A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

ALEXANDRE O'NEILL

Biografia

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Alexandre O’Neill, de seu nome completo Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões, nasceu em 1924 e faleceu em 1986.

Foi co-fundador, em 1947, do Grupo Surrealista de Lisboa, do qual se afastou mais tarde.

Colaborou em diversas publicações nomeadamente em Mundo literário, Seara Nova, Unicórnio, Cadernos de Poesia, Diário Popular, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, entre outros e foi co-director de Critérios. A sua poesia está cheia de associações de ideias e de jogos de palavras.

O seu primeiro poema gráfico A Ampola Milagrosa, data de 1948. Em 1982 foi agraciado com o Prémio da Associação de Críticos Literários.

 

 

Obra:

Ficção
As ANdorinhas não Têm Restaurante, 1970
Uma Coisa em Forma de Assim , 1980
 

Poesia
A Ampola Milagrosa, 1948
Tempo de Fantasmas , 1951
No Reino da Dinamarca , 1958
Abandono Vigiado , 1960
Poemas com Endereço, 1962
Feira Cabisbaixa, 1965
De Ombro na Ombreira , 1969
As Horas Já de Número Vestidas, 1981
Poesias Completas, 1984
O Princípio da Utopia , 1986
 


Poesias Eternas

 Flor em Livro Dormida

Lego

Toma Toma Toma

Retrato

De Porta em Porta

O Amor é Amor

Em todo o caso

Amigo

 

 

 

 


Flor em Livro Dormida

(J. C. de Melo Neto)

1983

 

Fechado, espalmado num missal é que eu me vejo,

como peça de herbário dum comércio amoroso

que há um século se travou entre Dom Brotoejo

e Dona Amélia Joana Cisneiros Monterroso.

 

Antepassados meus? Qual quê! Antepassados nossos,

que ao santo sacrifício levavam floretas,

trocavam os missais (Deus meu!, hoje são ossos...)

olhos nos olhos (... ossos nos ossos das comuns valetas?)

 

Mais que a letra, é o espírito que no livro procuro,

mesmo que seja só o levante da carne

duns pobres queridos que tranformavam tudo

- missa, missal, flor - em mensagens e secreto alarde!

 

Consumidores de livros, se quiserdes salvar

vossas almas-lombadas de bárbaros prosaicos,

tereis que, furtivos, procurar, folhear

uns quantos alfarrábios e, neles, encontrar

o herbário-mensagem dos amantes heróicos!

 

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 Lego

1979

 

 

Está tudo conformado

ao triste proprietário.

Mecânicas ovelhas,

na erva de plástico,

têm pastor de pilhas

e cão pré-fabricado.

Flores marginam esse

às peças-soltas prado.

Eléctricas abelhas,

obreiras sem contrato,

daquele herbário extraem

um mel supermercado.

A malhada, no estábulo,

quase manga de alpaca

(é A VACA, sabias?),

dá leite engarrafado.

No céu (para colorir)

a nuvem, pontual,

aguarda a vez de ser

chovida no nabal,

enquanto o Sol dardeja

na eira proverbial.

Já tudo afeiçoado

ao bom do proprietário

(ervas, bichos, moral),

ele conta com os seus

e espera sempre em Deus.

 

("- Deste corda ao pardal?"").

 

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Toma Toma Toma

1979

 

 

Ainda prefiro os bonecos de cahcaporra,

contundentes, contundidos, esmocados,

com vozes de cana rachada e um toma toma toma

de quem não usa a moca para coçar os piolhos,

mas para rachar as cabeças.

 

O padreca, o diabo, a criadita,

o tarata, a velha alcoviteira, o galã

e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,

tramavam para nós a estafada estória

da nossa própria vida.

 

Mundo de pasta e de trapo

que armava barraca em qualquer canto

e sem contemplações pela moral de classe

nem as subtilezas de quem fica ileso

desancava os maus e beijocava os bons.

 

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.

 

Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses

matraquilhos da comédia humana.

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1972

 

já não é hoje?

          não é aquioje?

 

já foi ontem

          será amanhã?

 

já quandonde foi?

          quandonde será?

 

          eu queria um jàzinho que fosse

          aquijá

          tuoje aquijá.

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Retrato

1962

 

 

O'Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada...)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) duas maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer

       Mas sofre de ternura, bebe de mais ri-se

       do que neste soneto sobre si mesmo disse...

 

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De Porta em Porta

1960

 

- Quem? O infinito?

Diz-lhe que entre.

Faz bem ao infinito

estar entre gente.

 

- Uma esmola? Coxeia?

Ao que ele chegou!

Podes dar-lhe a bengala

que era do avô.

 

- Dinheiro? Isso não!

Já sei, pobrezinho,

que em vez de pão

ia comprar vinho...

 

- Teima? Que topete!

Quem se julga ele

se um tigre acabou

nesta sala em tapete?

 

- Para ir ver a mãe?

Essa é muito forte!

Ele não tem mãe

e não é do Norte...

 

- Vitima de quê?

O dito está dito.

Se não tinha estofo

quem o mandou ser

infinito?

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O Amor é Amor

1960

 

O amor é o amor - e depois?

Vamos ficar os dois

a imaginar, a imaginar?...

 

O meu peito contra o teu peito

cortando o mar, cortando o ar.

Num leito

há todo o espaço para amar!

 

Na nossa carne estamos

sem destino, sem medo, sem pudor,

e trocamos - somos um? somos dois? -

espírito e calor!

 

O amor é o amor - e depois?

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Em Todo o Caso

1958

 

Remancha, poeta,

Remancha e desmancha

O teu belo plano

De escrever p'la certa.

Não há "p'la certa", poeta!

 

Mas em todo o caso acerta

Nem que seja a um verso por ano...

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Amigo

 

Mal nos conhecemos

Inaugurámos a palavra amigo!

 

"Amigo" é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!

 

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

"Amigo" é o contrário de inimigo!

"Amigo" é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada.

 

"Amigo" é a solidão derrotada!

"Amigo" é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!

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