CORA CORALINA, IMAGENS, CHEIROS E CORES NA RESISTÊNCIA SOCIAL À EXCLUSÃO

Suely Reis Pinheiro (UFF/ Revista Hispanista)
Assim é Cora Coralina, repito: mulher extraordinária, diamante
goiano cintilando na solidão.
Carlos Drummond de Andrade
Permeando quase todo o século XX, mas
egressa do XIX, que já vinha moldando nossa modernidade, com mulheres
muito presentes, abrindo salões, criando jornais, entrando em sociedades
secretas, Cora Coralina, escritora goiana, se aventura nos salões da
vida, garimpando contos, crônicas e poesia. Cora Coralina, a exemplo das
preciosas francesas, sem o exercício da profissão, escreve por
prazer e alcança o tom da sua própria préciosité
literária, no que se refere à singularidade do que, um dia, bem
longe, foi o esprit précieux..
Cora se permite intuir as influências que, parece, haver recebido da tradição
das famosas francesas, sobretudo quando se compreende Cora como uma poeta que
está inserida no movimento de tentativa resistência social à
exclusão.
Segundo a pesquisadora, Marlene Gomes de Vellasco (VELLASCO, 1999, p. 31), os
primeiros "escritinhos" de Cora Coralina foram publicados no Suplemento
do Jornal Paiz, do Rio de Janeiro, ao lado de colaboradores como Carlos de Laef,
Artur de Azevedo, Júlia Lopes de Almeida, Carmem Dolores.
Hoje sua obra mesclada de histórias, poemas, contos, causos se apresenta
nas seguintes publicações: Meu Livro de Cordel, Vintém
de Cobre, Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, Estórias
da Casa Velha da Ponte, O Tesouro da Casa Velha, Villa Boa de Goyaz. Edições
infantis: A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu, O Prato Azul Pombinho, Os Meninos
Verdes.
Embora a coerção pesasse como mais força sobre as mulheres
da sociedade e os gestos obedecessem a códigos de urbanidade que sempre
ditam o que uma mulher decente deve evitar fazer, Cora se torna uma mulher pública.
Seu trabalho a empurra para fora de casa. Ousada, deixa para trás preconceitos
sociais, correndo atrás de sua cidadania na política e na sociedade.
Torna-se jornalista, enfermeira durante a Revolução Constitucionalista
de 1932. Costura bonés, uniformes e aventais. Criou manifesto em favor
da formação de um partido feminino e subiu em palanques. Ao enviuvar
vende livros, monta pensão, sítio e comércio. Nas palavras
carinhosas de sua neta Ana Maria Tahan,
Entre móveis antigos e sob o calor do velho fogão de lenha, Cora
escreveu,escreveu,escreveu. Aprendeu a datilografar e aos 70 anos publicou seu
primeiro livro, opiniões fluíam ao ritmo entoado por Cora, mestre
na arte de declamar e interpretar, capaz de confundir desavisados sobre a realidade,
o que era fantasia.
Aos 15 anos virou Cora, pseudônimo para disfarçar a escritora.
Coralina ainda demorou algum tempo (TAHAN, 2002).
No começo do século XX, em pleno processo da desestruturação
própria do Modernismo Brasileiro, surge, no cenário literário,
a voz inovadora da poeta Cora Coralina. Sem sair do espaço privado, reservado
somente às mulheres, avança para o espaço público,
antes reservado aos homens, liberando-se não só das amarras literárias
do século anterior, mas fazendo da conquista da palavra escrita importante
capital cultural na luta de resistência social à exclusão.
Reivindica, da mesma maneira, total liberdade e rejeita os padrões acadêmicos
e tradicionalistas. Neste caminho, Cora Coralina resgata a complexidade existencial
da mulher brasileira para celebrar, através de um discurso aparentemente
simples, o viver de todas elas no sensível poema Todas as Vidas:
Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso de água e sabão.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos.
Vive dentro de mim
a mulher roceira
- Enxerto da terra,
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim (CORALINA, 1990, p. 45).
Indagada sobre sua preferência na leitura, respondia na Revista Cristã,
em 1983: Todo poeta é meu preferido. Gosto dos poetas de 22. Mas para
mim o fundamental é a poesia que busque inspiração na realidade.
