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Biografia 1901-1969 José
Maria dos Reis Pereira Régio nasceu em 1901 e faleceu em 1969. Escritor
português natural de Vila do Conde, onde viveu até completar o 5º ano dos
liceus, após o que continuou a estudar no Porto. Publicou, em Vila do Conde,
nos jornais O Democrático e A República, os seus primeiros versos. Aos 18 anos
foi para Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica com a tese “As
Correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa”. Esta foi pouco
apreciada, sobretudo pela valorização que nela fazia de dois poetas então
quase desconhecidos, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. Esta tese,
refundida, veio a ser publicada com o título História da Moderna Poesia
Portuguesa (1941). Com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões fundou, em
1927, a revista Presença (cujo primeiro número saiu a 10 de Março, vindo a
publicar-se, embora sem regularidade, durante treze anos), que marcou o segundo
Modernismo português e de que Régio foi o principal impulsionador e ideólogo.
Para além da sua colaboração assídua nesta revista, deixou também textos
dispersos por publicações como a Seara Nova, Ler, o Comércio do Porto e o Diário
de Notícias. No mesmo ano iniciou a sua vida profissional como professor de
liceu, primeiro no Porto (apenas alguns meses) e, a partir de 1928, em
Portalegre, onde permaneceu mais de trinta anos. Só em 1967 regressou a Vila do
Conde, onde morreu dois anos mais tarde. Participou
activamente na vida pública, fazendo parte da comissão concelhia de Vila do
Conde do Movimento de Unidade Democrática (MUD), apoiando o General Norton de
Matos na sua candidatura à Presidência da República e, mais tarde, a
candidatura do general Humberto Delgado. Integrou ainda a Comissão Eleitoral de
Unidade Democrática (CEUD), nas eleições de 1969. Como
escritor, José Régio dedicou-se ao romance, ao teatro, à poesia e ao ensaio.
Centrais, na sua obra, são as problemáticas do conflito entre Deus e o Homem,
o indivíduo e a sociedade, numa análise crítica das relações humanas e da
solidão, do dilaceramento interior perante a relação entre o espírito e a
carne e a ânsia humana do absoluto. Levando a cabo uma auto-análise e uma
introspecção constantes, a sua obra é fortemente marcada pelo tom
psicologista e, simultaneamente, por um misticismo inquieto que se revela em
motivos como o angelismo ou a redenção no sofrimento. A sua poesia, de grande
tensão lírica e dramática, apresenta-se frequentemente como uma espécie de
diálogo entre níveis diferentes da consciência. A mesma intensidade psicológica,
aliada a um sentido de crítica social, tem lugar na ficção. Como ensaista,
dedicou-se ao estudo de autores como Camões, Raul Brandão e Florbela Espanca.
Na revista Presença assinou um editorial (“Literatura Viva”) que constituiu
uma espécie de manifesto dos autores ligados a este orgão do segundo
Modernismo português, defendendo a necessidade de uma arte viva e não
livresca, que reflectisse a profundidade e a originalidade virgens dos seus
autores. De
entre a sua numerosa bibliografia destacamos: Jogo da Cabra-Cega (1934, primeiro
romance), As Encruzilhadas de Deus (1936, livro de poesia e tido como a sua
obra-prima), Primeiro Volume de Teatro: Jacob e o Anjo e Três Máscaras (1940),
Fado (1941, livro de poesia com desenhos do irmão Júlio [também poeta],
principal ilustrador da sua obra), O Príncipe com Orelhas de Burro (1942,
romance), Mas Deus é Grande ((1945, poesia), Benilde e a Virgem-Mãe (1947, peça
de teatro adaptada ao cinema, em 1974, por Manoel de Oliveira), A Chaga do Lado
(1954, sátiras e epigramas), Há Mais Mundos (1962, livro de contos pelo qual
recebeu o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores),
Cântico Suspenso (1968, poesia), Música Ligeira e Colheita da Tarde (livros de
poesia publicados postumamente). Partilhou
ainda, com o irmão Júlio, o gosto pelas artes plásticas, tendo chegado a
desenhar uma capa para a Presença e feito os oito desenhos que, a partir da 5ª
edição, ilustram os Poemas de Deus e do Diabo. É
considerado, por alguns, como um dos vultos mais significativos da moderna
literatura portuguesa. Recebeu em 1961, o prémio Diário de Notícias e,
postumamente, em 1970, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra
poética. As suas casas de Vila do Conde e de Portalegre são hoje museus. adaptado
de Breve História da Literatura Portuguesa - Autores: Vida e Obra, Texto
Editora
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Poesias Eternas
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Onomatopeia
Menino
franzino,
Quase
pequenino,
Pequenino,
triste,
Neste
mundo só...,
Menino,
desiste
De
que tenham dó!
