
ANTÓNIO
NOBRE
|
Biografia 1867-1900
|
Poesias Eternas |
(Coimbra,
1889)
Ó
meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu,
meu thuribulo sagrado!
Com
que, Sr. Abbade, incenso
A
Abbadia do meu passado.
Fumo?
E occorre-me à lembrança
Todo
esse tempo que lá vae,
Quando
fumava, ainda criança,
Ás
escondidas do meu Pae.
Vejo
passar a minha vida,
Como
n'um grande cosmorama:
Homem
feito, pallida Ermida,
Infante,
pela mão da ama.
Por
alta noite, ás horas mortas,
Quando
não se ouve pio, ou voz,
Fecho
os meus livros, fecho as portas
Para
fallar comtigo a sós.
E
a noite perde-se em cavaco,
Na
Torre d'Anto, onde eu moro!
Alli,
mettido no buraco
Fumo
e, a fumar, ás vezes... choro.
Chorando
(penso e não o digo)
Os
olhos fitos n'este chão,
Que
tu és leal, és meu amigo...
Os
meus Amigos onde estão?
Não
sei. Tral-os-á o "nevoeiro"...
Os
tres, os intimos, Aquelles,
Estão
na Morte, no estrangeiro...
Dos
mais não sei, perdi-me d'elles.
Morreram-me
uns. Por esses peço
A
Deus, se elle está de maré:
E,
ás noites, quando eu adormeço,
Phantasmas,
vêm, pé ante pé...
Tristes,
nostalgicos da cova,
Entram.
Sorrio-lhes e fallo,
Deixam-se
estar na minha alcova,
Até
se ouvir cantar o gallo.
Outros,
por esses cinco Oceanos,
Por
esse Mundo erram, talvez:
Não
me escreveis, ha tantos annos!
Que
será feito de Vocês?
Hoje,
delicias do abandono!
Vivo
na Paz, vivo no limbo:
Os
meus Amigos são o Outomno,
O
Mar e tu, ó meu Cachimbo!
Ah!
quando fôr do meu enterro,
Quando
partir gelado, emfim,
N'algum
caixão de mogno e ferro,
Quero
que vás ao pé de mim.
Sancta
mulher que me tratares,
Quando
em teus braços desfalleça,
Cazo
meus olhos não cerrares,
Embora!
que isto não te esqueça:
Colloca,
sob a travesseira,
O
meu cachimbo singular
E
enche-o, sollicita Enfermeira,
Com
Gold-Fly, para eu fumar...
Como
passar a noite, Amigo!
No
Hotel da Cova
sem confoto?
Assim,
levando-te commigo,
Esquecer-me-ei
de que estou morto...
O João dorme... (Ó
Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João
acordar...)
Tem só um palmo de
altura
E nem meio de largura:
Para o amigo
orangotango
O João seria... um
morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As
pombas são
Um poucochinho
maiores...
Mas os astros são
menores!
O João dorme... Que
regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do
moinho!
Ó Mar! fala mais
baixinho...
E tu, Mãe! e tu,
Maria!
Pede àquele cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João
acordar...
O João dorme, o
Inocente!
Dorme, dorme
eternamente,
Teu calmo sono
profundo!
Não acordes para o
Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que
isto é...
Ó Mãe! canta-lhe a
canção,
Os versos do teu Irmão:
"Na vida que a
Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir,
dormir...
Tudo vai sem se
sentir."
Deixa-o dormir, até
ser
Um velhinho... até
morrer!
E tu vê-lo-ás
crescendo
A teu lado (estou-o
vendo
João! que rapaz tão
lindo!)
Mas sempre sempre
dormindo...
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
do berço, onde agora
dorme,
Para outro, grande,
enorme:
E as pombas que eram
maiores
Que João... ficarão
menores!
Mas para isso, ó
Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João
acordar...
E os anos irão
passando.
Depois, já velhinho,
quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que,
hoje, tem,
Perder as cores
vermelhas
E for cheinho de
engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de
dormir:
Acorda e regressa ao
seio
De Deus, que é d'onde
ele veio...
Mas para isso, ó
Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João
acordar...
Só,
Araújo & Sobrinho, Suc., Porto, 1931, 5ª edição
A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.