MIGUEL TORGA
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Biografia 1907 Miguel Torga ( pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha).
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Poesias Eternas DIÁRIO
I poesias
completas
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Requiem
por mim
(Coimbra,
10 de Dezembro de 1993)
Aproxima-se
o fim.
E
tenho pena de acabar assim,
Em
vez de natureza consumada,
Ruína
humana.
Inválido
do corpo
E
tolhido da alma.
Morto
em todos os órgãos e sentidos.
Longo
foi o caminho e desmedidos
Os
sonhos que nele tive.
Mas
ninguém vive
Contra
as leis do destino.
E
o destino não quis
Que
eu me cumprisse como porfiei,
E
caísse de pé, num desafio.
Rio
feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E,
em largo oceano, eternizar
O
seu esplendor torrencial de rio.
(Coimbra,
1 de Novembro de 1983)
De
todos os cilícios, um, apenas,
Me
foi grato sofrer:
Cinquenta
anos de desassossego
A
ver correr,
Serenas,
As
águas do Mondego.
Lápide
(Coimbra,
11 de Janeiro de 1980)
Luís
Vaz de Camões.
Poeta
infortunado e tutelar.
Fez
o milagre de ressuscitar
A
Pátria em que nasceu.
Quando,
vidente, a viu
A
caminho da negra sepultura,
Num
poema de amor e de aventura
Deu-lhe
a vida
Perdida.
E
agora,
Nesta
segunda hora
De
vil tristeza,
Imortal,
É
ele ainda a única certeza
De
Portugal.
Sísifo
(Coimbra,
27 de Dezembro de 1977)
Recomeça...
Se
puderes,
Sem
angústia e sem pressa.
E
os passos que deres,
Nesse
caminho duro
Do
futuro,
Dá-os
em liberdade.
Enquanto
não alcances
Não
descanses.
De
nenhum fruto queiras só metade.
E,
nunca saciado,
Vai
colhendo
Ilusões
sucessivas no pomar.
Sempre
a sonhar
E
vendo,
Acordado,
O
logro da aventura.
És
homem, não te esqueças!
Só
é tua a loucura
Onde,
com lucidez, te reconheças.
Voz
activa
(Coimbra, 8
de Julho de 1977)
Canta,
poeta, canta!
Violenta
o silêncio conformado.
Cega
com outra luz a luz do dia.
Desassossega
o mundo sossegado.
Ensina
a cada alma a sua rebeldia.
Liberdade
(Albufeira,
28 de Agosto de 1975)
-
Liberdade, que estais no céu...
Rezava
o padre nosso que sabia,
A
pedir-te humildemente,
O
pão de cada dia.
Mas
a tua bondade omnipotente
Nem
me ouvia.
-
Liberdade, que estais na terra...
E
a minha voz crescia
De
emoção,
Mas
um silêncio triste sepultava
A
fé que ressumava
Da
oração.
Até
que um dia, corajosamente,
Olhei
noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear,
enfim,
O
pão da minha fome.
-
Liberdade, que estais em mim,
Santificado
seja o vosso nome.
Corografia
(Bofinho,
Alvaiázere, 9 de Fevereiro de 1975)
Meu
Portugal eterno
De
cabras e carrascos!
É
no teu chão dorido
Que
gasto, em paz, os cascos
De
fauno envelhecido...
Regresso
(Coimbra,
20 de Junho de 1973)
Quanto
mais longe vou, mais perto fico
De
ti, berço infeliz onde nasci.
Tudo
o que tenho, o tenho aqui
Plantado.
O
coração e os pés, e as horas que vivi,
Ainda
não sei se livre ou condenado.
Natal
(S.
Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966)
Leio
o teu nome
Na
página da noite:
Menino
Deus...
E
fico a meditar
No
milagre dobrado
De
ser Deus e menino.
Em
Deus não acredito.
Mas
de ti como posso duvidar?
Todos
os dias nascem
Meninos
pobres em currais de gado.
Crianças
que são ânsias alargadas
De
horizontes pequenos,
Humanas
alvoradas...
A
divindade é o menos.
Lição
(S.
Martinho de Anta, 3 de Maio de 1964)
Oiço
todos os dias,
De
manhãzinha,
Um
bonito poema
Cantado
por um melro
Madrugador.
Um
poema de amor
Singelo
e desprendido,
Que
me deixa no ouvido
Envergonhado
A
lição virginal
Do
natural,
Que
é sempre o mesmo, e sempre variado
Portugal
(Coimbra,
16 de Dezembro de 1963)
Avivo
no teu rosto o rosto que me deste,
E
torno mais real o rosto que de tou.
Mostro
aos olhos que não te disfugura
Quem
te desfigurou.
Criatura
da tua criatura,
Serás
sempre o que sou.
E
eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado
no mar.
Ondulo
e permaneço.
Cavo,
remo, imagino,
E
descubro na bruma o meu destino
Que
de antemão conheço.
Teimoso
aventureiro da ilusão,
Surdo
às razões do tempo e da fortuna,
Achar
sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na
gávea do futuro,
Mais
alta ainda do que no passado.
Comunicado
(Coimbra,
18 de Abril de 1961)
Na
frente ocidental nada de novo.
O
povo
Continua
a resistir.
Sem
ninguém que lhe valha,
Geme
e trabalha
Até
cair.
Pedagogia
(Coimbra,
16 de Março de 1960)
Brinca
enquanto souberes!
