A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

ALMEIDA GARRETT

Biografia

1799-1854

Portugal Portugal

    João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto em 1799 e faleceu em 1854 em Lisboa. Poeta, prosador e escritor de peças de teatro. Da sua obra destacamos a peça Frei Luís de Sousa, a publicação do Romanceiro e as suas poesias líricas.

Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra.

Foi obrigado a exilar-se no estrangeiro, em Inglaterra e França, entre 1823 e 1826 e em Inglaterra, entre 1828 e 1832.

Garrett foi o introdutor do Romantismo em Portugal, tendo escrito em 1825 o poema Camões e em 1826 D. Branca, por muitos considerados como as marcas do início do Romantismo em Portugal. Estes dois poemas foram escritos por Almeida Garrett quando se encontrava exilado, após ter abandonado o após em 1823 devido à Vila-Francada. A tragédia histórica, Frei Luís de Sousa, é considerada a obra prima do teatro romântico português.

A sua primeira obra, Retrato de Vénus, data de 1821 e foi na altura da sua publicação muito criticada e considerada libertina tendo levado Garrett à prisão.

Quando regressou a Portugal Garrett foi responsável pela construção do Teatro Nacional D. Maria II e do Conservatório de Lisboa para o qual contribuiu também com a produção de peças de teatro.

Ao longo da sua vida Almeida Garrett desempenhou diversas profissões desde deputado, diplomata, Ministro dos Negócios Estrangeiros, cronista-mor, poeta e prosador, estando a sua actividade literária dispersa pela oratória, ensaio literário, poesia, teatro e ficção. Foi o fundador do jornal A Regeneração e D. Pedro V deu-lhe o título de visconde.

As suas Obras Completas, editadas em 1908, compreendiam 28 volumes.

 

Obra:

Ficção
Memórias de João Coradinho
O Alfageme de Santarém, 1824
Viagens na Minha Terra , 1846
O Arco de Sant\'Ana, 1850
Romanceiro , 1851
Helena, 1871
 

Teatro
Lucrécia, 1819
Catão, 1821
Afonso de Albuquerque; um Auto de Gil Vicente, 1838
Um Auto de Gil Vicente , 1838
Dona Filipa de Vilhena, 1840
Mérope, 1841
Frei Luís de Sousa, 1843
A Sobrinha do Marquês, 1848
 

Poesia
Retrato de Vénus, 1821
Camões, 1825
Dona Branca, 1826
Adozinda, 1828
Lírica de João Mínimo, 1829
Flores sem Fruto, 1845
Folhas Caídas, 1853
O Roubo das Sabinas, 1868
 


Cartas de Amor à Viscondessa da Luz
Da Educação, 1829
Portugal na Balança da europa, 1830
Memória Histórica de José Xavier Mouzinho da Silveira, 1849
Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas, 1871
 

Poesias Eternas

 As minhas asas

Barca bela

Nau Catrineta

Bela Infanta

 

 

 

 

 

 

 

As minhas asas

 

Eu tinha umas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

 

- Eram brancas, brancas, brancas,

Como as do anjo que mas deu:

Eu inocente como elas,

Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,

Vinha para me tentar;

Por seus montes de tesouros

Minhas asas não quis dar.

- Veio a ambição, co' as grandezas,

Vinham para mas cortar,

Davam-me poder e glória;

Por nenhum preço as quis dar.

 

Porque as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

 

Mas uma noite sem lua

Que eu contemplava as estrelas,

E já suspenso da terra,

Ia voar para elas,

- Deixei descair os olhos

Do céu alto e das estrelas...

Vi entre a névoa da terra,

Outra luz mais bela que elas.

 

E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Para a terra me pesavam,

Já não erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta

De enfeitiçados amores...

Fatal amor, negra hora

Foi aquela hora de dores!

 

- Tudo perdi nessa hora

Que provei nos seus amores

O doce fel do deleite,

O acre prazer das dores.

 

E as minhas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Pena a pena me caíram...

Nunca mais voei aos céus.

 

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Barca bela

 

Pescador da barca bela,

Onde vás pescar com ela

            Que é tão bela,

            Ó pescador?

 

Não vês que a última estrela

No céu nublado se vela?

            Colhe a vela,

            Ó pescador!

 

Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela...

            Mas cautela,

            Ó pescador!

 

Não se enrede a rede nela,

Que perdido é remo e vela

            Só de vê-la,

            Ò pescador.

 

Pescador da barca bela,

Inda é tempo, foge de ela,

            Foge de ela,

            Ó pescador!

LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, P. 257

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Nau Catrineta

 

Lá vem a Nau Catrineta

Que tem muito que contar!

Ouvide agora, senhores,

Uma história de pasmar.

