
GARCIA
DE RESENDE
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Biografia 1470-1536 1470-1536 Escritor,
desenhador e músico português, natural de Évora. Manteve-se estritamente
ligado à corte, tendo sido, desde 1490, moço de Câmara, secretário
particular de D. João II, homem próximo do rei Dom Manuel e escrivão da
fazenda do futuro D. João III. Foi o compilador do célebre Cancioneiro Geral
de 1516, também conhecido como Cancioneiro de Resende, obra que reúne mais de
mil composições da poesia palaciana da época, em português e castelhano. Foi
ele próprio poeta, escrevendo, entre outros textos, as Trovas à Morte de D. Inês
de Castro, tema da poesia lírica por ele inaugurado. Grande admirador de D. João
II, escreveu Vida e Feitos de D. João II (1533), para o qual aproveitou
grandemente a crónica de Rui de Pina e que vale, sobretudo, pela vivacidade do
retrato do monarca. Foi ainda autor de Miscelânia e Variedade de Histórias
(1554), esboço histórico da vida nacional e internacional do seu tempo,
escrito em verso. No conjunto, a sua obra escrita é de extrema importância
para o conhecimento da vida da época. retirado
da Breve História da Literatura Portuguesa - Autores: Vida e Obra, Texto
Editora, Lisboa, 1999, 1ª edição
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Poesias Eternas Trovas à Morte de D. Inês de Castro
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Trovas
à Morte de D. Inês de Castro
Qual
será o coração
tão
cru e sem piedade,
que
lhe não cause paixão
uma
tão grã crueldade
e
morte tão sem razão?
Triste
de mim, inocente,
que,
por ter muito fervente
lealdade,
fé, amor
ao
príncipe, meu senhor,
me
mataram cruamente!
A
minha desaventura
não
contente d’acabar-me,
por
me dar maior tristura
me
foi pôr em tant’altura,
para
d’alto derribar-me;
que,
se me matara alguém,
antes
de ter tanto bem,
em
tais chamas não ardera,
pai,
filhos não conhecera,
nem
me chorara ninguém.
Eu
era moça, menina,
por
nome Dona Inês
de
Castro, e de tal doutrina
e
virtudes, qu’era dina
de
meu mal ser ao revés.
Vivia
sem me lembrar
que
paixão podia dar
nem
dá-la ninguém a mim:
foi-m’o
príncipe olhar,
por
seu nojo e minha fim.
Começou-m’a
desejar
trabalhou
por me servir;
Fortuna
foi ordenar
dous
corações conformar
a
uma vontade vir.
Conheceu-me,
conheci-o,
quis-me
bem e eu a ele,
perdeu-me,
também perdi-o;
nunca
té morte foi frio
o
bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe
minha liberdade,
não
senti perda de fama;
pus
nele minha verdade,
quis
fazer sua vontade,
sendo
mui formosa dama.
Por
m’estas obras pagar
nunca
jamais quis casar;
pelo
qual, aconselhado
foi
el-rei qu’era forçado,
pelo
seu, de me matar.
Estava
mui acatada,
como
princesa servida,
em
meus paços mui honrada,
de
tudo mui abastada,
de
meu senhor mui querida.
Estando
mui de vagar,
bem
fora de tal cuidar,
em
Coimbra, d’assossego,
pelos
campos do Mondego
cavaleiros
vi somar.
Como
as cousas qu’hão de ser
logo
dão no coração,
comecei
entristecer
e
comigo só dizer:
“Estes
homens onde irão?”
E
tanto que perguntei,
soube
logo qu’era el-rei.
Quando
o vi tão apressado,
meu
coração trespassado
foi,
que nunca mais falei.
E
quando vi que descia,
saí
a porta da sala,
devinhando
o que queria;
com
grão choro e cortesia
lhe
fiz uma triste fala.
Meus
filhos pus de redor
de
mim com grande humildade;
mui
cortada de temor
lhe
disse: - “Havei, senhor,
desta
triste piedade!