Não suporto os poetas do imaginário que fazem sua arte do caracol
das palavras. E sobre o Movimento de 22 e sua própria definição
de poesia, foi categórica:
Eu só me libertei da dificuldade poética depois do modernismo
de 22, mas não acompanhei o movimento - me achei dentro daquela mudança.
Em primeiro lugar, poesia é invenção, porque só
o gênio cria. Hoje nós temos que achar a poesia na realidade da
vida e a vida toda é poesia.
Nesta época, o espaço doméstico torna-se próprio
ao trabalho, o lar escritório passa a território da escrita -
é verdade que ainda não para as classes subalternas. Cora não
fugindo do espaço doméstico e da vida familiar, ou seja, do privado,
se lança para o espaço publico seu viver privado usando das estratégias
para burlar os impedimentos, nos passos de uma atitude bem picaresca.
A solidariedade da vida e sua representação são celebradas,
ao mesmo tempo em que a autora Cora Coralina desarticula a linguagem, na construção
de uma poesia sem malabarismos e invencionices gramaticais, resgate simples
do seu viver, como se dá a ler em Cora Coralina, Quem é você?
Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e raciocinada, e sim
impelida por um impulso incontrolável (CORALINA, 2001, p. 83).
Para Ivia Alves, ultrapassar as fronteiras do espaço doméstico
obrigou a mulher a ter consciência de sua condição e a buscar
suas estratégias para burlar ou ampliar seu espaço de atuação.
Afinal, nas sociedades que pensam o político, os homens têm o seu
santuário referendado pelo público e pelo político, as
mulheres têm a casa referendada pelo privado e pelo coração.
Não em total semelhança com as preciosas francesas que se utilizam
de um estilo, muitas vezes exagerado pelo preciosismo da época, Cora
em processo paródico, dialoga com essas mulheres e suas obras se organizam
a partir da préciosité, na preocupação da linguagem.
Resulta, então, que a aproximação de Cora com as preciosas
é possível, quando se observam os seguintes elementos apontados
por Castex e Surer: amam o prazer da literatura e escrevem de bom grado, desdenham
a língua comum e inventam uma expressão inventada por elas, usam
um jargão particular, preciosidade da língua que se traduz por
exageração, perífrases, pensamentos, antíteses,
metáforas, se desembaraçam dos termos pedantes, imprimem uma direção
à literatura francesa, encorajando os escritores a compor com finesse
obras psicológicas e orientadas em direção ao idealismo
e abusam de romance, cartas e poesia .
De fato, Cora enriquece sua escrita feminina com veios sociológicos,
filosóficos, históricos e irmana feições rememorativas,
familiares, folclóricas, tradicionais que se unem em total bailado polifônico
do seu dizer poético e popular. Cartas, poemas, Fala da lembrança
da Cidade Natal, do Rio Vermelho, do Velho Sobrado, dos Becos de Goiás.
Exalta o Vintém do Cobre, faz uma Oração do Milho, uma
ode às Muletas, dedica poemas às Lavadeiras, à Enxada,
ao Presidiário, ao Menor Abandonado, à Boiada, a Anhangüera,
a Pablo Neruda. Sébastien Joachim em importante artigo assevera mais
a esse respeito:
Dedicatórias, agradecimentos e homenagens. Mais eloquënte testemunho
são aqueles poemas que se colocam numa tripla tradição,
nitidamente identificável: a mais antiga da imortalização
da poesia (Meu epitáfio), a mais moderna e prometeica de uma vocação
sui generis de luta e de resistência (Parte biográfica, das Pedras,
ao leitor, Ressalva, Parte biográfica e Ao Leitor) - consciência
de sua função de cidadã, de sentinela em prol de uma comunidade,
traço erudito de Cora (JOACHIM, 1999, p 13).
Exemplificamos com Ressalva:
Este livro foi escrito
por uma mulher
que na tarde da Vida
recria e poetiza sua própria
Vida.
Este livro
foi escrito por uma mulher
que fez a escalada da
Montanha da Vida
removendo pedras
e plantando flores.
