A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Canto V








				1 - 	Parte de Belém a expedição do Gama
					"Estas sentenças tais o velho honrado
					Vociferando estava, quando abrimos
					As asas ao sereno e sossegado
					Vento, e do porto amado nos partimos.
					E, como é já no mar costume usado,
					A vela desfraldando, o céu ferimos,
					Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
					Nos troncos fez o usado movimento.


				2
					"Entrava neste tempo o eterno lume 
					No animal Nemeio truculento,
					E o mundo, que com tempo se consume, 
					Na sexta idade andava enfermo e lento: 
					Nela vê, como tinha por costume, 
					Cursos do sol quatorze vezes cento, 
					Com mais noventa e sete, em que corria, 
					Quando no mar a armada se estendia.


				3
					"Já a vista pouco e pouco se desterra
					Daqueles pátrios montes que ficavam;
					Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
					De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
					Ficava-nos também na amada terra
					O coração, que as mágoas lá deixavam;
					E já depois que toda se escondeu,
					Não vimos mais enfim que mar e céu.


				4 - Em alto mar
					"Assim fomos abrindo aqueles mares,
					Que geração alguma não abriu,
					As novas ilhas vendo e os novos ares,
					Que o generoso Henrique descobriu;
					De Mauritânia os montes e lugares,
					Terra que Anteu num tempo possuiu,
					Deixando à mão esquerda; que à direita
					Não há certeza doutra, mas suspeita.


				5 - Ilha da Madeira
					"Passamos a grande Ilha da Madeira,
					Que do muito arvoredo assim se chama,
					Das que nós povoamos, a primeira,
					Mais célebre por nome que por fama:
					Mas nem por ser do mundo a derradeira
					Se lhe aventajam quantas Vênus ama,
					Antes, sendo esta sua, se esquecera
					De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.


				6 - Costa da Barbaria. Os Azenegues
					"Deixamos de Massília a estéril costa,
					Onde seu gado os Azenegues pastam,
					Gente que as frescas águas nunca gosta
					Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
					A terra a nenhum fruto enfim disposta,
					Onde as aves no ventre o ferro gastam,
					Padecendo de tudo extrema inópia,
					Que aparta a Barbaria de Etiópia.


				7 - Senegal e o Cabo Verde
					"Passamos o limite aonde chega
					O Sol, que para o Norte os carros guia,
					Onde jazem os povos a quem nega
					O filho de Climene a cor do dia.
					Aqui gentes estranhas lava e rega
					Do negro Sanagá a corrente fria,
					Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
					Chamando-se dos nossos Cabo Verde.


				8 - Canárias
					"Passadas tendo já as Canárias ilhas,
					Que tiveram por nome Fortunadas,
					Entramos, navegando, pelas filhas
					Do velho Hespério, Hespérides chamadas;
					Terras por onde novas maravilhas
					Andaram vendo já nossas armadas.
					Ali tomamos porto com bom vento,
					Por tomarmos da terra mantimento.


				9 - Ilha de Santiago
					"Aquela ilha apartamos, que tomou
					O nome do guerreiro Santiago,
					Santo que os Espanhóis tanto ajudou
					A fazerem nos Mouros bravo estrago.
					Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
					Tornamos a cortar o imenso lago
					Do salgado Oceano, e assim deixamos
					A terra onde o refresco doce achamos.

				10 - Jalofo. Mandinga
					"Por aqui rodeando a larga parte
					De África, que ficava ao Oriente,
					A província Jalofo, que reparte
					Por diversas nações a negra gente;
					A mui grande Mandinga, por cuja arte
					Logramos o metal rico e luzente,
					Que do curvo Gambeia as águas bebe,
					As quais o largo Atlântico recebe.


				11 - Dórcadas
					"As Dórcadas passamos, povoadas
					Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,
					Que de vista total sendo privadas,
					Todas três dum só olho se serviam.
					Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
					Netuno lá nas águas acendiam,
					Tornada já de todas a mais feia,
					De bívoras encheste a ardente areia.


				12 - Serra Leoa. Cabo das Palmas. Ilha de São Tomé.
					"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
					No grandíssimo gólfão nos metemos,
					Deixando a serra aspérrima Leoa,
					Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
					O grande rio, onde batendo soa
					O mar nas praias notas que ali temos,
					Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
					O nome dum que o lado a Deus tocou.


				13 - Congo. Rio Zaire. Equador.
					"Ali o mui grande reino está de Congo,
					Por nós já convertido à fé de Cristo,
					Por onde o Zaire passa, claro e longo,
					Rio pelos antigos nunca visto.
					Por este largo mar enfim me alongo
					Do conhecido pólo de Calisto,
					Tendo o término ardente já passado,
					Onde o meio do mundo é limitado.


