoso se lograsse
					Portugal, mas os coros soberanos
					Do Céu supremo quis que povoasse.
					Mas para defensão dos Lusitanos
					Deixou, quem o levou quem governasse,
					E aumentasse a terra mais que dantes, 
					Inclita geração, altos Infantes.


				51 - 	Dom Duarte
					"Não foi do Rei Duarte tão ditoso
					O tempo que ficou na suma alteza,
					Que assim vai alternando o tempo iroso
					O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
					Quem viu sempre um estado deleitoso?
					Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
					Pois inda neste Reino e neste Rei
					Não ousou ela tanto desta lei.


				52 - 	O infante Dom Fernando
					"Viu ser cativo o santo irmão Fernando,
					Que a tão altas empresas aspirava,
					Que, por salvar o povo miserando
					Cercado, ao Sarraceno se entregava.
					Só por amor da pátria está passando
					A vida de senhora feita escrava,
					Por não se dar por ele a forte Ceita:
					Mais o público bem que o seu respeita.


				53 - 	Cativeiro do infante
					"Codro, porque o inimigo não vencesse,
					Deixou antes vencer da morte a vida;
					Régulo, porque a pátria não perdesse,
					Quis mais a liberdade ver perdida.
					Este, porque se Espanha não temesse,
					Ao cativeiro eterno se convida:
					Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
					Nem os Décios leais fizeram tanto.


				54 - 	Afonso V
					"Mas Afonso, do Reino único herdeiro,
					Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,
					Que a soberba do bárbaro fronteira
					Tornou em baixa e humílima miséria,
					Fora por certo invicto cavaleiro,
					Se não quisera ir ver a terra Ibéria.
					Mas África dirá ser impossíbil
					Poder ninguém vencer o Rei terríbil.


				55 - 	Conquistas em África: Alcácer, Tânger e Arzila
					"Este pôde colher as maçãs de ouro,
					Que somente o Tiríntio colher pôde:
					Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro
					A cerviz inda agora não sacode.
					Na fronte a palma leva e o verde louro
					Das vitórias do Bárbaro, que acode
					A defender Alcácer, forte vila,
					Tângere populoso e a dura Arzila.


				56
					"Porém elas enfim por força entradas,
					Os muros abaixaram de diamante
					As Portuguesas forças, costumadas
					A derribarem quanto acham diante.
					Maravilhas em armas estremadas,
					E de escritura dinas elegante,
					Fizeram cavaleiros nesta empresa,
					Mais afinando a fama Portuguesa.


				57 - 	Guerra contra Fernando de Aragão
					"Porém depois, tocado de ambição
					E glória de mandar, amara e bela,
					Vai cometer Fernando de Aragão,
					Sobre o potente Reino de Castela.
					Ajunta-se a inimiga multidão
					Das soberbas e várias gentes dela,
					Desde Cádis ao alto Pireneu,
					Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.


				58 - 	Batalha de Toro
					"Não quis ficar nos Reinos ocioso
					O mancebo Joane, e logo ordena
					De ir ajudar o pai ambicioso,
					Que então lhe foi ajuda não pequena.
					Saiu-se enfim do trance perigoso
					Com fronte não torvada, mas serena,
					Desbaratado o pai sanguinolento
					Mas ficou duvidoso o vencimento.


				59
					"Porque o filho sublime e soberano,
					Gentil, forte, animoso cavaleiro,
					Nos contrários fazendo imenso dano,
					Todo um dia ficou no campo inteiro.
					Desta arte foi vencido Octaviano,
					E Antônio vencedor, sem companheiro,
					Quando daqueles que César mataram
					Nos Filípicos campos se vingaram.


				60 - 	D. João II
					"Porém depois que a escura noite eterna
					Afonso aposentou no Céu sereno,
					O Príncipe, que o Reino então governa,
					Foi Joane segundo e Rei trezeno.
					Este, por haver fama sempiterna,
					Mais do que tentar pode homem terreno
					Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
					Os términos, que eu vou buscando agora.