Este livro:
Versos... Não
Poesia... Não.
um modo diferente de contar velhas estórias
(CORALINA, 1990, p.41).
Neste caminho, Cora Coralina resgata a complexidade existencial da mulher goiana
e brasileira para contar, através de um discurso aparentemente simples,
o viver de todas elas no sensível poema Todas as Vidas:
Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso de água e sabão.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos.
Vive dentro de mim
a mulher roceira
- Enxerto da terra,
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim
(CORALINA, 1990, p. 45).
Presas ao campo restrito do espaço doméstico, a uma temática
relacionada com a amizade, à criança, sem poder escrever sobre
os grandes espaços públicos, as novas escritoras se restringiam
à natureza domesticada de seus jardins, local eleito para expressar suas
vivências, escrevendo sobre flores, pássaros, borboletas e árvores.
Com a chegada do novo século, as poetas passaram a utilizar-se desses
mesmos elementos restritos, mas de uma maneira simbólica e não
mais referencial.
Assim fez Cora, velada ou sutilmente, vai penetrando nas fronteiras censuradas
para a mulher, sai do espaço referencial do jardim e da casa e vai para
o espaço simbólico do pasto, do campo. Cora soube ousar, com sua
expressão vigorosa e referencial, ao trocar os termos delicados rosas,
miosótis, violetas, típicos das mulheres do XIX (ALVES, 1999,
p. 111), por pau-ferro, pau-brasil, aroeira, cedro, campo semântico bem
significativo de nossa brasilidade. Ou ainda, por termos representativos da
terra - cheiros de boi, de pasto, curral, esterco, mijado. E mais, no meio dessa
mistura do simbólico e do referencial Cora se arvora na função
conativa da linguagem para marcar sua influente voz, o que pode ser observado
no título invocativo do poema Evém Boiada, cujo despertar sinestésico
anuncia um texto cheio de cores, cheiros, e imagens, retrato de nosso interior
goiano e brasileiro:
Eu vi
o cheiro do boi.
Eu vi
cheiro de pasto
maduro, crestado, amarelado.
Eu vi chuva mansa chovendo
chuva fina caindo
Capim nascendo, gramando, repolhando.
Eu vi
lameiro de mangueira, repisado.
Cheiro de currais,
estercado, mijado.
Cheiro de saúde,
fecundo, estimulante
(CORALINA, 1990, p. 137).
Cora, estilisticamente transgressiva, de maneira
astuta e inventiva se vale da exageração da linguagem para desconstruir
o discurso arraigado ao das mulheres do século XIX.
Abandona, ela, o verde-amarelismo político da época e se lança
em busca da sensualidade matizada e acobreada dos tons da terra. E para tal
abusa do emprego de frases nominais nas quais não só o substantivo
se embeleza e se adorna com adjetivos, como também toda a estrutura frasal
se enriquece com repetições anafóricas, reticências
e enumerações:
Cabelos verdes. Cabelos brancos.
Vermelho-amarelo-roxo, requeimado...
E o pólen dos pendões fertilizando...
Uma fragrância quente, sexual
invade num espasmo o milharal.
Tons maduros de amarelo.
Tudo se volta para a terra-mãe.
O tronco seco é um suporte, agora,
onde o feijão verde trança, enrama, enflora (CORALINA, 1990, p.
172).
Orquestrada pela oralidade, pode-se então afirmar que a sua obra se organiza
em torno de um discurso semântico que se expande na pluralidade das enumerações
recheadas de som, de cor, de cheiro, de paladar. E a fala coloquial ¾
descontraída e brasileira ¾ participa da desordem engendradora
e Cora Coralina sai em busca da identidade reconstituída no mundo do
campo que se contrapõe ao mundo da cidade:
A gleba me transfigura, sou semente sou pedra.
Sou cigarra cantadeira.... sou formiga incansável...
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e fecundada
no ventre escuro da terra (CORALINA, 1987, p. 110).