				14 - O Cruzeiro do Sul
					"Já descoberto tínhamos diante,
					Lá no novo Hemisfério, nova estrela,
					Não vista de outra gente, que ignorante
					Alguns tempos esteve incerta dela.
					Vimos a parte menos rutilante,
					E, por falta de estrelas, menos bela,
					Do Pólo fixo, onde ainda se não sabe
					Que outra terra comece, ou mar acabe.


				15 - As ursas
					"Assim passando aquelas regiões
					Por onde duas vezes passa Apolo,
					Dois invernos fazendo e dois verões,
					Enquanto corre dum ao outro Pólo,
					Por calmas, por tormentas e opressões,
					Que sempre f az no mar o irado Eolo,
					Vimos as Ursas, apesar de Juno,
					Banharem-se nas águas de Netuno.


				16 - Casos maravilhosos
					"Contar-te longamente as perigosas
					Coisas do mar, que os homens não entendem:
					Súbitas trovoadas temerosas,
					Relâmpados que o ar em fogo acendem,
					Negros chuveiros, noites tenebrosas,
					Bramidos de trovões que o mundo fendem,
					Não menos é trabalho, que grande erro,
					Ainda que tivesse a voz de ferro.


				17
					"Os casos vi que os rudos marinheiros,
					Que têm por mestra a longa experiência,
					Contam por certos sempre e verdadeiros,
					Julgando as cousas só pela aparência,
					E que os que têm juízos mais inteiros,
					Que só por puro engenho e por ciência,
					Vêem do mundo os segredos escondidos,
					Julgam por falsos, ou mal entendidos.


				18 - O fogo de Santelmo
					"Vi, claramente visto, o lume vivo
					Que a marítima gente tem por santo
					Em tempo de tormenta e vento esquivo,
					De tempestade escura e triste pranto.
					Não menos foi a todos excessivo
					Milagre, e coisa certo de alto espanto,
					Ver as nuvens do mar com largo cano
					Sorver as altas águas do Oceano.


				19 - A tromba marítima
					"Eu o vi certamente (e não presumo
					Que a vista me enganava) levantar-se
					No ar um vaporzinho e subtil fumo,
					E, do vento trazido, rodear-se:
					Daqui levado um cano ao pólo sumo
					Se via, tão delgado, que enxergar-se
					Dos olhos facilmente não podia:
					Da matéria das nuvens parecia.


				20
					"Ia-se pouco e pouco acrescentando
					E mais que um largo masto se engrossava;
					Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
					Os golpes grandes de água em si chupava;
					Estava-se coas ondas ondeando:
					Em cima dele uma nuvem se espessava,
					Fazendo-se maior, mais carregada
					Co'o cargo grande d’água em si tomada.


				21
					"Qual roxa sanguessuga se veria
					Nos beiços da alimária (que imprudente,
					Bebendo a recolheu na fonte fria)
					Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
					Chupando mais e mais se engrossa e cria,
					Ali se enche e se alarga grandemente:
					Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
					A si, e a nuvem negra que sustenta.


				22
					"Mas depois que de todo se fartou,
					O pó que tem no mar a si recolhe,
					E pelo céu chovendo enfim voou,
					Porque coa água a jacente água molhe:
					As ondas torna as ondas que tomou,
					Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
					Vejam agora os sábios na escritura,
					Que segredos são estes de Natura.


				23
					"Se os antigos filósofos, que andaram
					Tantas terras, por ver segredos delas,
					As maravilhas que eu passei, passaram,
					A tão diversos ventos dando as velas,
					Que grandes escrituras que deixaram!
					Que influição de signos e de estrelas!
					Que estranhezas, que grandes qualidades!
					E tudo sem mentir, puras verdades.


				24 - Ilha de Santa Helena
					"Mas já o Planeta que no céu primeiro 
					Habita, cinco vezes apressada,
					Agora meio rosto, agora inteiro
					Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
					Quando da etérea gávea um marinheiro,
					Pronto coa vista, "Terra!  Terra!" brada.
					Salta no bordo alvoroçada a gente
					Co'os olhos no horizonte do Oriente.