				61 - 	Explorações terrestres, em busca da Índia
					"Manda seus mensageiros, que passaram
					Espanha, França, Itália celebrada,
					E lá no ilustre porto se embarcaram
					Onde já foi Parténope enterra a:
					Nápoles, onde os Xados se mostraram,
					Fazendo-a a várias gentes subjugada,
					Pola ilustrar no fim de tantos anos
					Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.


				62
					"Pelo mar alto Sículo navegam;
					Vão-se às praias de Rodes arenosas;
					E dali às ribeiras altas chegam,
					Que com morte de Magno são famosas;
					Vão a Mênfis e às terras, que se regam
					Das enchentes Nilóticas undosas;
					Sobem à Etiópia, sobre Egito,
					Que de Cristo lá guarda o santo rito.


				63
					"Passam também as ondas Eritreias,
					Que o povo de Israel sem nau passou;
					Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
					Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
					As costas odoríferas Sabeias,
					Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
					Cercam, com toda a Arábia descoberta
					Feliz , deixando a Pétrea e a Deserta.


				64
					"Entram no estreito Pérsico, onde dura
					Da confusa Babel inda a memória;
					Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
					Que as fontes onde nascem tem por glória.
					Dali vão em demanda da água pura,
					Que causa inda será de larga história,
					Do Indo, pelas ondas do Oceano,
					Onde não se atreveu passar Trajano.


				65
					"Viram gentes incógnitas e estranhas
					Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
					Vendo vários costumes, várias manhas,
					Que cada região produze e cria.
					Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
					Tornar-se facilmente não podia:
					Lá morreram enfim, e lá ficaram,
					Que à desejada pátria não tornaram.


				66 - 	D. Manuel
					"Parece que guardava o claro Céu
					A Manuel, e seus merecimentos,
					Esta empresa tão árdua, que o moveu
					A subidos e ilustres movimentos:
					Manuel, que a Joane sucedeu
					No Reino e nos altivos pensamentos,
					Logo, corno tornou do Reino o cargo,
					Tomou mais a conquista do mar largo.


				67 - 	O sonho de D. Manuel
					"O qual, como do nobre pensamento
					Daquela obrigação, que lhe ficara
					De seus antepassados, (cujo intento
					Foi sempre acrescentar a terra cara)
					Não deixasse de ser um só momento
					Conquistado: no tempo que a luz clara
					Foge, e as estrelas nítidas, que saem,
					A repouso convidam quando caem,


				68
					"Estando já deitado no áureo leito, 
					Onde imaginações mais certas são?
					Revolvendo contino no conceito
					Seu ofício e sangue a obrigação,
					Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
					Sem lhe desocupar o coração;
					Porque, tanto que lasso se adormece, 
					Morfeu em várias formas lhe aparece.


				69 - 	Os rios Indo e Gange
					"Aqui se lhe apresenta que subia
					Tão alto, que tocava a prima Esfera,
					Donde diante vários mundos via,
					Nações de muita gente estranha e fera;
					E lá bem junto donde nasce o dia,
					Depois que os olhos longos estendera,
					Viu de antigos, longínquos e altos montes
					Nascerem duas claras e altas fontes.


				70
					"Aves agrestes, feras e alimárias,
					Pelo monte selvático habitavam;
					Mil árvores silvestres e ervas várias
					O passo e o tracto às gentes atalhavam.
					Estas duras montanhas, adversárias
					De mais conversação, por si mostravam
					Que, desque Adão pecou aos nossos anos,
					Não as romperam nunca pés humanos.




			71


					"Das águas se lhe antolha que saíam,
					Para ele os largos passos inclinando,
					Dois homens, que mui velhos pareciam,
					De aspecto, inda que agreste, venerando:
					Das pontas dos cabelos lhe caíam
					Gotas, que o corpo vão banhando;
					A cor da pele baça e denegrida,
					A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.