Clarissa Pinkola Estés, em sua instigadora obra Mulheres que correm com
lobos, mitos e história do arquétipo da mulher selvagem, afirma
que os lobos e as mulheres saudáveis têm certas características
psíquicas em comum. A poeta Cora Coralina encarna o arquétipo
da Mulher Selvagem que juntamente com a fauna silvestre são espécies
em risco de extinção, já que durante alguns milênios
suas terras espirituais foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios
destruídos e seus ciclos naturais transformados à força
em ritmos artificiais para agradar aos outros. Foram alvo daqueles que preferiam
arrasar as matas virgens, bem como os arredores selvagens da psique, erradicando
o que fosse instintivo, sem deixar que dele restasse nenhum sinal. A atividade
predatória contra os lobos e contra as mulheres é de uma semelhança
surpreendente. Foi, deste modo, que no estudo do lobo que o conceito arquétipo
Mulher Selvagem se concretizou.
Pode-se, pois, afirmar que a poesia brasileira, que no século passado
transita na conformidade mística e religiosa do parnasianismo e do simbolismo,
revela, agora, a rebeldia de uma nova poeta, que aos 76 anos publica seu primeiro
livro. E, na reconstrução da memória nacional instaura-se
o orgiasmo da linguagem com plena autonomia de expressão, libertando-se
do discurso dos modelos clássicos na renovação e na utilização
de arcaísmos e velhos refrães:
No tempo dos adágios que os velhos
sentenciavam
enfáticos e solenes:
"¾ Quem nasce pra derréis não chega a vintém."
"Vintém poupado, vintém ganhado"
"Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém."
Isto se dizia, quando a moça pobre se perdia (CORALINA, 1990, p.61).
Prepara, então, a partir daí, o palco da orgia, uma vez que o
caminho da Mulher selvagem já se define por meio da palavra escrita.
Soergue-se, pois, uma Cora Coralina, como inovadora da linguagem, quando põe
em foco, as brasilidades de um povo cujas raízes assim se definem:
Vive dentro de mim
Uma cabocla velha
de mau olhado
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo
(CORALINA, 1990, p. 45)...
Entende-se por orgiasmo, segundo Maffesoli em A Sombra de Dionísio (MAFFESOLI,
1985), a energia do "ser-junto-com" de forma instintiva e irracional
que subjaz a todo agrupamento humano. Constitui-se a parte das sombras e o fundamento
de toda vida em sociedade. A embriaguez, o descomedimento, a prostituição
e a libertinagem remetem à fusão matriarcal, comunitária
e, conseqüentemente, à fecundidade social.
A linguagem de Cora Coralina se articula, então, como um contínuo
fervilhar de promiscuidade criativa, mostrando que o deus arbustivo Dioniso
representa o traço de união entre o céu e a terra, conforme
se pode ler em O Cântico da Terra:
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte,
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a grande Mãe universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor ( CORALINA, 1990, p. 213).
È na força de sua metáfora maior, o milho, que Cora Coralina
pontifica a base da vida e encontra a energia natural inerente à Terra-Natureza,
à Mater-Matéria. No famoso Poema do Milho a autora traz à
luz uma nova estrutura lingüística onde toda a sensualidade do poema
é um congraçamento de erotismo telúrico, simbolicamente
representado pela força cognitiva dos signos milho/flor/pendões:
As bandeiras altaneiras
vão-se abrindo em formação.
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
Procissão fálica, pagã.
Um sentido genésico domina o milharal.
Flor masculina erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas.
Boneca de milho, vestida de palha (CORALINA, 1990, p.171).
Com Cora Coralina permite-se ler um Goiás, um Brasil, em contínua
transformação. Em Cora Ana Coralina, enquanto a sensualidade e
a orgia se inovam na astuciosa verbalidade do contar da poeta, pontifica-se
o arrebatamento que as linhas deste contar entrelaçam o leitor, sujeitando-o
à transmigração de um orgiasmo aleatório, com uma
voluptuosidade "genésica vegetal", sob os auspícios
de Dioniso, o deus do desenvolvimento vital, da vegetação exuberante,
do crescimento ordenado e fecundo:
A boneca fecundada vira espiga.
Amortece a grande exaltação.
Já não importam as verdes cabeleiras rebeladas.
A espiga cheia salta da haste.
O pendão fálico vira ressecado, esmorecido,
no sagrado rito da fecundação (CORALINA, 1990, p.172).
