A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

HERBERTO HELDER

Biografia

 

1930

 

Portugal Portugal

Herberto Helder nasceu no Funchal em 1930.

Herberto Helder exerceu entre outras as actividades de jornalista, autor de programas radiofónicos e bibliotecário. A sua primeira publicação data de 1958 e intitula-se O Amor em Visita.

Considerado o poeta mais importante da sua geração Herberto Helder foi co-director de Folhas de Poesia e de Nova Graal, tendo colaborado com produções suas em diversas publicações literárias nomeadamente Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Êxodo, Hidra1, Búzio Cadernos de Poesia, Búzio e Poesia Experimental 1 e 2.

Considerado um dos grandes escritores portugueses contemporâneos Herberto Helder encontra-se ligado ao movimento da poesia experimental. Em 1983 a sua obra A Cabeça entre as Mãos valeu-lhe o Prémio de Poesia do Pen Club Português, tendo-lhe, em 1994, sido atribuído o Prémio Pessoa, que recusou. A sua primeira obra data de 1963 e intitula-se O Amor em Visita.

 

Obra:

Ficção
A Plenos Pulmões
Os Passos em Volta , 1963
Apresentação do Rosto, 1968
 

Poesia
O Amor em Visita , 1958
A Colher na Boca , 1961
Poemacto, 1961
Lugar, 1962
A Máquina Lírica, 1964
Humus, 1967
Ofício Cantante , 1967
Retrato em Movimento, 1967
O Bebedor Nocturno, 1968
Vocação Animal, 1971
Poesia Toda , 1973
Cobra, 1977
O Corpo, o Luxo, a Obra , 1978
Flash, 1980
Poesia Toda - Antologia, 1980
A Cabeça entre as Mãos , 1982
 


Photomaton & Vox , 1979
As Magias , 1988
Do Mundo , 1994
 

 

Poesias Eternas

O Amor em Visita

Sobre o Poema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Amor em Visita

 

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

o seu arbusto de sangue. Com ela

encontrarei a noite.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.

Seus ombros beijarei, a pedra pequena

do sorriso de um momento.

Mulher quase incriada, mas com a gravidade

de dois seios, com o peso lúbrico e triste

da boca. Seus ombros beijarei.

 

Cantar? Longamente cantar,

Uma mulher com quem beber e morrer.

Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave

o atravessar trespassada por um grito marítimo

e o pão for invadido pelas ondas,

seu corpo arderá mansamente sob o s meus olhos palpitantes

ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento

de alegria e de impudor.

 

Seu corpo arderá para mim

sobre um lençol mordido por flores com água.

Ah! Em cada mulher existe uma morte silenciosa:

e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,

os bordões da melodia,

a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,

desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.

- Ó cabra no vento e na urze, melhor nua sob

as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe

mulher de pés no branco, transportadora

da morte e da alegria!

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Sobre um Poema

 

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

 

- Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

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