A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

MIGUEL TORGA

Biografia

1907

Portugal Portugal

Miguel Torga ( pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha).

 

Poesias Eternas

DIÁRIO XIV

Requiem por mim

Memória

 DIÁRIO XIII

Lápide

Sísifo

Voz activa

DIÁRIO XII

Liberdade

Corografia

Regresso

 DIÁRIO X

Natal

Lição

Portugal

Diário IX

Comunicado

Pedagogia

Preservação

 DIÁRIO VII

Pirotecnia

DIÁRIO VI

A um secreto leitor

DIÁRIO III

Eternidade

 DIÁRIO I

Mágoa 

CÂMARA ARDENTE

Viagem

Ficha

O OUTRO LIVRO DE JOB

Livro de Horas

 poesias completas

Pastoral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Requiem por mim

(Coimbra, 10 de Dezembro de 1993)

 

Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio.

 

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Memória

(Coimbra, 1 de Novembro de 1983)

 

De todos os cilícios, um, apenas,

Me foi grato sofrer:

Cinquenta anos de desassossego

A ver correr,

Serenas,

As águas do Mondego.


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Lápide

(Coimbra, 11 de Janeiro de 1980)

 

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

A Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

A caminho da negra sepultura,

Num poema de amor e de aventura

Deu-lhe a vida

Perdida.

E agora,

Nesta segunda hora

De vil tristeza,

Imortal,

É ele ainda a única certeza

De Portugal.

 

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Sísifo

(Coimbra, 27 de Dezembro de 1977)

 

Recomeça...

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro,

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

 

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar

E vendo,

Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças.

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Voz activa

(Coimbra, 8 de Julho de 1977)

 

Canta, poeta, canta!

Violenta o silêncio conformado.

Cega com outra luz a luz do dia.

Desassossega o mundo sossegado.

Ensina a cada alma a sua rebeldia.

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Liberdade

(Albufeira, 28 de Agosto de 1975)

 

- Liberdade, que estais no céu...

Rezava o padre nosso que sabia,

A pedir-te humildemente,

O pão de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.

 

- Liberdade, que estais na terra...

E a minha voz crescia

De emoção,

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.

 

Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

- Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.

 

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Corografia

(Bofinho, Alvaiázere, 9 de Fevereiro de 1975)

 

Meu Portugal eterno

De cabras e carrascos!

É no teu chão dorido

Que gasto, em paz, os cascos

De fauno envelhecido... 

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Regresso

(Coimbra, 20 de Junho de 1973)

 

Quanto mais longe vou, mais perto fico

De ti, berço infeliz onde nasci.

Tudo o que tenho, o tenho aqui

Plantado.

O coração e os pés, e as horas que vivi,

Ainda não sei se livre ou condenado.


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Natal

(S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966)

 

Leio o teu nome

Na página da noite:

Menino Deus...

E fico a meditar

No milagre dobrado

De ser Deus e menino.

Em Deus não acredito.

Mas de ti como posso duvidar?

Todos os dias nascem

Meninos pobres em currais de gado.

Crianças que são ânsias alargadas

De horizontes pequenos,

Humanas alvoradas...

A divindade é o menos.

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Lição

(S. Martinho de Anta, 3 de Maio de 1964)

 

Oiço todos os dias,

De manhãzinha,

Um bonito poema

Cantado por um melro

Madrugador.

Um poema de amor

Singelo e desprendido,

Que me deixa no ouvido

Envergonhado

A lição virginal

Do natural,

Que é sempre o mesmo, e sempre variado

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Portugal

(Coimbra, 16 de Dezembro de 1963)

 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,

E torno mais real o rosto que de tou.

Mostro aos olhos que não te disfugura

Quem te desfigurou.

Criatura da tua criatura,

Serás sempre o que sou.

 

E eu sou a liberdade dum perfil

Desenhado no mar.

Ondulo e permaneço.

Cavo, remo, imagino,

E descubro na bruma o meu destino

Que de antemão conheço.

 

Teimoso aventureiro da ilusão,

Surdo às razões do tempo e da fortuna,

Achar sem nunca achar o que procuro,

Exilado

Na gávea do futuro,

Mais alta ainda do que no passado.

 

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 Comunicado

(Coimbra, 18 de Abril de 1961)

 

Na frente ocidental nada de novo.

O povo

Continua a resistir.

Sem ninguém que lhe valha,

Geme e trabalha

Até cair.

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Pedagogia

(Coimbra, 16 de Março de 1960)

 

Brinca enquanto souberes!

Tudo o que é bom e belo

Se desaprende...

A vida compra e vende

A perdição,

Alheado e feliz,

Brinca no mundo da imaginação,

Que nenhum outro mundo contradiz!

 

Brinca instintivamente

Como um bicho!

