A POESIA ETERNA

Por Marco Dias

TEIXEIRA DE PASCOAES

Biografia

 

1877-1952

 

Portugal Portugal

Teixeira de Pascoaes nasceu em 1877 e faleceu em 1952. Da sua extensa obra poética saudosista registamos: SEMPRE,VIDA ETÉREA, ELEGIAS, CONTOS INDECISOS, SONETOS, O PENITENTE e SANTO AGOSTINHO.

 

Poesias Eternas

Adamastor

Canção da Névoa

Delírio

O Poeta

Remorso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adamastor

 

"Fui a sombra do medo;

Esse medonho vulto que o luar

Esboça, no arvoredo,

Quando o perfil do vento é de gelar;

E, nas encruzilhadas dos caminhos,

Há demónios e doidos burburinhos...

E os homens, entre lívidos terrores,

Abraçam negra dor desconhecida,

Dor morta e ressurgida,

Aquela dor, fantasma de outras dores.

 

A minha Aparição,

Os nautas assustava,

Quando, em fraguedos, saibro, escuridão,

Sinistro promontório, as ondas penetrava;

E o meu rouco bramido retumbava,

Por toda a neptunina solidão.

 

Eu, dantes, fui a Treva...

Minha sombra, depois, amanheceu;

Tingiu-se de oiro e rosa; e já se eleva,

Na luz do céu...

 

Chorei, deli meus ossos fragarosos,

Reconstruindo em carne de beleza,

Meus grandes membros tenebrosos;

Minhas feições de terra e de bruteza...

 

Sou a alma do trágico Gigante;

Esse terror do antigo navegante,

Revelada em perfeita claridade.

 

Eu sou o Adamastor em alma de saudade."

 

 

Sempre, 2ª edição, Coimbra, 1902

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Canção Da Névoa

 

Tristezas leva-as o vento;

Vão no vento; andam no ar...

Anda a espuma à tona de água

E à flor da noite o luar...

 

Vindes dum peito que sofre?

De uma folha a estiolar?

Donde vindes, donde vindes,

Tristezas que andais no ar?

 

Eflúvios, emanações,

Saídas da terra e do mar,

Sois nevoeiros de lágrimas

Que o vento espalha, no ar...

 

Suspiros brandos e leves

De avezinhas a expirar;

Ermas sombras de canções

Que ficaram por cantar!

 

Brancas tristezas subindo

Das fontes, que vão secar!

E das sombras que, à noitinha,

Ouve a gente murmurar.

 

Saudades, melancolias,

Que o Poeta vai aspirar...

Melancolias e mágoas,

Que são almas a voar.

 

E o Poeta solitário

Fica a cismar, a cismar...

Todo embebido em tristezas,

Levadas na onda do ar...

 

E o Poeta se transfigura,

É a voz do mundo a falar!

E aquela voz também vai

No vento que anda no ar...

 

As Sombras

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DELÍRIO

 

Não posso crer na morte do menino.

E julgo ouvi-lo e vê-to a cada passo.

É ele? Não. Sou eu que desatino,

É a minha dor sofrida, o meu cansaço.

 

Delírio que me prendes num abraço,

Emendarás a obra do Destino?

Vê-lo-ei sorrir, de novo, no regaço

Da mãe? Verei seu rosto pequenino?

 

Mistério! Sombra imensa! Alto segredo!

Jamais! Jamais! Quem sabe? Tenho medo!

Que sinto em mim? A treva? A luz futura?

 

Ah, que a dor infinita de o perder

Seja a alegria de o tornar a ver,

Meu Deus, embora noutra criatura!

 

 

Elegias, Porto, A Renascença Portuguesa, 1912

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Remorso

 

Onde contigo, um dia, me zanguei

É hoje um sítio escuro que aborreço.

Sempre que ali divago me entristeço...

Ah, foi um crime, sim, que pratiquei.

 

Quantas negras torturas eu padeço

Pelo pequeno mal que te causei!

Se, ao menos, pressentisse o que hoje sei?

Mas não: fui mau, fui bruto; reconheço!

 

E sofro mais, por isso, a tua morte,

E dou mais choro amargo ao vento norte,

Mais trevas se acumulam no meu rosto.

 

Ó vós, que neste mundo amais alguém,

Seja linda criança ou pai ou mãe,

Não lhe causeis nem sombra de desgosto!

 

 

Elegias, Porto, A Renascença Portuguesa, 1912

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O Poeta

 

Ninguém contempla as cousas, admirado.

Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...

E se olho a flor, a estrela, o céu doirado,

Que infinda comoção me faz sonhar!

 

É tudo para mim extraordinário!

Uma pedra é fantástica! Alto monte

Terra viva, a sangrar como um Calvário

E branco espectro, ao luar, a minha fonte!

 

É tudo luz e voz! Tudo me fala!

Ouço lamúrias de almas no arvoredo,

Quando a tarde, tão lívida, se cala,

Porque adivinha a noite e lhe tem medo.

 

Não posso abrir os olhos sem abrir

Meu coração à dor e á alegria.

Cada cousa nos sabe transmitir

Uma estranha e quimérica harmonia!

 

É bem certo que tu, meu coração,

Participas de toda a Natureza.

Tens montanhas na tua solidão

E crepúsculos negros de tristeza!

 

As cousas que me cercam, silenciosas,

São almas, a chorar, que me procuram.

Quantas vagas palavras misteriosas,

Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

 

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,

Beijam os meus olhos sombras de mistério.

Sinto que perco, às vezes, os sentidos

E que vou flutuar num rio aéreo...

 

Sinto-me sonho, aspiração, saudade,

E lágrima voando e alada cruz...

E rasteirinha sombra de humildade,

Que é, para Deus, a verdadeira luz.

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