 

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar,

Já não tinham que comer,

Já não tinham que manjar.

 

Deitaram sola de molho

Para o outro dia jantar;

Mas a sola era tão rija,

Que a não puderam tragar.

 

Deitaram sortes à ventura

Qual se havia de matar;

Logo foi cair a sorte

No capitão general.

 

- "Sobe, sobe, marujinho,

Àquele mastro real,

Vê se vês terras de Espanha,

As praias de Portugal!"

 

- "Não vejo terras de Espanha,

Nem prais de Portugal;

Vejo sete espadas nuas

Que estão para te matar."

 

- "Acim, acima, gageiro,

Acima ao tope real!

Olha se enxergas Espanha,

Areias de Portugal!"

 

- "Alvíssaras, capitão,

Meu capitão general!

Já vejo terras de Espanha,

Areias de Portugal!

Mais enxergo três meninas,

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a coser,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar."

 

- "Todas três são minhas filhas,

Oh! quem mas dera abraçar!

A mais formosa de todas

Contigo a hei-de casar."

 

- "A vossa filha não quero,

Que vos custou a criar."

 

- "Dar-te-ei tanto dinheiro

Que o não possas contar."

 

- "Não quero o vosso dinheiro

Pois vos custou a ganhar."

 

- "Dou-te o meu cavalo branco,

Que nunca houve outro igual."

 

- "Guardai o vosso cavalo,

Que vos custou a ensinar."

 

- "Dar-te-ei a Nau Catrineta,

Para nela navegar."

 

- "Não quero a Nau Catrineta,

Que a não sei governar."

 

- "Que queres tu, meu gageiro,

Que alvíssaras te hei-de dar?"

 

- "Capitão, quero a tua alma,

Para comigo a levar!"

 

- "Renego de ti, demónio,

Que me estavas a tentar!

A minha alma é só de Deus;

O corpo dou eu ao mar."

 

Tomou-o um anjo nos braços,

Não no deixou afogar.

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar;

 

E à noite a Nau Catrineta

Estava em terra a varar.

 

 Adaptação de Almeida Garrett  

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Bela Infanta

 

Estava a bela Infanta

No seu jardim assentada,

Com o pente de oiro fino

Seus cabelos penteava.

Deitou os olhos ao mar,

Viu vir uma enorme armada;

Capitão que nela vinha,

Muito bem que a governava.

- Dize-me, ó capitão

Dessa tua nobre armada,

Se encontraste meu marido

Na terra que Deus pisava?

"Anda tanto cavaleiro

Naquela terra sagrada...

Dize-me tu, ó senhora,

As senhas que ele levava.

- Levava cavalo branco,

Selim de prata doirada;

Na ponta da sua lnaç

A cruz de Cristo levava.

"Pelos sinais que me deste

Lá o vi numa estacada

Morrer morte de valente:

Eu sua morte vingava."

- Ai triste de mim viúva,

Ai triste de mim coitada!

De três filhinhas que tenho.

Sem nenhuma ser casada!...

"Que darias tu, senhora,

A quem no trouxera aqui?

- Dera-lhe oiro e prata fina,

Quanto riqueza há por hi.

"Não quero oiro nem prata,

Não nos quero para mi:

Que darias mais, senhora,

A quem no trouxera aqui?

- De três moinhos que tenho,

Todos três tos dera a ti;

Um mói o cravo e a canela,

Outro mói do gerzeli:

Rica farinha que fazem!

Tomara-os el-rei p'ra si.

"Os teus moinhos não quero,

Não nos quero para mi:

Que darias mais, senhora,

A quem to trouxera aqui?

- As telhas do meu telhado

Que são oiro e marfim.

"As telhas do teu telhado

Não nas quero para mi:

Que darias mais, senhora

A quem no trouxera aqui?

- De três filhas que eu tenho,

Todas três te dera a ti:

Uma para te calçar,

Outra para te vestir

A mais formosa de todas

Para contigo dormir.

"As tuas filhas, infanta,

Não são damas para mi:

Dá-me outra coisa, senhora;

Se queres que o traga aqui.

- Não tenho mais que te dar,

Nem tu mais que me pedir.

"Tudo, não, senhora minha,

Que ainda te não deste a ti.

- Cavaleiro que tal pede,

Que tão vilão é de si.

Por meus vilões arrastado

O farei andar aí

Ao rabo do meu cavalo,

À volta do meu jardim.

Vassalos, os meus vassalos,

Acudi-me agora aqui!

"Este anel de sete pedras

Que eu contigo reparti...

Que é dela a outra metade?

Pois a minha, vê-la aí!

- Tantos anos que chorei,

Tantos sustos que tremi!...

Deus te perdoe, marido,

Que me ias matando aqui.

 

ROMANCEIRO

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