				72
					"Dambos de dois a fronte coroada
					Ramos não conhecidos e ervas tinha;
					Um deles a presença traz cansada,
					Como quem de mais longe ali caminha.
					E assim a água, com ímpeto alterada,
					Parecia que doutra parte vinha,
					Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
					Vai buscar os abraços de Aretusa.


				73 - 	Fala do Ganges a D. Manoel
					"Este, que era o mais grave na pessoa,
					Destarte para o Rei de longe brada:
					— "Ó tu, a cujos reinos e coroa
					Grande parte do mundo está guardada,
					Nós outros, cuja fama tanto voa,
					Cuja cerviz bem nunca foi domada,
					Te avisamos que é tempo que já mandes
					A receber de nós tributos grandes.


				74 - 	Profecias
					— "Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
					Celeste tenho o berço verdadeiro;
					Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra
					Que vês, seu nascimento tem primeiro.
					Custar-te-emos contudo dura guerra;
					Mas insistindo tu, por derradeiro,
					Com não vistas vitórias, sem receio,
					A quantas gentes vês, porás o freio."—


				75
					"Não disse mais o rio ilustre e santo,
					Mas ambos desaparecem num momento.
					Acorda Emanuel c'um novo espanto
					E grande alteração de pensamento.
					Estendeu nisto Febo o claro manto
					Pelo escuro Hemisfério sonolento;
					Veio a manhã no céu pintando as cores
					De pudibunda rosa e roxas flores.


				76 - 	Reúne D. manuel e seu conselho
					"Chama o Rei os senhores a conselho,
					E propõe-lhe as figuras da visão;
					As palavras lhe diz do santo velho,
					Que a todos foram grande admiração.
					Determinam o náutico aparelho,
					Para que com sublime coração
					Vá a gente que mandar cortando os mares
					A buscar novos climas, novos ares.


				77 - 	Vasco da Gama
					"Eu, que bem mal cuidava que em efeito
					Se pusesse o que o peito me pedia,
					Que sempre grandes cousas deste jeito
					Pressago o coração me prometia,
					Não sei por que razão, por que respeito,
					Ou por que bom sinal que em mi se via,
					Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave
					Deste cometimento grande e grave.


Comete o rei ao Gama a empresa do descobrimento
marítimo do caminho para a Índia



				78
					"E com rogo o palavras amorosas,
					Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,
					Me disse: — "As cousas árduas e lustrosas
					Se alcançam com trabalho e com fadiga;
					Faz as pessoas altas e famosas
					A vida que se perde e que periga;
					Que, quando ao medo infame não se rende,
					Então, se menos dura, mais se estende.


				79 - 	Resposta do Gama
					—"Eu vos tenho entre todos escolhido
					Para uma empresa, qual a vós se deve,
					Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
					O que eu sei que por mi vos será leve."—
					Não sofri mais, mas logo: — "Ó Rei subido,
					Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
					É tão pouco por vós, que mais me pena
					Ser esta vida cousa tão pequena.


				80
					—"Imaginai tamanhas aventuras,
					Quais Euristeu a Alcides inventava,
					O leão Cleoneu, Harpias duras,
					O porco de Erimanto, a Hidra brava,
					Descer enfim às sombras vãs e escuras
					Onde os campos de Dite a Estige lava;
					Porque a maior perigo, a mor afronta,
					Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."


				81 - 	Paulo da Gama
					"Com mercês sumptuosas me agradece
					E com razões me louva esta vontade;
					Que a virtude louvada vive e cresce,
					E o louvor altos casos persuade.
					A acompanhar-me logo se oferece,
					Obrigado d'amor e d'amizade,
					Não menos cobiçoso de honra e fama,
					O caro meu irmão Paulo da Gama.