“Não
possa mais a paixão
que
o que deveis fazer;
metei
nisso bem a mão,
qu’é
de fraco coração
sem
porquê matar mulher;
quanto
mais a mim, que dão
culpa
não sendo razão,
por
ser mãe dos inocentes
qu’ante
vós estão presentes,
os
quais vossos netos são.
“E
tem tão pouca idade
que,
se não forem criados
de
mim, só com saudade
e
sua grande orfandade
morrerão
desamparados.
Olhe
bem quanta crueza
fará
nisto Voss’Alteza,
e
também, senhor, olhai
pois
do príncipe sois pai,
não
lhe deis tanta tristeza.
“Lembre-vos
o grand’amor
que
me vosso filho tem,
e
que sentir grã dor
morrer-lhe
tal servidor
por
lhe querer grande bem.
Que,
s’algum erro fizera,
fora
bem que padecera
e
qu’estes filhos ficaram
orfãos
tristes e buscaram
quem
deles paixão houvera;
“Mas,
pois eu nunca errei
e
sempre mereci mais,
deveis,
poderoso rei,
não
quebrantar vossa lei,
que,
se morro, quebrantais.
Usai
mais de piedade
que
de rigor nem vontade,
havei
dó, senhor, de mim,
não
me deis tão triste fim,
pois
que nunca fiz maldade!”
El-rei,
vendo como estava,
houve
de mim compaixão
e
viu o que não olhava:
qu’eu
a ele não errava
nem
fizera traição.
E
vendo quão de verdade
tive
amor e lealdade
ao
príncipe, cuja são,
pôde
mais a piedade
que
a determinação.
Que,
se m’ele defendera
que
seu filho não amasse,
e
lh’eu não obedecera,
então
com razão pudera
dar-m’a
morte qu’ordenasse;
mas
vendo que nenhum’hora,
dês
que nasci até’gora,
nunca
disso me falou,
quando
se disto lembrou,
foi-se
pela porta fora.
Com
seu rosto lagrimoso,
co
propósito mudado,
muito
triste, mui cuidoso,
como
rei mui piedoso,
mui
cristão e esforçado.
Um
daqueles que trazia
consigo
na companhia,
cavaleiro
desalmado,
de
trás dele, mui irado,
estas
palavras dizia:
“-Senhor,
vossa piedade
é
digna de repreender,
pois
que, sem necessidade,
mudaram
vossa vontade
lágrimas
duma mulher.
E
quereis qu’abarregado,
com
filhos, como casado,
estê,
senhor, vosso filho?
De
vós mais me maravilho
que
dele, qu’é namorado.
“Se
a logo não matais,
não
sereis nunca temido
nem
farão o que mandais,
pois
tão cedo vos mudais
do
conselho qu’era havido.
Olhai
quão justa querela
tendes,
pois, por amor dela,
vosso
filho quer estar
sem
casar e nos quer dar
muita
guerra com Castela.
“Com
sua morte escusareis
muitas
mortes, muitos danos,
vós,
senhor, descansareis,
e
a vós e a nós dareis
paz
para duzentos anos.
O
príncipe casará
filhos
de benção terá,
será
fora de pecado;
qu’agora
será anojado,
amanhã
lh’esquecerá.”
E
ouvindo seu dizer,
el-rei
ficou mui torvado
por
em tais estremos ver,
e
que havia de fazer
ou
um ou outro, forçado.
Desejava
dar-me vida,
por
lhe não ter merecida
a
morte nem nenhum mal:
sentia
pena mortal
por
ter feito tal partida.
E
vendo que se lhe dava
a
ele tod’esta culpa,
e
que tanto o apertava,
disse
àquele que bradava:
“-Minha
benção me desculpa.
Se
o vós quereis fazer,
fazei-o
sem mo dizer,
qu’eu
nisso não mando nada,
nem
vejo essa coitada
por
que deva de morrer.”
Dous
cavaleiros irosos,
que
tais palavras lh’ouviram,
mui
crus e não piedosos,
perversos,
desamorosos,
contra
mim rijo se viram;
com
as espadas na mão
m’atravessam
o coração,
a
confissão me tolheram:
este
é o galardão
que
meus amores me deram.
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