A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

JORGE DE SENA

Biografia

 

1919-1978

 

Portugal Portugal

 

Poesias Eternas

Felicidade

Glosa à Chegada do Inverno

Não hei de morrer sem saber...

 

 

 

 

   

 

 

 

Felicidade

 

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

 

Tinha feições de menino inconsoláveç.

Um menino impúbere

ainda sem amor para ninguém,

gostando apenas de demorar as mãos

ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

 

E, como menino que era,

achava um grande mistério no seu próprio nome.

 

PERSEGUIÇÃO, LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, P. 245

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Glosa À Chegada do Inverno

 

Ao frio suave, obscuro e sossegado,

e com que a noite, agora, se anuncia

depois de posto, ao longe, um sol dourado

que a uma rosada fímbria arrasta e esfia...

 

Da solidão dos homens apartado,

e entregue a tal silêncio, que devia

mais entender as sombras a meu lado

que a terra nua onde se atrasa o dia...

 

Recordo o amor distante que em mim vive,

sem tempo ou espaço, e apenas amarrado

à liberdade imensa que não tive,

 

e que não há. Como o recordo agora

que a luz do dia já se não demora,

se apenas de si próprio é recordado?

 

PEDRA FILOSOFAL, LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, P. 250

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Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

 

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pareça

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

 

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

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