				82 - 	Nicolau Coelho
					"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
					De trabalhos mui grande sofredor;
					Ambos são de valia e de conselho,
					De experiência em armas e furor.
					Já de manceba gente me aparelho,
					Em que cresce o desejo do valor;
					Todos de grande esforço; e assim parece
					Quem a tamanhas cousas se oferece.


				83
					"Foram de Emanuel remunerados,
					Porque com mais amor se apercebessem,
					E com palavras altas animados
					Para quantos trabalhos sucedessem.
					Assim foram os Mínias ajuntados,
					Para que o Véu dourado combatessem,
					Na fatídica Nau, que ousou primeira
					Tentar o mar Euxínio, aventureira.


				84 -  Preparativos para a partida da expedição do Gama
					"E já no porto da ínclita Ulisseia
					C'um alvoroço nobre, e é um desejo, 
					(Onde o licor mistura e branca areia
					Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
					As naus prestes estão; e não refreia
					Temor nenhum o juvenil despejo,
					Porque a gente marítima e a de Marte
					Estão para seguir-me a toda parte.


				85 - 	Na praia de Belém
					"Pelas praias vestidos os soldados
					De várias cores vêm e várias artes,
					E não menos de esforço aparelhados
					Para buscar do inundo novas partes.
					Nas fortes naus os ventos sossegados
					Ondeam os aéreos estandartes;
					Elas prometem, vendo os mares largos,
					De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.


				86
					"Depois de aparelhados desta sorte
					De quanto tal viagem pede e manda,
					Aparelhamos a alma para a morte,
					Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
					Para o sumo Poder que a etérea corte
					Sustenta só coa vista veneranda,
					Imploramos favor que nos guiasse,
					E que nossos começos aspirasse.


				87 - 	Cortejo
					"Partimo-nos assim do santo templo
					Que nas praias do mar está assentado,
					Que o nome tem da terra, para exemplo,
					Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
					Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
					Como fui destas praias apartado,
					Cheio dentro de dúvida e receio,
					Que apenas nos meus olhos ponho o freio.


				88 - 	Procissão
					"A gente da cidade aquele dia,
					(Uns por amigos, outros por parentes,
					Outros por ver somente) concorria,
					Saudosos na vista e descontentes.
					E nós coa virtuosa companhia
					De mil Religiosos diligentes,
					Em procissão solene a Deus orando,
					Para os batéis viemos caminhando.


				89 - 	Adeus e lágrimas
					"Em tão longo caminho e duvidoso
					Por perdidos as gentes nos julgavam;
					As mulheres c’um choro piedoso,
					Os homens com suspiros que arrancavam;
					Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
					Amor mais desconfia, acrescentavam
					A desesperarão, e frio medo
					De já nos não tornar a ver tão cedo.


				90
					"Qual vai dizendo: —" Ó filho, a quem eu tinha
					Só para refrigério, e doce amparo
					Desta cansada já velhice minha,
					Que em choro acabará, penoso e amaro,
					Por que me deixas, mísera e mesquinha?
					Por que de mim te vás, ó filho caro,
					A fazer o funéreo enterramento,
					Onde sejas de peixes mantimento!" —


				91
					"Qual em cabelo: —"Ó doce e amado esposo,
					Sem quem não quis Amor que viver possa,
					Por que is aventurar ao mar iroso
					Essa vida que é minha, e não é vossa?
					Como por um caminho duvidoso
					Vos esquece a afeição tão doce nossa?
					Nosso amor, nosso vão contentamento
					Quereis que com as velas leve o vento?" —


				92
					"Nestas e outras palavras que diziam
					De amor e de piedosa humanidade,
					Os velhos e os meninos os seguiam,
					Em quem menos esforço põe a idade.
					Os montes de mais perto respondiam,
					Quase movidos de alta piedade;
					A branca areia as lágrimas banhavam,
					Que em multidão com elas se igualavam.


				93
					"Nós outros sem a vista alevantarmos
					Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
					Por nos não magoarmos, ou mudarmos
					Do propósito firme começado,
					Determinei de assim nos embarcarmos
					Sem o despedimento costumado,
					Que, posto que é de amor usança boa,
					A quem se aparta, ou fica, mais magoa.


