
HERBERTO
HELDER
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Biografia
1930
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Poesias Eternas
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Dai-me
uma jovem mulher com sua harpa de sombra
o
seu arbusto de sangue. Com ela
encontrarei
a noite.
Dai-me
uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus
ombros beijarei, a pedra pequena
do
sorriso de um momento.
Mulher
quase incriada, mas com a gravidade
de
dois seios, com o peso lúbrico e triste
da
boca. Seus ombros beijarei.
Cantar?
Longamente cantar,
Uma
mulher com quem beber e morrer.
Quando
fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o
atravessar trespassada por um grito marítimo
e
o pão for invadido pelas ondas,
seu
corpo arderá mansamente sob o s meus olhos palpitantes
ele
- imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de
alegria e de impudor.
Seu
corpo arderá para mim
sobre
um lençol mordido por flores com água.
Ah!
Em cada mulher existe uma morte silenciosa:
e
enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os
bordões da melodia,
a
morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se
em embriaguez dentro do coração faminto.
-
Ó cabra no vento e na urze, melhor nua sob
as
mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe
mulher
de pés no branco, transportadora
da
morte e da alegria!
Um poema cresce
inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem
palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue
pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de
onde nascem
as raízes minúsculas
do sol.
Fora, os corpos genuínos
e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz
exterior das coisas,
as folhas dormindo o
silêncio,
as sementes à beira
do vento,
- a hora teatral da
posse.
E o poema cresce
tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder
destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a
face amorfa das paredes,
a miséria dos
minutos,
a força sustida das
coisas,
a redonda e livre
harmonia do mundo.
- Em baixo o
instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se
contra o tempo e a carne.
A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.