A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

ANTÓNIO NOBRE

Biografia

1867-1900

Portugal Portugal

António Pereira Nobre nasceu em 1867, no Porto e faleceu em 1900, de tuberculose.

Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra e posteriormente a Escola Livre de Ciências Políticas de Paris. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Sorbonne.

António Nobre possuía um temperamento contemplativo e pessimista, e a sua obra integra-se na corrente decadentista-simbolista.

A sua primeira obra poética Só, data de 1892 e foi o único livro publicado em vida. Este foi um dos marcos da poesia do séc. XIX em Portugal.

 

Obra:

Poesia
Só , 1892
Despedidas , 1902
Primeiros Versos , 1921
 


Cartas Inéditas de António Nobre, 1934
Cartas e Bilhetes Postais a Justino Montalvão, 1956
Correspondência, 1967
 

 

Poesias Eternas

O Meu Cachimbo

O Sono do João

 

 

 

 

 

 

 

 

O MEU CACHIMBO

(Coimbra, 1889)

 

Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!

Tu, meu thuribulo sagrado!

Com que, Sr. Abbade, incenso

A Abbadia do meu passado.

 

Fumo? E occorre-me à lembrança

Todo esse tempo que lá vae,

Quando fumava, ainda criança,

Ás escondidas do meu Pae.

 

Vejo passar a minha vida,

Como n'um grande cosmorama:

Homem feito, pallida Ermida,

Infante, pela mão da ama.

 

Por alta noite, ás horas mortas,

Quando não se ouve pio, ou voz,

Fecho os meus livros, fecho as portas

Para fallar comtigo a sós.

 

E a noite perde-se em cavaco,

Na Torre d'Anto, onde eu moro!

Alli, mettido no buraco

Fumo e, a fumar, ás vezes... choro.

 

Chorando (penso e não o digo)

Os olhos fitos n'este chão,

Que tu és leal, és meu amigo...

Os meus Amigos onde estão?

 

Não sei. Tral-os-á o "nevoeiro"...

Os tres, os intimos, Aquelles,

Estão na Morte, no estrangeiro...

Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

 

Morreram-me uns. Por esses peço

A Deus, se elle está de maré:

E, ás noites, quando eu adormeço,

Phantasmas, vêm, pé ante pé...

 

Tristes, nostalgicos da cova,

Entram. Sorrio-lhes e fallo,

Deixam-se estar na minha alcova,

Até se ouvir cantar o gallo.

 

Outros, por esses cinco Oceanos,

Por esse Mundo erram, talvez:

Não me escreveis, ha tantos annos!

Que será feito de Vocês?

 

Hoje, delicias do abandono!

Vivo na Paz, vivo no limbo:

Os meus Amigos são o Outomno,

O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

 

Ah! quando fôr do meu enterro,

Quando partir gelado, emfim,

N'algum caixão de mogno e ferro,

Quero que vás ao pé de mim.

 

Sancta mulher que me tratares,

Quando em teus braços desfalleça,

Cazo meus olhos não cerrares,

Embora! que isto não te esqueça:

 

Colloca, sob a travesseira,

O meu cachimbo singular

E enche-o, sollicita Enfermeira,

Com Gold-Fly, para eu fumar...

 

Como passar a noite, Amigo!

No Hotel da Cova sem confoto?

Assim, levando-te commigo,

Esquecer-me-ei de que estou morto...

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 O Sono do João

 

O João dorme... (Ó Maria,

Diz àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...)

 

Tem só um palmo de altura

E nem meio de largura:

Para o amigo orangotango

O João seria... um morango!

Podia engoli-lo um leão

Quando nasce! As pombas são

Um poucochinho maiores...

Mas os astros são menores!

 

O João dorme... Que regalo!

Deixá-lo dormir, deixá-lo!

Calai-vos, águas do moinho!

Ó Mar! fala mais baixinho...

E tu, Mãe! e tu, Maria!

Pede àquele cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

 

O João dorme, o Inocente!

Dorme, dorme eternamente,

Teu calmo sono profundo!

Não acordes para o Mundo,

Pode levar-te a maré:

Tu mal sabes o que isto é...

 

Ó Mãe! canta-lhe a canção,

Os versos do teu Irmão:

"Na vida que a Dor povoa,

Há só uma coisa boa,

Que é dormir, dormir, dormir...

Tudo vai sem se sentir."

 

Deixa-o dormir, até ser

Um velhinho... até morrer!

 

E tu vê-lo-ás crescendo

A teu lado (estou-o vendo

João! que rapaz tão lindo!)

Mas sempre sempre dormindo...

 

Depois, um dia virá

Que (dormindo) passará

do berço, onde agora dorme,

Para outro, grande, enorme:

E as pombas que eram maiores

Que João... ficarão menores!

 

Mas para isso, ó Maria!

Diz àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

 

E os anos irão passando.

 

Depois, já velhinho, quando

(Serás velhinha também)

Perder a cor que, hoje, tem,

Perder as cores vermelhas

E for cheinho de engelhas,

Morrerá sem o sentir,

Isto é, deixa de dormir:

Acorda e regressa ao seio

De Deus, que é d'onde ele veio...

 

Mas para isso, ó Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

 

Não vá o João acordar...

 

 

, Araújo & Sobrinho, Suc., Porto, 1931, 5ª edição

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