Uma seresteira do verso e da prosa


Autora mistura sua lírica ingênua e sentimental ao timbre forte de uma escrita feminina e corajosa


LUIZA LOBO


No meio de uma rua na cidade histórica de Goiás Velho tombada pela UNESCO, situa-se a casa de Cora Coralina, hoje museu, há poucos dias devastada por uma enchente do Rio Vermelho, que passa ao lado. Os poemas de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que utilizou o pseudônimo de Cora Coralina, falam do seus becos bicentenários, do ciclo do ouro, descoberto no século 17 pelos bandeirantes, mas explorado no 18 e nas procissões da Semana Santa, que se iniciam na Igreja da Boa Morte, hoje museu. Sua vida pessoal e artística identificam-se com as próprias ruas, com calçadas de pedras e janelas de malacacheta da cidade.
Ali nasceu, em 20 de agosto de 1889 e faleceu, em 10 de abril de 1985. Renomada doceira, que gostava de recitar seus poemas, chegou a deixar um livro de receitas publicado. Seus oito livros de contos e de poesia são escritos numa prosa sempre poética e numa poesia que tem muito do discurso livre da prosa. Sua obra teve, de início, boa recepção por Carlos Drummond de Andrade e pela imprensa e, na velhice, grande aclamação em Goiás, quando retornou, após longos anos passados fora da antiga capital do Estado. Não recebeu educação universitária, mas obteve o título de doutora honoris causa da Universidade Federal de Goiás, quando publicou O cântico da volta (1956), um conjunto de crônicas em estilo atual e poético.
Com Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965) recebeu o Prêmio Juca Pato da União Brasileira de Escritores como Personalidade Literária do ano de 1984 e o 6° Prêmio de Poesia no 1° Encontro das Mulheres na Arte. Também entrou para a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.
Estilo - É escassa a bibliografia sobre a escritora. Seu nome aparece em verbetes de dicionários, e em publicações sobre literatura regional. Gilberto Mendonça considera Cora Coralina "exímia contista", especialmente em O cântico da volta, e como a iniciadora do regionalismo goiano, através de uma linguagem criadora, com teor poético estilisticamente romântico. Figura na Enciclopédia de literatura brasileira (2001), de Afrânio Coutinho e Galante de Sousa. Citei-a em artigos e no Bloomsbury guide to women's literature (1992) e num Guia de Escritoras Brasileiras, de 500 páginas, que está em vias de ser publicado.
Elogiável, portanto, esta iniciativa da editora Global de republicar toda a obra da autora, que está esgotada. Isso vem suprir a deficiência de informações que o estudioso de literatura sente no Brasil e no exterior. Este enfrenta a falta de divulgação da literatura brasileira e de apoio do Governo no sentido de manter leitores no ensino da literatura e cultura brasileiras nas Universidades estrangeiras, como faz maciçamente Portugal (que inclui o ensino dos estudos africanos lusófonos). Hoje, no exterior, o estudo da literatura e da cultura brasileira resiste à crescente influência da literatura de língua espanhola graças à dedicação de professores apaixonados pelo Brasil.
Como os poetas Manoel de Barros e Adélia Prado, que aproveitam temas populares em sua poesia, e na trilha trovadoresca de Hilda Hilst e Stella Leonardos, Cora Coralina alia o aspecto oral, regional e rural à tradição da poesia popular bárdica. Rememora na sua lírica ingênua e sentimental o passado histórico de Goiás Velho, capital do Estado até 1937. Seus versos, de grande simplicidade semântica, não seguem a estrutura rígida das trovas, mas usam rimas e ritmos de forma irregular. Tanto na espontaneidade da poesia quanto na simplicidade temática de seus contos, guarda as origens interioranas de Goiás, tão celebradas, na televisão, pelos cantadores boiadeiros.
Lavadeiras - Meu livro de cordel (São Paulo, Global, 1987) se inicia com um elogio a este tipo de poema, em "Cantoria": "Meti o peito em Goiás / e canto como ninguém. / Canto as pedras, / canto as águas, / as lavadeiras, também". Aqui Cora Coralina introduz sua própria experiência feminina doméstica na tradição trovadoresca. Em "Cora Coralina, Quem é você?", explica: "Sendo eu mais doméstica / do que intelectual", "Sou mais doceira e cozinheira / do que escritora, sendo a culinária / a mais nobre de todas as Artes: / objetiva, concreta, jamais abstrata / a que está ligada à vida e / à saúde humana".
Este poema se abre com a belíssima estrofe que insere sua perspectiva feminina na tradição dos seresteiros de sua terra: "Sou mulher como outra qualquer. / Venho do século passado / e trago comigo todas as idades". Em "Errados rumos", ela se refere à Procissão da Semana Santa, quando "passa a falange dos mortos" e "a sombra dos velhos seresteiros. A flauta. O violão. O bandolim".
Em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais apresenta poemas próximos da prosa, no dizer da própria autora: "Versos... não / poesia... / Um modo diferente de contar velhas histórias". Calmamente, gestos e coisas simples vão sendo transformados em poesia. Cora Coralina canta a beleza das lavadeiras e trabalhadoras comuns, como em "Estas mãos".
Presidiários - Também de veio rememorativo, de feição doméstica, é a primeira parte de Poemas dos becos de Goiás e estórias mais . Apresenta poemas próximos da prosa, no dizer da própria autora: "Versos... não / poesia... não / Um modo diferente de contar velhas histórias". Já a segunda parte é dedicada ao aspecto social que ela observava e desejava retratar, através de poemas para lavadeiras, lavradores, mulheres da vida, crianças abandonadas e presidiários, a quem deseja levar palavras de amor e compreensão.
Nos contos de Estórias da casa velha da ponte, a rude linguagem dos habitantes de Goiás serve de alicerce para a transmissão de alegrias e tristezas do povo de sua época. "A casa velha da ponte" retira, como de um baú, memórias relativas a seus antepassados, aos segredos de sua casa, lembranças que jamais seriam conhecidas, não fossem por seu livro.
O livro O tesouro da casa velha é póstumo, e não contou com a seleção final da própria autora. No entanto, seus contos versam sobre a vivência e as mágoas do passado de 96 anos e não apresenta qualquer mudança de estilo. Mais amargurado é Vintém de cobre, que dialoga com Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. "E nas pedras rudes do meu berço gravei poemas". Personificam-se o quartel, o gato e o bem-te-vi. Deixa mais mensagens de esperança e declara o poder da poesia: "Não é o poeta que cria a poesia / E sim, a poesia que condiciona o poeta".
É a "estrutura na mesma pauta e ritmo" que Gilberto Mendonça Teles vê no seu estilo, numa aparente monotonia, que alça Cora Coralina a sua posição de escritora pioneira na conservação da tradição trovadoresca, que nos chegou nos finais da Idade Média, de Portugal.

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