
JOSÉ GOMES FERREIRA
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Biografia
1900-1985 José Gomes Ferreira nasceu no Porto em 1900 e faleceu em Lisboa em 1985. As suas poesias encontram-se reunidas em POESIA MILITANTE.
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Poesias Eternas Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
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Com o mar,
as curvas das ondas
e o dorso dum peixe ao luar
fiz uma deusa
que criou o mar.
(E depois deitei-me ao comprido
com o mistério resolvido.)
POETA
MILITANTE
Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes
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Imitem as árvores dos caminhos que dão flores e frutos sem complicações. |
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Mas não queiram convencer os cardos a transformar os espinhos em rosas e canções. |
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E principalmente não pensem na Morte. Não sofram por causa dos cadáveres que só são belos quando se desenham na terra em flores. |
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Vivam, apenas. A Morte é para os mortos! |
POESIA
I
Se
eu pudesse iluminar por dentro as palavras
de
todos os dias
(O
soneto que só errado ficou certo)
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Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias para te dizer, com a simplicidade do bater do coração, que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias e esta ternura dos olhos que se dão. Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão - mas o desejo de ser a noite que me guias e baixinho ao bafo da tua respiração contar-te todas as minhas covardias. Ao pé de ti não me apetece ser herói mas abrir-te mais o abismo que me dói nos cardos deste sol de morte viva. Ser como sou e ver-te como és: dois bichos de suor com sombra aos pés. Complicações de luas e saliva POESIA IV |
(Durante dias andei ruminar estes versos.)
A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites
estreladas...
...Mas este querer
arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas
de mãos dadas.
...Mas este sufocar entre
coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há
portas
para o Calafrio.
...Mas este rir-me de
repente
no poço das noites
amarelas...
- única chama consciente
com boca nas estrelas.
...Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a
pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.
...Mas este haver entre
mim e a vida
sempre uma sombra que me
impede
de gozar na boca
ressequida
o sabor da própria sede.
...Mas este sonho
indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que
não piso
o mesmo chão do pobre e
do vagabundo.
...Mas este saber que
tudo me repele
no vento vestido de
areia...
E até, quando a toco, a
própria pele
me parece alheia.
Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu
estrelado...
...mas este deitar-me de
súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para
sentir um Corpo Vivo a meu lado.
POESIA III
A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.