Meus Preferidos Poetas Brasileiros 

 

Amemos!
DAMA NEGRA 
CASTRO ALVES

POR QUE TARDAS, meu anjo! oh! vem comigo. 
Serei teu, serás minha... É um doce abrigo 
A tenda dos amores! 
Longe a tormenta agita as penedias... 
Aqui, ao som de errantes harmonias, 
Se adormece entre flores. 

Quando a chuva atravessa o peregrino, 
Quando a rajada a galopar sem tino 
Açoita-lhe na face, 
E em meio à noite, em cima dos rochedos, 
Rasga-se o coração, ferem-se os dedos, 
E a dor cresce e renasce... 

A porta dos amores entreaberta 
É a cabana erguida em plaga incerta, 
Que ampara do tufão... 
O lábio apaixonado é um lar em chamas 
E os cabelos, rolando em espadanas, 
São mantos de paixão. 

Oh! amar é viver... Deste amor santo 
— Taça de risos, beijos e de prantos 
Longos sorvos beber... 
No mesmo leito adormecer cantando... 
Num longo beijo despertar sonhando... 
Num abraço morrer. 

Oh! amar é ser Deus!... Olhar ufano 
O céu azul, os astros, o oceano 
E dizer-lhes: "Sois meus!" 
Fazer que o mundo se transforme em lira, 
Dizer ao tempo: "Não... Tu és mentira, 
Espera que eu sou Deus!" 

Amemos! pois. Se sofres terei prantos, 
Que hão de rolar por terra tantos, tantos, 
Como chora um irmão. 
Hei de enxugar teus olhos com meus beijos, 
Escutarás os doces rumorejes 
D'ave do coração. 

Depois... hei de encostar-te no meu peito, 
Velar por ti — dormida sobre o leito — 
Bem como a luz no altar. 

Te embalarei com uma canção sentida, 
Que minha mãe cantava enternecida 
Quando ia me embalar. 

Amemos, pois! P'ra ti eu tenho n´alma 
Beijos, prantos, sorrisos, cantos, palmas... 
Um abismo de amor... 
Sorriso de uma irmã, prantos maternos, 
Beijos de amante, cânticos eternos, 
E as palmas do cantor! 

Ah! fora belo unidos em segredo, 
Juntos, bem juntos... trêmulos de medo, 
De quem entra no céu, 
Desmanchar teus cabelos delirante, 
Beijar teu colo!... Oh! vamos minha amante, 
Abre-me o seio teu. 

Eu quero teu olhar de áureos fulgores, 
Ver desmaiar na febre dos amores, 
Fitos fitos... em mim. 
Eu quero ver teu peito intumescido, 
Ao sopro da volúpia arfar erguido 
O oceano de cetim 

Não tardes tanto assim... Esquece tudo... 
Amemos, porque amar é um santo escudo, 
Amar é não sofrer. 
Eu não posso ser de outra... Tu és minha, 
Almas que Deus uniu na balsa e ténue
Hão de unidas viver. 

Meu Deus!... Só eu compreendo as harmonias, 
De tua alma sublime as melodias 
Que tens no coração. 
Vem! Serei teu poeta, teu amante... 
Vamos sonhar no leito delirante 
No templo da paixão. 



Cecília Meireles
Interlúdio

As palavras estão muito ditas 
e o mundo muito pensado. 
Fico ao teu lado. 
Não me digas que há futuro 
nem passado. 
Deixa o presente — claro muro 
sem coisas escritas. 
Deixa o presente. Não fales, 
Não me expliques o presente, 
pois é tudo demasiado. 
Em águas de eternamente, 
o cometa dos meus males 
afunda, desarvorado. 
Fico ao teu lado. 



Oswald de Andrade 
Pronominais

Dê-me um cigarro 
Diz a gramática 
Do professor e do aluno 
E do mulato sabido 
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira 
Dizem todos os dias 
Deixa disso camarada 
Me dá um cigarro 


Amor
Álvares de Azevedo

Amemos!
Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!



MANUEL BANDEIRA

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada 
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero 
Na cama que escolherei 
Vou-me embora pra Pasárgada 

Vou-me embora pra Pasárgada 
Aqui eu não sou feliz 
Lá a existência é uma aventura 
De tal modo inconseqüente 
Que Joana a Louca de Espanha 
Rainha e falsa demente 
Vem a ser contraparente 
Da nora que eu nunca tive 

E como farei ginástica 
Andarei de bicicleta 
Montarei em burro brabo 
Subirei no pau-de-sebo 
Tomarei banhos de mar! 
E quando estiver cansado 
Deito na beira do rio 
Mando chamar a mãe-d'água 
Pra me contar as histórias 
Que no tempo de eu menino 
Rosa vinha me contar 
Vou-me embora pra Pasárgada 

Em Pasárgada tem tudo 
É outra civilização 
Tem um processo seguro 
De impedir a concepção 
Tem telefone automático 
Tem alcalóide à vontade 
Tem prostitutas bonitas 
Para a gente namorar 

E quando eu estiver mais triste 
Mas triste de não ter jeito 
Quando de noite me der 
Vontade de me matar 
— Lá sou amigo do rei — 
Terei a mulher que eu quero 
Na cama que escolherei 
Vou-me embora pra Pasárgada 



Álvares de Azevedo 
Oh! Páginas da vida que eu amava
Oh! Páginas da vida que eu amava, 
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado! ... 
Ardei, lembranças doces do passado! 
Quero rir-me de tudo que eu amava! 

E que doudo que eu fui! como eu pensava 
Em mãe, amor de irmã! em sossegado 
Adormecer na vida acalentado 
Pelos lábios que eu tímido beijava! 

Embora — é meu destino. Em treva densa 
Dentro do peito a existência finda 
Pressinto a morte na fatal doença! 

A mim a solidão da noite infinda! 
Possa dormir o trovador sem crença 
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda! 


Caetano Veloso
Sozinho

Ás vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado 
Juntando o antes , o agora e o depois

Porque você me deixa tão solto ?
Porque você não cola em mim ?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho ás vezes cai bem
Eu tenho meus segredos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Porque você me esquece e some ?
E se eu me interessar por alguém ?
E se ela de repente me ganha ?

Quando a gente gosta
Claro que a gente cuida
Fala que me ama 
Só que é da boca prá fora
Ou você me engana 
Ou não esta madura
Onde está você agora ?