				25
					"A maneira de nuvens se começam
					A descobrir os montes que enxergamos;
					As âncoras pesadas se adereçam;
					As velas, já chegados, amainamos.
					E para que mais certas se conheçam
					As partes tão remotas onde estamos,.
					Pelo novo instrumento do Astrolábio,
					Invenção de subtil juízo e sábio,


				26 - Desembarque na baía de Santa Helena
					"Desembarcamos logo na espaçosa,
					Parte, por onde a gente se espalhou,
					De ver eousas estranhas desejosa
					Da terra que outro povo não pisou;
					Porém eu co'os pilotos na arenosa
					Praia, por vermos em que parte estou,
					Me detenho em tomar do Sol a altura
					E compassar a universal pintura.


				27 - Aprisionamento de um indígena
					"Achamos ter de todo já passado
					Do Semicapro peixe a grande meta,
					Estando entre ele e o círculo gelado
					Austral, parte do mundo mais secreta.
					Eis, de meus companheiros rodeado,
					Vejo um estranho vir de pele preta,
					Que tomaram por força, enquanto apanha
					De mel os doces favos na montanha.


				28
					"Torvado vem na vista, como aquele
					Que não se vira nunca em tal extremo;
					Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
					Selvagem mais que o bruto Polifemo.
					Começo-lhe a mostrar da rica pelo
					De Colcos o gentil metal supremo,
					A prata fina, a quente especiaria:
					A nada disto o bruto se movia.


				29 - Soltam o indígena
					"Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
					Contas de cristalino transparente,
					Alguns soantes cascavéis pequenos,
					Um barrete vermelho, cor contente.
					Vi logo, por sinais e por acenos,
					Que com isto se alegra grandemente.
					Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
					Para a povoação que perto tinha.


				30 - Na baía de Santa Helena
					"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
					Todos nus, e da cor da escura treva,
					Descendo pelos ásperos outeiros,
					As peças vêm buscar que estoutro leva:
					Domésticos já tanto e companheiros
					Se nos mostram, que fazem que se atreva
					Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
					E partir-se com eles pelo mato.


				31 - Aventura de Fernão Veloso
					"É Veloso no braço confiado,
					E de arrogante crê que vai seguro;
					Mas, sendo um grande espaço já passado,
					Em que algum bom sinal saber procuro,
					Estando, a vista alçada, co'o cuidado
					No aventureiro, eis pelo monto duro
					Aparece, e, segundo ao mar caminha,
					Mais apressado do que fora, vinha.


				32
					"O batel de Coelho foi depressa
					Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
					Um Etíope ousado se arremessa
					A ele, por que não se lhe escapasse;
					Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
					Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
					Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
					Se mostra um bando negro descoberto.


				33 - Escaramuça com os indígenas
					"Da espessa nuvem setas e pedradas
					Chovem sobre nós outros sem medida;
					E não foram ao vento em vão deitadas,
					Que esta perna trouxe eu dali ferida;
					Mas nós, como pessoas magoadas,
					A resposta lhe demos tão tecida,
					Que, em mais que nos barretes, se suspeita 
					Que a cor vermelha levam desta feita.


				34
					"E sendo já, Veloso em salvamento,
					Logo nos recolhemos para a armada,
					Vendo a malícia feia e rudo intento
					Da gente bestial, bruta e malvada,
					De quem nenhum melhor conhecimento
					Pudemos ter da índia desejada
					Que estarmos ainda muito longe dela;
					E assim tornei a dar ao vento a vela.


				35
					"Disse então a Veloso um companheiro 
					(Começando-se todos a sorrir) 
					—"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
					É melhor de descer que de subir."
					— "Sim, é, (responde o ousado aventureiro) 
					Mas quando eu para cá vi tantos vir 
					Daqueles cães, depressa um pouco vim, 
					Por me lembrar que estáveis cá sem


				36
					"Contou então que, tanto que passaram
					Aquele monte, os negros de quem falo,
					Avante mais passar o não deixaram,
					Querendo, se não torna, ali matá-lo;
					E tornando-se, logo se emboscaram,
					Por que, saindo nós para tomá-lo,
					Nos pudessem mandar ao reino escuro,
					Por nos roubarem mais a seu seguro.


				37 - Continua a navegação
					"Porém já cinco Sóis eram passados 
					Que dali nos partíramos, cortando 
					Os mares nunca doutrem navegados, 
					Prósperamente os ventos assoprando, 
					Quando uma noite estando descuidados, 
					Na cortadora proa vigiando,
					Uma nuvem que os ares escurece 
					Sobre nossas cabeças aparece.