Desiste,
menino,
Que
o mundo é cretino...
Deixa
o teu violino,
Toca
o sol-e-dó.
Cada
teu suspiro
Cai
ao chão no pó...
Canta
o tiro-liro
Tiro-liro-ló.
Deixa
o teu violino,
Que
não te é destino.
Desiste,
menino,
De
que tenham dó!
Menino
franzino,
Triste
e pequenino,
Pequenino,
triste,
Neste
mundo só...,
Menino,
desiste!
Toca
o sol-e-dó.
Canta
o tiro-liro, repipiro-piro,
Canta
o repipiro, tiro-liro-ló.
A
CHAGA DO LADO,
PORTUGÁLIA
EDITORA, LISBOA, S.D., 2ª EDIÇÃO, P.63
"Vem
por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me
os braços, e seguros
De
que seria bom que eu os ouvisse
Quando
me dizem: "vem por aqui!"
Eu
olho os com olhos lassos,
(Há
nos meus olhos ironias e cansaços)
E
cruzo os braços,
E
nunca vou por ali...
A
minha glória é esta:
Criar
desumanidade!
Não
acompanhar ninguém.
-
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com
que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não,
não vou por aí! Só vou por onde
Me
levam meus próprios passos...
Se
ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque
me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro
escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar
aos ventos,
Como
farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A
ir por aí...
Se
vim ao mundo, foi
Só
para desflorar florestas virgens,
E
desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O
mais que faço não vale nada.
Como,
pois, sereis vós
Que
me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para
eu derrubar os meus obstáculos?
Corre
nas vossas veias sangue velho dos avós.
E
vós amais o que é fácil!
Eu
amo o Longe e a Miragem,
Amo
os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide!
Tendes estradas,
Tendes
jardins, tendes canteiros,
Tendes
pátrias, tendes tectos,
E
tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu
tenho a minha Loucura!
Levanto-a
como um facho, a arder na noite escura,
E
sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus
e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos
tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas
eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci
do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah,
que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém
me peça definições!
Ninguém
me diga: "vem por aqui"!
A
minha vida é um vendaval que se soltou.
É
uma onda que se alevantou.
É
um átomo a mais que se animou...
Não
sei por onde vou,
Não
sei para onde vou,
-
Sei que não vou por aí!
Poemas
de Deus e do Diabo
Em
Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei
numa casa velha,
À
qual quis como se fora
Feita
para eu Morar nela...
Cheia
dos maus e bons cheiros
Das
casas que têm história,
Cheia
da ténue, mas viva, obsidiante memória
De
antigas gentes e traças.
Cheia
de sol nas vidraças
E
de escuro nos recantos,
Cheia
de medo e sossego,
De
silêncios e de espantos,
-
Quis-lhe bem como se fora
Tão
feita ao gosto de outrora
Como
as do meu aconchego.
Em
Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
montes e de oliveiras
Ao
vento suão queimada
(Lá
vem o vento suão!,
Que
enche o sono de pavores,
Faz
febre, esfarela os ossos,
E
atira aos desesperados
A
corda com que se enforcam
Na
trave de algum desvão...)
Em
Portalegre, dizia,
Cidade
onde então sofria
Coisa
que terei pudor
De
contar seja a quem fôr,
Na
tal casa tosca e bela
À
qual quis como se fora
Feita
para eu morar nela,
Tinha,
então,
Por
única diversão,
Uma
pequena varanda
Diante
de uma janela
Toda
aberta ao sol que abrasa,
Ao
frio que tosse e gela
E
ao vento que anda, desanda,
E
sarabanda, e ciranda
Derredor
da minha casa,
Em
Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era
uma bela varanda,
Naquela
bela janela!
Serras
deitadas nas nuvens,
Vagas
e zuis de distância,
Azuis,
cinzentas, lilases,
Já
roxas quando mais perto,
Campos
verdes e amarelos,
Salpicados
de oliveiras,
E
que o frio, ao vir, despia,
Rasava,
unia
Num
mesmo ar de deserto
Ou
de longínquas geleiras,
Céus
que lá em cima, estrelados,
Boiando
em lua, ou fechados
Nos
seus turbilhões de trevas,
Pareciam
engolir-me
Quando,
fitando-os suspenso
Daquele
silêncio imenso,
Sentia
o chão a fugir-me,
-
Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em
Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na
casa em que morei, velha,
Cheia
dos maus e bons cheiros
Das
casas que têm história,
Cheia
da ténue, mas viva, obsidiante memória
De
antigas gentes e traças,
Cheia
de sol nas vidraças
E
de escuro nos recantos,
Cheia
de medo e sossego,
De
silêncios e de espantos,
À
qual quis como se fora
Tão
feita ao gosto de outrora
Como
as do meu aconchego...