				94 - 	O velho do Restelo
					"Mas um velho d'aspeito venerando,
					Que ficava nas praias, entre a gente,
					Postos em nós os olhos, meneando
					Três vezes a cabeça, descontente,
					A voz pesada um pouco alevantando,
					Que nós no mar ouvimos claramente,
					C'um saber só de experiências feito,
					Tais palavras tirou do experto peito:


				95
					—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça 
					Desta vaidade, a quem chamamos Fama! 
					Ó fraudulento gosto, que se atiça 
					C'uma aura popular, que honra se chama!  
					Que castigo tamanho e que justiça 
					Fazes no peito vão que muito te ama!  
					Que mortes, que perigos, que tormentas, 
					Que crueldades neles experimentas!


				96
					— "Dura inquietação d'alma e da vida,
					Fonte de desamparos e adultérios,
					Sagaz consumidora conhecida
					De fazendas, de reinos e de impérios:
					Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
					Sendo dina de infames vitupérios;
					Chamam-te Fama e Glória soberana,
					Nomes com quem se o povo néscio engana!


				97
					—"A que novos desastres determinas
					De levar estes reinos e esta gente?
					Que perigos, que mortes lhe destinas
					Debaixo dalgum nome preminente?
					Que promessas de reinos, e de minas
					D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
					Que famas lhe prometerás? que histórias?
					Que triunfos, que palmas, que vitórias?


				98
					— "Mas ó tu, geração daquele insano,
					Cujo pecado e desobediência,
					Não somente do reino soberano
					Te pôs neste desterro e triste ausência,
					Mas inda doutro estado mais que humano
					Da quieta e da simples inocência,
					Idade d'ouro, tanto te privou,
					Que na de ferro e d'armas te deitou:


				99
					— "Já que nesta gostosa vaidade
					Tanto enlevas a leve fantasia,
					Já que à bruta crueza e feridade
					Puseste nome esforço e valentia,
					Já que prezas em tanta quantidades
					O desprezo da vida, que devia
					De ser sempre estimada, pois que já
					Temeu tanto perdê-la quem a dá:


				100
					— "Não tens junto contigo o Ismaelita,
					Com quem sempre terás guerras sobejas?
					Não segue ele do Arábio a lei maldita,
					Se tu pela de Cristo só pelejas?
					Não tem cidades mil, terra infinita,
					Se terras e riqueza mais desejas?
					Não é ele por armas esforçado,
					Se queres por vitórias ser louvado?


				101
					— "Deixas criar às portas o inimigo,
					Por ires buscar outro de tão longe,
					Por quem se despovoe o Reino antigo,
					Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
					Buscas o incerto e incógnito perigo
					Por que a fama te exalte e te lisonge,
					Chamando-te senhor, com larga cópia,
					Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?


				102
					— "Ó maldito o primeiro que no mundo
					Nas ondas velas pôs em seco lenho,
					Dino da eterna pena do profundo,
					Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
					Nunca juízo algum alto e profundo,
					Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
					Te dê por isso fama nem memória,
					Mas contigo se acabe o nome e glória.


				103
					— "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
					O fogo que ajuntou ao peito humano,
					Fogo que o mundo em armas acendeu
					Em mortes, em desonras (grande engano).
					Quanto melhor nos fora, Prometeu,
					E quanto para o mundo menos dano,
					Que a tua estátua ilustre não tivera
					Fogo de altos desejos, que a movera!


				104
					— "Não cometera o moço miserando
					O carro alto do pai, nem o ar vazio
					O grande Arquiteto co'o filho, dando
					Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
					Nenhum cometimento alto e nefando,
					Por fogo, ferro, água, calma e frio,
					Deixa intentado a humana geração.
					Mísera sorte, estranha condição!" —


Marco Dias - A Poesia Eterna
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