				38 - O Adamastor
					"Tão temerosa vinha e carregada,
					Que pôs nos corações um grande medo;
					Bramindo o negro mar, de longe brada
					Como se desse em vão nalgum rochedo.
					— "Ó Potestade, disse, sublimada!
					Que ameaço divino, ou que segredo
					Este clima e este mar nos apresenta,
					Que mor cousa parece que tormenta?" —


				39
					"Não acabava, quando uma figura
					Se nos mostra no ar, robusta e válida,
					De disforme e grandíssima estatura,
					O rosto carregado, a barba esquálida,
					Os olhos encovados, e a postura
					Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
					Cheios de terra e crespos os cabelos,
					A boca negra, os dentes amarelos.


				40
					"Tão grande era de membros, que bem posso
					Certificar-te, que este era o segundo
					De Rodes estranhíssimo Colosso,
					Que um dos sete milagres foi do mundo:
					Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
					Que pareceu sair do mar profundo:
					Arrepiam-se as carnes e o cabelo
					A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.


				41 - Fala de Adamastor aos portugueses
					"E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas
					No mundo cometeram grandes cousas,
					Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
					E por trabalhos vãos nunca repousas,
					Pois os vedados términos quebrantas,
					E navegar meus longos mares ousas,
					Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
					Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:


				42 - Fala do Adamastor
					— "Pois vens ver os segredos escondidos
					Da natureza e do úmido elemento,
					A nenhum grande humano concedidos
					De nobre ou de imortal merecimento,
					Ouve os danos de mim, que apercebidos
					Estão a teu sobejo atrevimento,
					Por todo o largo mar e pela terra,
					Que ainda hás de sojugar com dura guerra.


				43 - Profecias do Adamastor
					— "Sabe que quantas naus esta viagem 
					Que tu fazes, fizerem de atrevidas, 
					Inimiga terão esta paragem
					Com ventos e tormentas desmedidas.
					E da primeira armada que passagem
					Fizer por estas ondas insofridas,
					Eu farei d'improviso tal castigo,
					Que seja mor o dano que o perigo.


				44 - Bartolomeu Dias. Naufrágios.
					— "Aqui espero tomar, se não me engano, 
					De quem me descobriu, suma vingança.  
					E não se acabará só nisto o dano 
					Da vossa pertinace confiança;
					Antes em vossas naus vereis cada ano,
					Se é verdade o que meu juízo alcança,
					Naufrágios, perdições de toda sorte,
					Que o menor mal de todos seja a morte.


				45 - Dom Francisco de Almeida
					— "É do primeiro Ilustre, que a ventura
					Com fama alta fizer tocar os Céus,
					Serei eterna e nova sepultura,
					Por juízos incógnitos de Deus.
					Aqui porá da Turca armada dura
					Os soberbos e prósperos troféus;
					Comigo de seus danos o ameaça
					A destruída Quíloa com Mombaça.


				46 - Manoel de Sousa de Sepúlveda
e sua mulher dona Leonor

					— "Outro também virá de honrada fama,
					Liberal, cavaleiro, enamorado,
					E consigo trará a formosa dama
					Que Amor por grã mercê lhe terá dado.
					Triste ventura e negro fado os chama
					Neste terreno meu, que duro e irado
					Os deixará dum cru naufrágio vivos
					Para verem trabalhos excessivos.


				47
					— "Verão morrer com fome os filhos caros,
					Em tanto amor gerados e nascidos;
					Verão os Cafres ásperos e avaros
					Tirar à linda dama seus vestidos;
					Os cristalinos membros e perclaros
					A calma, ao frio, ao ar verão despidos,
					Depois de ter pisada longamente
					Co'os delicados pés a areia ardente.


				48
					— "E verão mais os olhos que escaparem
					De tanto mal, de tanta desventura,
					Os dois amantes míseros ficarem
					Na férvida e implacável espessura.
					Ali, depois que as pedras abrandarem
					Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
					Abraçados as almas soltarão
					Da formosa e misérrima prisão." —


				49 - Adamastor narra ao Gama sua vida
					"Mais ia por diante o monstro horrendo
					Dizendo nossos fados, quando alçado
					Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo
					Corpo certo me tem maravilhado.—
					A boca e os olhos negros retorcendo,
					E dando um espantoso e grande brado,
					Me respondeu, com voz pesada e amara,
					Como quem da pergunta lhe pesara:


				50
					— "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
					A quem chamais vós outros Tormentório,
					Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
					Plínio, e quantos passaram, fui notório.
					Aqui toda a Africana costa acabo
					Neste meu nunca visto Promontório,
					Que para o Pólo Antarctico se estende,
					A quem vossa ousadia tanto ofende.


				51 - Guerra dos Gigantes contra Júpiter 
					— "Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
					Qual Encélado, Egeu e o Centimano;
					Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
					Contra o que vibra os raios de Vulcano;
					Não que pusesse serra sobre serra,
					Mas conquistando as ondas do Oceano,
					Fui capitão do mar, por onde andava
					A armada de Netuno, que eu buscava.