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nascida na cidade de Goiás
em 1889, morre aos 96 anos, em 1985, depois de haver deixado ao mundo quatro
filhos, muitas receitas de doces, muitos prêmios, condecorações,
quinze netos, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, vinte
e nove bisnetos, receita de bolos, O Tesouro da Casa Velha, muitos quitutes,
as muletas, os tachos, Vintém de Cobre, a carta de Drummond, o título
de Doutor Honoris Causa.
O timbre seguro de sua voz, apaixonado, vibrante, incisivo, não condiz
com sua frágil figura envelhecida, apoiada em muletas. No entusiasmo
de seus 80 e muitos, assim quem a viu e ouviu por primeira vez, em entrevista
reservou a emoção para a visita de sua casa museu, ao lado do
emblemático rio Vermelho, e sentir a energia que emana de seus humildes
pertences, acomodados em angustiados cômodos, mas cheios de vivas lembranças
daquela mulher cuja frágil figura não condizia com sua força
interior.
Quem sabe se, durante algum tempo, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
pensou estar destinada àquela visão do quadro, desfocada e sem
vida, do qual falamos no início de nosso trabalho. Não foi à-toa
que ela escreveu os seguintes versos desiludidos:
E eu parti em busca do meu destino.
Ninguém me estendeu a mão.
Ninguém me ajudou e todos me jogaram pedras.
Despojada. Apedrejada.
Sozinha e perdida nos caminhos da vida (CORALINA, 1987, p.84).
Contudo, ela soube desobedecer a códigos de urbanidade que costumam ditar
o que uma mulher decente deve evitar fazer. Na época em que a coerção
pesava com mais força sobre as mulheres da sociedade, Cora, sem se importar
com os limites impostos pela sociedade, parte em busca do seu destino ao acompanhar
um homem, separado, com filhos, encontrado, durante uma tertúlia literária,
aos 20 anos de idade, seu marido Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas.
Com Cora Coralina se permite ler um Brasil com total autonomia de expressão,
através de sua poesia histórica e testamental. Burlando os becos
da vida, a autora, em meio a tachos e filhos, investe no desejo de se livrar
da discriminação sócio-cultural contando, com seu discurso
feminino e sinestésico, pleno de cor, de cheiro e de imagem da terra
natal, fatos da brasilidade cotidiana.
Para Marlene Gomes, Cora Coralina fez uma obra verdadeiramente nacional, tanto
na temática como na linguagem já que sua obra não conta
apenas o que lhe aconteceu em outros tempos, mas também o processo pelo
qual o seu passado se transformou em seu presente, construindo seu próprio
tempo nas injunções da existência, permitindo ao leitor
compartilhar de uma maneira ou de outra, no exercício de sua própria
experiência dos objetos cortantes, e a tensão em que ela se mantém
é a do próprio pensamento que se vigia contra os riscos da embotadura
(VELLASCO, 1999, p.32).
Cora Coralina fez parte do grupo de mulheres que se bateram contra a postura
hegemônica masculina e contra os limites impostos pelo machismo. Como
elas, criou estratégias femininas para gerar possibilidades de resistência
social à exclusão e fazer mudar a História. Como as francesas,
Cora percebeu sua exclusão do espaço público, e explicitou
em suas obras seu papel social, onde são planteados problemas de práticas
institucionais e da situação da mulher na sociedade, de ontem
e de hoje.
Considerada poeta menor, veio Drummond em defesa desta mulher polêmica,
em crônica datada de 1980 para defini-la como ¾ Mulher sertaneja,
livre, turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. E continua:
Cora Coralina: gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotisa,
como no verso de Bandeira (DRUMMOND, 1980).
Ao encerrar, resta uma consideração final: as mulheres sempre
excluídas do espaço público estão onipresentes não
só na monumentalidade urbana, mas também nas alegorias estatutárias
femininas ¾ Marianne, Santa Virgem da liberdade na tradição
popular francesa, Germânia, a loura vinda das florestas da Alemanha, a
Estátua da Liberdade, a Estátua da Justiça e outras mais.
Será este realmente o único lugar da mulher no espaço público?