Fura os olhos do tempo,

E à volta do seu pasmo alvar

De cagra-cega tonta,

A saltar e a correr,

Desafronta

O adulto que hás-de ser!

 

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Preservação

(Serra da Estrela, 27 de Fevereiro de 1960)

 

Chama-se liberdade o bem que sentes,

Águia que pairas sobre as serranias;

Chamam-se tiranias

Os acenos que o mundo

Cá de baixo de faz;

Não desças do teu céu de solidão,

Pomba da verdadeira paz,

Imagem de nenhuma servidão!

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Pirotecnia

(Coimbra, 31 de Maio de 1954)

 

Faço poemas de papel e tinta.

Sou fogueteiro destes artifícios.

Versos...

Girândolas de sonhos e cilícios

Alinhadas no chão

Das laudas de brancura onde me iludo.

Quando a noite é demais,

E o sol de nenhum mundo dá sinais,

Ardem dentro de mim, com lágrimas e tudo.

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A um Secreto Leitor

(Coimbra, 21 de Fevereiro de 1951)

 

No silêncio da noite é que eu te falo

Como através dum ralo

De confissão.

Auscultadores impessoais e atentos,

Os teus ouvidos são

Ermos abertos para os meus tormentos.

 

Sem saber o teu nome e sem te ver

- Juiz que ninguém pode corromper -,

Murmoro-te os meus versos, os pecados,

Penitente e seguro

De que serás um búzio do futuro,

Se os poemas me forem perdoados.

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 Eternidade

(Coimbra, 4 de Outubro de 1945)

 

A vida passa lá fora,

Ou na pressa de uma roda,

Ou na altura de uma asa,

Ou na paz de uma cantiga;

E vem guardar-se num verso

Que eu talvez amanhã diga.

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Viagem

(1962)

 

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

 

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

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Ficha

(1962)

 

Poeta, sim, poeta...

É o meu nome.

Um nome de baptismo

Sem padrinhos...

O nome do meu próprio nascimento...

O nome que ouvi sempre nos caminhos

Por onde me levava o sofrimento...

 

Poeta, sem mais nada.

Sem nenhum apelido.

Um nome temerário,

Que enfrenta, solitário,

A solidão.

Uma estranha mistura

De praga e de gemido à mesma altura.

O eco de uma surda vibração.

 

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.

Condição,

Profissão,

Identidade,

Numa palavra só, velha e sagrada,

Pela mão do destino, sem piedade,

Na minha própria carne tatuada.

 

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Livro de Horas

(1936)

 

Aqui, diante de mim,

Eu, pecador, me confesso

De ser assim como sou.

Me confesso o bom e o mau

Que vão ao leme da nau

Nesta deriva em que vou.

 

Me confesso

Possesso

Das virtudes teologais,

Que são três,

E dos pecados mortais,

Que são sete,

Quando a terra não repete

Que são mais.

 

Me confesso

O dono das minhas horas.

O das facadas cegas e raivosas

E o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo

Andanças

Do mesmo todo.

 

Me confesso de ser charco

E luar de charco, à mistura.

De ser a corda do arco

Que atira setas acima

E abaixo da minha altura.

 

Me confesso de ser tudo

Que possa nascer em mim.

De ter raízes no chão

Desta minha condição.

Me confesso de Abel e de Caim.

 

Me confesso de ser Homem.

De ser um anjo caído

Do tal céu que Deus governa;

De ser um monstro saído

Do buraco mais fundo da caverna.

 

Me confesso de ser eu.

Eu, tal e qual como vim

Para dizer que sou eu

Aqui, diante de mim!

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Pastoral

 

Não há, não,

duas folhas iguais em toda a criação.

 

Ou nervura a menos, ou célula a mais,

não há de certeza, duas folhas iguais.

 

Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

bainha nem todas.

Umas são fendidas,

crenadas, lobadas,

inteiras, partidas,

singelas, dobradas.

 

Outras acerosas,

redondas, agudas,

macias, viscosas,

fibrosas, carnudas.

 

Nas formas presentes,

nos actos distantes,

mesmo semelhantes

são sempre diferentes.

 

Umas vão e caem no charco cinzento,

e lançam apelos nas ondas que fazem;

outras vão e jazem

sem mais movimento.

Mas outras não jazem,

nem caem, nem gritam,

apenas volitam

nas dobras do vento.

 

É dessas que eu sou.

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Mágoa

 

Medas de trigo ao sol - Agosto,

Tudo o calor do Sonho amadurece;

Só a verdade amargura do meu rosto

Permanece!

 

Até me lembro que não sou da vida!

Que não pertence à terra esta tristeza...

Que sou qualquer desgraça acontecida

Fora do seio-mãe da natureza.

 

E contudo não sei de criatura

Que mais deseje ter esta alegria

De um fruto azedo que arrancou doçura

Do céu, das pedras e da luz do dia.

 

Leiria, 11 de Agosto de 1940

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