				52 - Amor de Adamastor por Tétis
					— "Amores da alta esposa de Peleu
					Me fizeram tomar tamanha empresa.
					Todas as Deusas desprezei do céu,
					Só por amar das águas a princesa.
					Um dia a vi coas filhas de Nereu
					Sair nua na praia, e logo presa
					A vontade senti de tal maneira
					Que ainda não sinto coisa que mais queira.


				53
					— "Como fosse impossível alcançá-la 
					Pela grandeza feia de meu gesto, 
					Determinei por armas de tomá-la, 
					E a Doris este caso manifesto.
					De medo a Deusa então por mim lhe fala;
					Mas ela, com um formoso riso honesto,
					Respondeu: — "Qual será o amor bastante
					De Ninfa que sustente o dum Gigante?


				54 - Adamastor e Tétis
					— "Contudo, por livrarmos o Oceano 
					De tanta guerra, eu buscarei maneira, 
					Com que, com minha honra, escuse o dano."
					Tal resposta me torna a mensageira.  
					Eu, que cair não pude neste engano, 
					(Que é grande dos amantes a cegueira) 
					Encheram-me com grandes abondanças 
					O peito de desejos e esperanças.


				55
					— "Já néscio, já da guerra desistindo,
					Uma noite de Dóris prometida,
					Me aparece de longe o gesto lindo
					Da branca Tétis única despida:
					Como doido corri de longe, abrindo
					Os braços, para aquela que era vida
					Deste corpo, e começo os olhos belos
					A lhe beijar, as faces e os cabelos.


				56
					— "Ó que não sei de nojo como o conte!  
					Que, crendo ter nos braços quem amava, 
					Abraçado me achei com um duro monte 
					De áspero mato e de espessura brava.  
					Estando com um penedo fronte a fronte, 
					Que eu pelo rosto angélico apertava 
					Não fiquei homem não, mas mudo e quedo, 
					E junto dum penedo outro penedo.


				57 - Adamastor e Tétis
					— "Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
					Já que minha presença não te agrada,
					Que te custava ter-me neste engano,
					Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
					Daqui me parto irado, e quase insano
					Da mágoa e da desonra ali passada,
					A buscar outro inundo, onde não visse
					Quem de meu pranto e de meu mal se risse,


				58 - Castigo de Adamastor
					— "Eram já neste tempo meus irmãos
					Vencidos e em miséria extrema postos;
					E por mais segurar-se os Deuses vãos,
					Alguns a vários montes sotopostos:
					E como contra o Céu não valem mãos,
					Eu, que chorando andava meus desgostos,
					Comecei a sentir do fado inimigo
					Por meus atrevimentos o castigo.


				59 - Transformação de Adamastor no 
Cabo das Tormentas

					— "Converte-se-me a carne em terra dura, 
					Em penedos os ossos se  fizeram,
					Estes membros que vês e esta figura
					Por estas longas águas se estenderam; 
					Enfim, minha grandíssima estatura
					Neste remoto cabo converteram
					Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,
					Me anda Tétis cercando destas águas." —


				60
					"Assim contava, e com um medonho choro
					Súbito diante os olhos se apartou;
					Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
					Bramido muito longe o mar soou.
					Eu, levantando as mãos ao santo coro
					Dos anjos, que tão longe nos guiou,
					A Deus pedi que removesse os duros
					Casos, que Adamastor contou futuros.


				61 - Na angra de São Brás
					"Já Flegon e Piróis vinham tirando
					Com os outros dois o carro radiante,
					Quando a terra alta se nos foi mostrando,
					Em que foi convertido o grão Gigante.
					Ao longo desta costa, começando
					Já de cortar as ondas do Levante,
					Por ela abaixo um pouco navegamos,
					Onde segunda vez terra tomamos.


				62 - Acorrem à praia os indígenas
					"A gente que esta terra possuía, 
					Posto que todos Etíopes eram,
					Mais humana no trato parecia
					Que os outros, que tão mal nos receberam.
					Com bailos e com festas de alegria
					Pela praia arenosa a nós vieram,
					As mulheres consigo e o manso gado
					Que apascentavam, gordo e bem criado.


				63 - Costumes
					"As mulheres queimadas vêm em cima
					Dos vagarosos bois, ali sentadas,
					Animais que eles têm em mais estima
					Que todo o outro gado das manadas.
					Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
					Na sua língua cantam concertadas
					Com o doce som das rústicas avenas,
					Imitando de Títiro as Camenas.


