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Biografia 1799-1854 João
Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto em 1799 e faleceu
em 1854 em Lisboa. Poeta, prosador e escritor de peças de teatro. Da sua obra
destacamos a peça Frei Luís de Sousa, a publicação do Romanceiro e as suas
poesias líricas.
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Poesias Eternas
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Eu
tinha umas asas brancas,
Asas
que um anjo me deu,
Que,
em me eu cansando da terra,
Batia-as,
voava ao céu.
-
Eram brancas, brancas, brancas,
Como
as do anjo que mas deu:
Eu
inocente como elas,
Por
isso voava ao céu.
Veio
a cobiça da terra,
Vinha
para me tentar;
Por
seus montes de tesouros
Minhas
asas não quis dar.
-
Veio a ambição, co' as grandezas,
Vinham
para mas cortar,
Davam-me
poder e glória;
Por
nenhum preço as quis dar.
Porque
as minhas asas brancas,
Asas
que um anjo me deu,
Em
me eu cansando da terra,
Batia-as,
voava ao céu.
Mas
uma noite sem lua
Que
eu contemplava as estrelas,
E
já suspenso da terra,
Ia
voar para elas,
-
Deixei descair os olhos
Do
céu alto e das estrelas...
Vi
entre a névoa da terra,
Outra
luz mais bela que elas.
E
as minhas asas brancas,
Asas
que um anjo me deu,
Para
a terra me pesavam,
Já
não erguiam ao céu.
Cegou-me
essa luz funesta
De
enfeitiçados amores...
Fatal
amor, negra hora
Foi
aquela hora de dores!
-
Tudo perdi nessa hora
Que
provei nos seus amores
O
doce fel do deleite,
O
acre prazer das dores.
E
as minhas asas brancas,
Asas
que um anjo me deu,
Pena
a pena me caíram...
Nunca
mais voei aos céus.
Pescador
da barca bela,
Onde
vás pescar com ela
Que é tão bela,
Ó pescador?
Não
vês que a última estrela
No
céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!
Deita
o lanço com cautela,
Que
a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!
Não
se enrede a rede nela,
Que
perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ò pescador.
Pescador
da barca bela,
Inda
é tempo, foge de ela,
Foge de ela,
Ó pescador!
LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, P. 257
Lá vem a Nau
Catrineta
Que tem muito que
contar!
Ouvide agora,
senhores,
Uma história de
pasmar.
Passava mais de ano e
dia
Que iam na volta do
mar,
Já não tinham que
comer,
Já não tinham que
manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia
jantar;
Mas a sola era tão
rija,
Que a não puderam
tragar.
Deitaram sortes à
ventura
Qual se havia de
matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
- "Sobe, sobe,
marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de
Espanha,
As praias de
Portugal!"
- "Não vejo
terras de Espanha,
Nem prais de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te
matar."
- "Acim, acima,
gageiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas
Espanha,
Areias de
Portugal!"
- "Alvíssaras,
capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de
Espanha,
Areias de Portugal!
Mais enxergo três
meninas,
Debaixo de um
laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de
todas
Está no meio a
chorar."
- "Todas três são
minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de
todas
Contigo a hei-de
casar."
- "A vossa filha
não quero,
Que vos custou a
criar."
- "Dar-te-ei
tanto dinheiro
Que o não possas
contar."
- "Não quero o
vosso dinheiro
Pois vos custou a
ganhar."
- "Dou-te o meu
cavalo branco,
Que nunca houve outro
igual."
- "Guardai o
vosso cavalo,
Que vos custou a
ensinar."
- "Dar-te-ei a
Nau Catrineta,
Para nela
navegar."
- "Não quero a
Nau Catrineta,
Que a não sei
governar."
- "Que queres tu,
meu gageiro,
Que alvíssaras te
hei-de dar?"
- "Capitão,
quero a tua alma,
Para comigo a
levar!"
- "Renego de ti,
demónio,
Que me estavas a
tentar!
A minha alma é só de
Deus;
O corpo dou eu ao
mar."
Tomou-o um anjo nos
braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau
Catrineta
Estava em terra a
varar.
Adaptação
de Almeida Garrett
Estava a bela Infanta
No seu jardim
assentada,
Com o pente de oiro
fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao
mar,
Viu vir uma enorme
armada;
Capitão que nela
vinha,
Muito bem que a
governava.
- Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre
armada,
Se encontraste meu
marido
Na terra que Deus
pisava?
"Anda tanto
cavaleiro
Naquela terra
sagrada...
Dize-me tu, ó
senhora,
As senhas que ele
levava.
- Levava cavalo
branco,
Selim de prata
doirada;
Na ponta da sua lnaç
A cruz de Cristo
levava.
"Pelos sinais que
me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de
valente:
Eu sua morte
vingava."
- Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim
coitada!
De três filhinhas que
tenho.
Sem nenhuma ser
casada!...
"Que darias tu,
senhora,
A quem no trouxera
aqui?
- Dera-lhe oiro e
prata fina,
Quanto riqueza há por
hi.
"Não quero oiro
nem prata,
Não nos quero para
mi:
Que darias mais,
senhora,
A quem no trouxera
aqui?
- De três moinhos que
tenho,
Todos três tos dera a
ti;
Um mói o cravo e a
canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que
fazem!
Tomara-os el-rei p'ra
si.
"Os teus moinhos
não quero,
Não nos quero para
mi:
Que darias mais,
senhora,
A quem to trouxera
aqui?
- As telhas do meu
telhado
Que são oiro e
marfim.
"As telhas do teu
telhado
Não nas quero para
mi:
Que darias mais,
senhora
A quem no trouxera
aqui?
- De três filhas que
eu tenho,
Todas três te dera a
ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir
A mais formosa de
todas
Para contigo dormir.
"As tuas filhas,
infanta,
Não são damas para
mi:
Dá-me outra coisa,
senhora;
Se queres que o traga
aqui.
- Não tenho mais que
te dar,
Nem tu mais que me
pedir.
"Tudo, não,
senhora minha,
Que ainda te não
deste a ti.
- Cavaleiro que tal
pede,
Que tão vilão é de
si.
Por meus vilões
arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu
jardim.
Vassalos, os meus
vassalos,
Acudi-me agora aqui!
"Este anel de
sete pedras
Que eu contigo
reparti...
Que é dela a outra
metade?
Pois a minha, vê-la aí!
- Tantos anos que
chorei,
Tantos sustos que
tremi!...
Deus te perdoe,
marido,
Que me ias matando
aqui.
ROMANCEIRO
A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.