Canção Primaveril

Anda no ar a excitação
de seios subito exibidos
à torva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!

Ou é um deus, oi foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!

Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta caricia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.

O Silêncio 

Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.

David Mourão



O amor e a morte 

Canção cruel 

Corpo de ânsia. 
Eu sonhei que te prostava, 
E te enleava 
Aos meus músculos! 

Olhos de êxtase, 
Eu sonhei que em vós bebia 
Melancolia 
De há séculos! 

Boca sôfrega, 
Rosa brava 
Eu sonhei que te esfolhava 
Petala a pétala! 

Seios rígidos, 
Eu sonhei que vos mordia 
Até que sentia 
Vómitos! 

Ventre de mármore, 
Eu sonhei que te sugava, 
E esgotava 
Como a um cálice! 

Pernas de estátua, 
Eu sonhei que vos abria, 
Na fantasia, 
Como pórticos! 

Pés de sílfide, 
Eu sonhei que vos queimava 
Na lava 
Destas mãos ávidas! 

Corpo de ânsia, 
Flor de volúpia sem lei! 
Não te apagues, sonho! mata-me 
Como eu sonhei.


Cântico 

Num impudor de estátua ou de vencida,
coxas abertas, sem defesa... nua
ante a minha vigília, a noite, e a lua,
ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,
meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...
enquanto o luar a numba, inerte, gasta
da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
e eu pouso a boca, religiosa e casta,
sobre a flor esmagada do seu sexo.

José Régio




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