				64 - Continua a navegação
					"Estes, como na vista prazenteiros
					Fossem, humanamente nos trataram,
					Trazendo-nos galinhas e carneiros,
					A troco doutras peças, que levaram.
					Mas como nunca enfim meus companheiros
					Palavra sua alguma lhe alcançaram
					Que desse algum sinal do que buscamos,
					As velas dando, as âncoras levamos.


				65 - Ilhéu de Santa-Cruz
					"Já aqui tínhamos dado um grã rodeio
					A costa negra de África, e tornava
					A proa a demandar o ardente meio
					Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:
					Aquele ilhéu deixamos, onde veio
					Outra armada primeira, que buscava
					O Tormentório cabo, e descoberto,
					Naquele ilhéu fez seu limite certo.

				66 - Correntes marítimas
					Daqui fomos cortando muitos dias
					Entre tormentas tristes e bonanças,
					No largo mar fazendo novas vias,
					Só conduzidos de árduas esperanças.
					Colo mar um tempo andamos em porfias,
					Que, como tudo nele são mudanças.
					Corrente nele achamos tão possante
					Que passar não deixava por diante.


				67
					"Era maior a força em demasia,
					Segundo para trás nos obrigava,
					Do mar, que contra nós ali corria,
					Que por nós a do vento que assoprava.
					Injuriado Noto da porfia
					Em que colo mar (parece) tanto estava,
					Os assopros esforça iradamente,
					Com que nos fez vencer a grão corrente.


				68 - Rio dos Reis
					"Trazia o Sol o dia celebrado,
					Em que três Reis das partes do Oriento
					Foram buscar um Rei de pouco nado,
					No qual Rei outros três há juntamente.
					Neste dia outro porto foi tomado
					Por nós, da mesma já contada gente,
					Num largo rio, ao qual o no e demos
					Do dia, em que por ele nos metemos.



				69
					"Desta gente refresco algum tomamos,
					E do rio fresca água; mas contudo
					Nenhum sinal aqui da Índia achamos
					No Povo, com nós outros quase mudo.
					Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos,
					Sem sair nunca deste povo rudo,
					Sem vermos nunca nova nem sinal
					Da desejada parte Oriental.


				70 - Rio dos Reis
					"Ora imagina agora coitados
					Andaríamos todos, perdidos,
					De fomes, de tormentas quebrantados,
					Por climas e por mares não sabidos,
					E do esperar comprido tão cansados,
					Quanto a desesperar já compelidos,
					Por céus não naturais, de qualidade
					Inimiga de nossa humanidade.


				71 - Lealdade ao rei de Portugal
					"Corrupto já e danado o mantimento,
					Danoso e mau ao fraco corpo humano,
					E além disso nenhum contentamento,
					Que sequer da esperança fosse engano.
					Crês tu que, se este nosso ajuntamento
					De soldados não fora Lusitano,
					Que durara ele tanto obediente
					Por ventura a seu Rei e a seu regente?




				72
					"Crês tu que já não foram levantados 
					Contra seu Capitão, se os resistira, 
					Fazendo-se piratas, obrigados
					De desesperação, de fome, de ira?  
					Grandemente, por certo, estão provados, 
					Pois que nenhum trabalho grande os tira 
					Daquela Portuguesa alta excelência 
					De lealdade firme, e obediência.


				73 - Continua a navegação. Sofala.
					"Deixando o porto enfim do doce rio
					E tornando a cortar a água salgada,
					Fizemos desta costa algum desvio,
					Deitando para o pego toda a armada;
					Porque, ventando Noto manso e frio,
					Não nos apanhasse a água da enseada,
					Que a costa faz ali daquela banda
					Donde a rica Sofala o ouro manda.


				74
					"Esta passada, logo o leve leme 
					Encomendado ao sacro Nicolau,
					Para onde o mar na costa brada e geme,
					A proa inclina duma e doutra nau;
					Quando indo o coração que espera e teme
					E que tanto fiou dum fraco pau
					Do que esperava já desesperado,
					Foi duma novidade alvoroçado




				75 - Rio dos Bons-Sinais
					"E foi que, estando já da costa perto,
					Onde as praias e vales bem se viam,
					Num rio, que ali sai ao mar aberto,
					Batéis à vela entravam e saíam.
					Alegria muito grande foi por certo
					Acharmos já pessoas que sabiam
					Navegar, porque entre elas esperamos
					De achar novas algumas, como achamos.


