Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa, poeta português (Lisboa, 1888 - id., 1935), uma das figuras mais singulares e complexas da literatura portuguesa. 
Fernando Pessoa foi o principal escritor do Modernismo português e um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos.

Aos cinco anos, ficou órfão de pai, sua mãe casou-se, dois anos depois, com um militar que, nomeado cônsul na África do Sul, levou para lá a família. Pessoa permaneceu dez anos em contato íntimo com a cultura inglesa, dominando a língua inglesa tanto quanto a materna. Lá, cursou o primário e o secundário. De volta a Lisboa, matriculou-se no curso de Letras, mas não o concluiu. Vivendo com a avó paterna e as tias, e na década de 10, participou de algumas revistas, como A Águia, e entrou em contato com a vanguarda européia. Em 1914, publicou poemas na revista A Renascença. 
Sua versatilidade levou-o à criação dos heterônimos de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, dos quais inventou biografias distintas e cujas poesias são, na forma e no conteúdo, outras vozes de que se valeu para transmitir a heterogeneidade de sua riqueza interior. 
Fernando Pessoa "ele mesmo" é lírico, melancólico, angustiado e transcendente; Alberto Caeiro é rude, simples, humilde; Ricardo Reis é clássico, conciso, abstrato; Álvaro Campos é sensacionalista, entusiástico, exaltador da modernidade. 
Obras completas, publicadas em 8 volumes: I. Poesias de Fernando Pessoa (1942); II. Poesias de Álvaro de Campos (1944); III. Poemas de Alberto Caeiro (1946); IV. Odes de Ricardo Reis (1946) (v. MENSAGEM, 3.a edição, 1945); VI. Poemas dramáticos (1952); VII e VIII. Poesias inéditas (1955-1956). 
Em inglês: 35 Sonnets e Epithalamium (ambos de 1913), Antinous (1918) e English poems (1921). 

 



O GUARDADOR DE REBANHO

O meu olhar é nítido como um girassol, 
Tenho costume de andar pelas estradas, 
Olhando para a direita e para a esquerda 
E de vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento 
Para eterna novidade do mundo... 
Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender... 
O mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe porque ama, nem o que é amar... 
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar... 

Teus olhos entristecem
Teus olhos entristecem. 
Nem ouves o que digo. 
Dormem, sonham esquecem... 
Não me ouves, e prossigo. 
Digo o que já, de triste, 
Te disse tanta vez... 
Creio que nunca o ouviste 
De tão tua que és. 
Olhas-me de repente 
De um distante impreciso 
Com um olhar ausente. 
Começas um sorriso. 
Continuo a falar. 
Continuas ouvindo 
O que estás a pensar, 
Já quase não sorrindo. 
Até que neste ocioso 
Sumir da tarde fútil, 
Se esfolha silencioso 
O teu sorriso inútil. 

Autopsicografia

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama o coração.