Ora
agora,
Que
havia o vento suão
Que
enche o sono de pavores,
Faz
febre, esfarela os ossos,
Dói
nos peitos sufocados,
E
atira aos desesperados
A
corda com que se enforcam
Na
trave de algum desvão,
Que
havia o vento suão
De
se lembrar de fazer?
Em
Portalegre, dizia,
Cidade
onde então sofria
Coisas
que terei pudor
De
contar seja a quem for,
Que
havia o vento suão
De
fazer,
Senão
trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O
documento maior
De
que Deus
É
protector
Dos
seus
Que
mais faz sofrer?
Lá
num craveiro, que eu tinha,
Onde
uma cepa cansada
Mal
dava cravos sem vida,
Poisou
qualquer sementinha
Que
o vento que anda, desanda,
E
sarabanda, e ciranda,
Achara
no ar perdida,
Errando
entre terra e céus...,
E,
louvado seja Deus!,
Eis
que uma folha miudinha
Rompeu,
cresceu, recortada,
Furando
a cepa cansada
Que
dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da
tal casa tosca e bela
À
qual quis como se fora
Feita
para eu morar nela...
Como
é que o vento suão
Que
enche o sono de pavores,
Faz
febre, esfarela os ossos,
Dói
nos peitos sufocados,
E
atira aos desesperados
A
corda com que se enforcam
Na
trave de algum desvão,
Me
trouxe a mim que, dizia,
Em
Portalegre sofria
Coisas
que terei pudor
De
contar seja a quem for,
Me
trouxe a mim essa esmola,
Esse
pedido de paz
Dum
Deus que fere... e consola
Como
o próprio mal que faz?
Coisas
que terei pudor
De
contar seja a quem for
Me
davam então tal vida
Em
Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me
davam então tal vida
-
Não vivida!, sim morrida
No
tédio e no desespero,
No
espanto e na solidão,
Que
a corda dos derradeiros
Desejos
dos desgraçados
Por
noites de tal suão
Já
várias vezes tentara
Meus
dedos verdes suados...
Senão
quando o amor de Deus
Ao
vento que anda, desanda,
E
sarabanda, e ciranda,
Confia
uma sementinha
Perdida
entre terra e ceús,
E
o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da
tal casa tôsca e bela
À
qual quis como se fôra
Feita
para eu morar nela!
Lá
no craveiros que eu tinha,
Onde
uma cepa cansada
Mal
dava cravos sem vida,
Nasceu
essa acaciazinha
Que
depois foi transplantada
E
cresceu; Dom do meu Deus!,
Aos
pés lá da estranha casa
Do
largo do cemitério,
Frente
aos ciprestes que em frente
Mostram
os céus,
Como
dedos apontados
De
gigantes enterrados...
Quem
desespera dos homens,
Se
a alma lhe não secou,
A
tudo transfere a esperança
Que
a humanidade frustrou:
E
é capaz de amar as plantas,
De
esperar nos animais,
De
humanizar coisas brutas,
E
ter criancices tais,
Tais
e tantas!,
Que
será bom ter pudor
De
as contar seja a quem for!
O
amor, a amizade, e quantos
Mais
sonhos de oiro eu sonhara,
Bens
deste mundo!, que o mundo
Me
levara
De
tal maneira me tinham,
Ao
fugir-me,
Deixando
só, nulo, vácuos,
A
mim que tanto esperava
Ser
fiel,
E
forte,
E
firme,
Que
não era mais que morte
A
vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E
era então que sucedia
Que
em Portalegre, cidade
Do
Alto Alentejo, cercada
De
serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos
pés lá da casa velha
Cheia
dos maus e bons cheiros
Das
casas que têm história,
Cheia
da ténue, mas viva, obsidiante memória
De
antigas gentes e traças,
Cheia
de sol nas vidraças
E
de escuro nos recantos,
Cheia
de medo e sossego,
De
silêncios e de espantos,
-
A minha acácia crescia.
Vento
suão!, obrigado...
Pela
doce companhia
Que
em teu hálito empestado
Sem
eu sonhar, me chegara!
E
a cada raminho novo
Que
a tenra acácia deitava,
Será
loucura!..., mas era
Uma
alegria
Na
longa e negra apatia
Daquela
miséria extrema
Em
que vivia,
E
vivera,
Como
se fizera um poema,
Ou
se um filho me nascera.
A Poesia Eterna, por Marco Dias . Todos os direitos reservados.