				76 - Os indígenas
					"Etíopes são todos, mas parece
					Que com gente melhor comunicavam;
					Palavra alguma Arábia se conhece
					Entre a linguagem sua que falavam;
					E com pano delgado, que se tece
					De algodão, as cabeças apertavam;
					Com outro, que de tinta azul se tinge,
					Cada um as vergonhosas partes cinge.


				77 - Informações
					"Pela Arábica língua, que mal falam,
					E que Fernão Martins muito bem entende,
					Dizem que por naus, que em grandeza igualam
					As nossas, o seu mar se corta e fende;
					Mas que lá donde sai o Sol, se abalam
					Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
					E do Sul para o Sol, terra onde havia
					Gente, assim como nós, da cor do dia.


				78 - Levantam um padrão
					"Muito grandemente aqui nos alegramos
					Com a gente, e com as novas muito mais:
					Pelos sinais que neste rio achamos
					O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
					Um padrão nesta terra alevantamos,
					Que, para assinalar lugares tais,
					Trazia alguns; o nome tem do belo
					Guiador de Tobias a Gabelo.


				79 - Espalmam as naus
					"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos, 
					Nojosa criação das águas fundas, 
					Alimpamos as naus, que dos caminhos 
					Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.  
					Dos hóspedes que tínhamos vizinhos, 
					Com mostras aprazíveis e jocundas, 
					louvemos sempre o usado mantimento, 
					Limpos de todo o falso pensamento.


				80 - O escorbuto
					"Mas não foi, da esperança grande e imensa
					Que nesta terra houvemos, limpa e pura
					A alegria; mas logo a recompensa
					A Ramnúsia com nova desventura.
					Assim no céu sereno se dispensa:
					Com esta condição pesada e dura
					Nascemos: o pesar terá firmeza,
					Mas o bem logo muda a natureza.


				81
					"E foi que de doença crua e feia,
					A mais que eu nunca vi, desampararam
					Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
					Os ossos para sempre sepultaram.
					Quem haverá que, sem o ver, o creia?
					Que tão disformemente ali lhe incharam
					As gengivas na boca, que crescia
					A carne, e juntamente apodrecia.


				82
					"— Apodrecia com um fétido e bruto
					Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
					Não tínhamos ali médico astuto,
					Cirurgião subtil menos se achava;
					Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,
					Pela carne já podre assim cortava
					Como se fora morta, e bem convinha,
					Pois que morto ficava quem a tinha.


				83
					"Enfim que nesta incógnita espessura
					Deixamos para sempre os companheiros,
					Que em tal caminho e em tanta desventura
					Foram sempre conosco aventureiros.
					Quão fácil é ao corpo a sepultura!
					Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
					Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
					Receberão de todo o Ilustre os ossos.





				84 - Continua a navegação. Moçambique. Mombaça.
					"Assim que, deste porto nos partirmos 
					Com maior esperança e maior tristeza, 
					E pela costa abaixo o mar abrirmos 
					Buscando algum sinal de mais firmeza.  
					Na dura Moçambique enfim surgimos, 
					De cuja falsidade e má vileza
					Já serás sabedor, e dos enganos
					Dos povos de Mombaça pouco humanos.


				85 - Em Melinde
					"Até que aqui no teu seguro porto,
					Cuja brandura e doce tratamento
					Dará saúde a um vivo, e vida a um morto,
					Nos trouxe a piedade do alto assento.
					Aqui repouso, aqui doce conforto,
					Nova quietação do pensamento
					Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste, 
					Te contei tudo quanto me pediste.


				86 - Encarecimento do feito dos portugueses
					"Julgas agora, Rei, se houve no mundo
					Gentes que tais caminhos cometessem?
					Crês tu que tanto Eneias e o facundo
					Ulisses pelo inundo se estendessem?
					Ousou algum a ver do mar profundo,
					Por mais versos que dele se escrevessem,
					Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,
					E do que ainda hei de ver, a oitava parte?


				87 - Homero e Virgílio
					"Esse que bebeu tanto da água Aónia,
					Sobre quem tem contenda peregrina,
					Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia,
					Atenas, Ios, Argo e Salamina:
					Esse outro que esclarece toda Ausónía,
					A cuja voz altíssona e divina
					Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece,
					Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;


				88
					Cantem , louvem e escrevam sempre extremos
					Desses seus Semideuses, e encareçam,
					Fingindo Magis Circes, Polifemos,
					Sirenas que com o canto os adormeçam;
					Dêem-lhe mais navegar à vela e remos
					Os Cicones, e a torra onde se esqueçam
					Os companheiros, em gostando o Loto;
					Dêem-lhe perder nas águas o piloto;


				89 - Conclui o Gama a narração ao Rei de Melinde
					"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem
					Dos odres e Calipsos namoradas;
					Harpias que o manjar lhe contaminem;
					Descer às sombras nuas já passadas:
					Que por muito e por muito que se afinem
					Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,
					A verdade que eu conto nua e pura
					Vence toda grandíloqua escritura."