Tudo
o que é bom e belo
Se
desaprende...
A
vida compra e vende
A
perdição,
Alheado
e feliz,
Brinca
no mundo da imaginação,
Que
nenhum outro mundo contradiz!
Brinca
instintivamente
Como
um bicho!
Fura
os olhos do tempo,
E
à volta do seu pasmo alvar
De
cagra-cega tonta,
A
saltar e a correr,
Desafronta
O
adulto que hás-de ser!
Preservação
(Serra
da Estrela, 27 de Fevereiro de 1960)
Chama-se
liberdade o bem que sentes,
Águia
que pairas sobre as serranias;
Chamam-se
tiranias
Os
acenos que o mundo
Cá
de baixo de faz;
Não
desças do teu céu de solidão,
Pomba
da verdadeira paz,
Imagem
de nenhuma servidão!
Pirotecnia
(Coimbra,
31 de Maio de 1954)
Faço
poemas de papel e tinta.
Sou
fogueteiro destes artifícios.
Versos...
Girândolas
de sonhos e cilícios
Alinhadas
no chão
Das
laudas de brancura onde me iludo.
Quando
a noite é demais,
E
o sol de nenhum mundo dá sinais,
Ardem
dentro de mim, com lágrimas e tudo.
A um
Secreto Leitor
(Coimbra,
21 de Fevereiro de 1951)
No
silêncio da noite é que eu te falo
Como
através dum ralo
De
confissão.
Auscultadores
impessoais e atentos,
Os
teus ouvidos são
Ermos
abertos para os meus tormentos.
Sem
saber o teu nome e sem te ver
-
Juiz que ninguém pode corromper -,
Murmoro-te
os meus versos, os pecados,
Penitente
e seguro
De
que serás um búzio do futuro,
Se
os poemas me forem perdoados.
Eternidade
(Coimbra,
4 de Outubro de 1945)
A
vida passa lá fora,
Ou
na pressa de uma roda,
Ou
na altura de uma asa,
Ou
na paz de uma cantiga;
E
vem guardar-se num verso
Que
eu talvez amanhã diga.
Viagem
(1962)
Aparelhei
o barco da ilusão
E
reforcei a fé de marinheiro.
Era
longe o meu sonho, e traiçoeiro
O
mar...
(Só
nos é concedida
Esta
vida
Que
temos;
E
é nela que é preciso
Procurar
O
velho paraíso
Que
perdemos).
Prestes,
larguei a vela
E
disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A
revolta imensidão
Transforma
dia a dia a embarcação
Numa
errante e alada sepultura...
Mas
corto as ondas sem desanimar.
Em
qualquer aventura,
O
que importa é partir, não é chegar.
Ficha
(1962)
Poeta,
sim, poeta...
É
o meu nome.
Um
nome de baptismo
Sem
padrinhos...
O
nome do meu próprio nascimento...
O
nome que ouvi sempre nos caminhos
Por
onde me levava o sofrimento...
Poeta,
sem mais nada.
Sem
nenhum apelido.
Um
nome temerário,
Que
enfrenta, solitário,
A
solidão.
Uma
estranha mistura
De
praga e de gemido à mesma altura.
O
eco de uma surda vibração.
Poeta,
como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa
palavra só, velha e sagrada,
Pela
mão do destino, sem piedade,
Na
minha própria carne tatuada.
Livro
de Horas
(1936)
Aqui,
diante de mim,
Eu,
pecador, me confesso
De
ser assim como sou.
Me
confesso o bom e o mau
Que
vão ao leme da nau
Nesta
deriva em que vou.
Me
confesso
Possesso
Das
virtudes teologais,
Que
são três,
E
dos pecados mortais,
Que
são sete,
Quando
a terra não repete
Que
são mais.
Me
confesso
O
dono das minhas horas.
O
das facadas cegas e raivosas
E
o das ternuras lúcidas e mansas.
E
de ser de qualquer modo
Andanças
Do
mesmo todo.
Me
confesso de ser charco
E
luar de charco, à mistura.
De
ser a corda do arco
Que
atira setas acima
E
abaixo da minha altura.
Me
confesso de ser tudo
Que
possa nascer em mim.
De
ter raízes no chão
Desta
minha condição.
Me
confesso de Abel e de Caim.
Me
confesso de ser Homem.
De
ser um anjo caído
Do
tal céu que Deus governa;
De
ser um monstro saído
Do
buraco mais fundo da caverna.
Me
confesso de ser eu.
Eu,
tal e qual como vim
Para
dizer que sou eu
Aqui,
diante de mim!
Não há, não,
duas folhas iguais em
toda a criação.
Ou nervura a menos, ou
célula a mais,
não há de certeza,
duas folhas iguais.
Limbo todas têm,
que é próprio das
folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre
diferentes.
Umas vão e caem no
charco cinzento,
e lançam apelos nas
ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.
É dessas que eu sou.
Medas de trigo ao sol
- Agosto,
Tudo o calor do Sonho
amadurece;
Só a verdade amargura
do meu rosto
Permanece!
Até me lembro que não
sou da vida!
Que não pertence à
terra esta tristeza...
Que sou qualquer
desgraça acontecida
Fora do seio-mãe da
natureza.
E contudo não sei de
criatura
Que mais deseje ter
esta alegria
De um fruto azedo que
arrancou doçura
Do céu, das pedras e
da luz do dia.
Leiria,
11 de Agosto de 1940
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