				90 - Admiração pelo feito dos portugueses
					Da boca do facundo Capitão
					Pendendo estavam todos embebidos,
					Quando deu fim à longa narração
					Dos altos feitos grandes e subidos.
					Louva o Rei o sublime coração
					Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
					Da gente louva a antiga fortaleza,
					A lealdade de ânimo e nobreza.


				91 - Retira-se o rei de Melinde
					Vai recontando o povo, que se admira,
					O caso cada qual que mais notou;
					Nenhum deles da gente os olhos tira,
					Que tão longos caminhos rodeou.
					Mas já o mancebo Délio as rédeas vira
					Que o irmão de Lampécia mal guiou,
					Por vir a descansar nos Tétios braços;
					E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.


				92 - A glória
					Quão doce é o louvor e a justa glória
					Dos próprios feitos, quando são soados!
					Qualquer nobre trabalha que em memória
					Vença ou iguale os grandes já passados.
					As invejas da ilustre e alheia história
					Fazem mil vezes feitos sublimados.
					Quem valerosas obras exercita,
					Louvor alheio muito o esperta e incita.

				93 - O gosto das letras
					Não tinha em tanto os feitos gloriosos
					De Aquiles, Alexandro na peleja,
					Quanto de quem o canta, os numerosos
					Versos; isso só louva, isso deseja.
					Os troféus de Melcíades famosos
					Temístoeles despertam só de inveja,
					E diz que nada tanto o deleitava
					Como a voz que seus feitos celebrava.


				94 - Virgílio
					Trabalha por mostrar Vasco da Gama
					Que essas navegações que o mundo canta
					Não merecem tamanha glória e fama
					Como a sua, que o céu e a terra espanta.
					Si; mas aquele Herói, que estima e ama
					Com dons, mercês,. favores e honra tanta
					A lira Mantuana, faz que soe
					Eneias, e a Romana glória voe.


				95 - Octávio
					Dá a terra lusitana Cipiões,
					Césares, Alexandros, e dá Augustos;
					Mas não lhe dá contudo aqueles dois
					Cuja falta os faz duros e robustos.
					Octávio, entre as maiores opressões,
					Compunha versos doutos e venustos.
					Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
					Quando a deixava Antônio por Glafira,



				96 - César, Alexandre e Cipião
					Vai César, sojugando toda França, 
					E as armas não lhe impedem a ciência; 
					Mas , numa mão a pena e noutra a lança, 
					Igualava de Cícero a eloquência.  
					O que de Cipião se sabe e alcança, 
					É nas comédias grande experiência.  
					Lia Alexandro a Homero de maneira 
					Que sempre se lhe sabe à cabeceira.


				97
					Enfim, não houve forte capitão,
					Que não fosse também douto e ciente,
					Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
					Senão da Portuguesa tão somente.
					Sem vergonha o não digo, que a razão
					De algum não ser por versos excelente,
					É não se ver prezado o verso e rima,
					Porque, quem não sabe arte, não na estima.


				98 - Desamor de Portugal às boas letras
					Por isso, e não por falta de natura,
					Não há também Virgílios nem Homeros;
					Nem haverá, se este costume dura,
					Pios Eneias, nem Aquiles feros.
					Mas o pior de tudo é que a ventura
					Tão ásperos os fez, e tão austeros,
					Tão rudos, e de engenho tão remisso,
					Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.



				99 - O amor à Pátria
					As Musas agradeça o nosso Gama
					o Muito amor da Pátria, que as obriga
					A dar aos seus na lira nome e fama
					De toda a ilustro e bélica fadiga:
					Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
					Calíope não tem por tão amiga,
					Nem as filhas do Tejo, que deixassem
					As telas douro fino, e que o cantassem.


				100
					Porque o amor fraterno e puro gosto
					De dar a todo o Lusitano feito
					Seu louvor, é somente o pressuposto
					Das Tágides gentis, e seu respeito.
					Porém não deixe enfim de ter disposto
					Ninguém a grandes obras sempre o peito,
					Que por esta, ou por outra qualquer via,
					Não perderá seu preço, e sua valia.








Copyright Marco Dias - A Poesia Eterna
Voltar para A Poesia Eterna
Os Lusíadas, outros Cantos

 A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.