CENTRAL DE QUADRINHOS BRASILEIROS -
Super-heróis brasileiros
12
|
|
Acima:
Judoka no traço do J. J. Marreiro. |
Capítulo 22: JUDOKA (por
Antônio Luiz Ribeiro)
Quem está já passou dos 35 anos certamente deve se lembrar com
saudade de O Judoka. Lançado pela revista homônima da EBAL, em 1969, como
substituto do herói americano Judô Master, que havia sido cancelado nos EUA, O
Judoka foi uma espécie de antevisão da febre das aventuras de artes marciais dos
anos 70.
Criado pelo escritor Pedro Anísio e desenhado inicialmente por Eduardo Baron, o
herói tinha um uniforme bem moderno, mesmo para os padrões de hoje: um colante
verde coberto por um quimono branco, com os olhos cobertos por uma máscara.
Na aventura de estréia, publicada no nº 7, era narrada a origem do protagonista:
um jovem chamado Carlos da Silva, que vivia apanhando de uma turminha de
baderneiros filhinhos de papai, conhece por acaso, certo dia, um misterioso
mestre de artes marciais orientais, que vê no jovem uma espécie de seu sucessor.
O mestre oferece ao jovem a chance de aprender a filosofia e artes marciais do
oriente. Após um longo treinamento, Carlos recebe o uniforme especial e adota a
identidade de Judoka. A partir de então, o Judoka vai à forra contra os
Apocalipses Now e passa a enfrentar criminosos por todo o país, sempre auxiliado
por seu mestre, pela polícia e, a partir do nº 22 (janeiro de 1971), por sua
namorada Lúcia, que para surpresa dos leitores também se torna uma Judoka
feminina.
O Judoka tinha vários desenhistas: além do citado, desfilavam pelos números os
traços de Mário Lima, Sampaio, Ikoma e Fhaf (iniciais de Floriano Hermeto de
Almeida Filho).
Apesar de bem desenhado, O Judoka carecia, muitas vezes de um roteiro mais
trabalhado, mais amadurecido, principalmente nos números em que cada aventura se
passava numa região do Brasil. O que mais irritava nessas histórias era a
ingenuidade política, o ufanismo de, a cada episódio, parar a trama de modo
abrupto para mostrar turisticamente nosso país. A impressão que o leitor tinha,
às vezes, era que estava lendo um folheto turístico.
Mas os roteiros caretas eram compensados pelo visual das histórias, publicadas
em formatão, com capas quase sempre competentes e arte muitas vezes psicodélica
e surrealista.
A popularidade do Judoka na época pode ser medida pela sua versão
cinematográfica, com Pedrinho Aguinaga no papel principal e Elizângela como
Lúcia. O filme acabou influenciando a versão em quadrinhos: o Judoka começou a
ser desenhado, em algumas ocasiões, com a fisionomia do playboy Aguinaga, que
conferia ao herói uma elegância sofisticada.
O Judoka foi cancelado no nº 52, em 1972, época em que a EBAL começava seu
declínio empresarial. Nem mesmo com o lançamento da revista "Kung fu", dois anos
depois, a editora trouxe o herói de volta. E olha que material não faltava, pois
muitos quadrinhistas brasileiros tinham o sonho de desenhar o personagem. Três
deles, Reinaldo, Alvimar de Anjos e Júlio Bianconi, por exemplo, produziram uma
HQ na época, Domínio do terror, que permanece inédita até hoje.
Em julho de 2000 anunciou-se que vários super-heróis daquela época possivelmente
voltariam em "edições especiais". Porém, até o momento do fechamento desta
matéria, nada de concreto aconteceu.
Posfácio:
No sétimo parágrafo, menciono que o filme do Judoka acabou influenciando a
versão em quadrinhos, ao ponto do herói ser desenhado com a fisionomia do ator
Pedrinho Aguinaga. Mas na verdade, pelo menos outro ator "emprestou" suas
feições ao herói – Burt Ward. Isso mesmo, Burt Ward – o Robin da série de TV
Batman – "interpretou" o Judoka no nº 27 da revista (junho de 1971). O autor da
homenagem foi o desenhista Fhaf.
Falando em homenagens, é incrível como esse herói é lembrado até hoje. Quando
escrevi o artigo acima, achava que o Judoka estava morto e enterrado. Achava que
eu estava fazendo arqueologia. Tinha aquela sensação que eu era o único que me
lembrava dele. Na época, quando anunciou-se que vários super-heróis "das
antigas" possivelmente voltariam em "edições especiais", não levei muita fé. Mas
o fato é que o pessoal vem insistindo. Franco de Rosa e Watson Portela, por
exemplo, homenagearam o herói com o Judokinha, na revista infantil para colorir
"Olhe e Pinte" nº 1 (2005), da editora Escala em associação com Editoractiva.
Capítulo 23:
AUDAZ (por Paulo S. Campos)
Também chamado de "O Demolidor", e muito antes do personagem da Marvel que
adotou tal título no Brasil, Audaz é um poderoso e gigantesco robô comandado
pelo brilhante cientista Dr. Blum.
Data de maio de
1939 a
primeira publicação do “Audaz, o Demolidor”, ocorrida na edição número 509 do
suplemento Gazetinha. Audaz foi publicado totalmente a cores, configurando um
marco para a época. Os argumentos foram de Aruom e os desenhos do brilhante
Messias de Melo.
O primeiro Robô dos quadrinhos norte-americanos foi "Bozo, the Iron Man", mas
àquela altura, Audaz já era publicado um ano antes. Se levarmos em conta que
muitos consideram o "Homem-de-Ferro" da Marvel, ou o "Tornado Vermelho" da DC plágios
do Bozo, não seria exagero considerar todos esses como plágios do Audaz!
O Japão, país tradicional em criar ficções com robôs gigantes, considera a
primazia do estilo como sendo do "Astro Boy", de Osamu Tezuka, criado em 1952.
Mais uma vez o Brasil saiu na frente, com quase 20 anos de vantagem sobre o
nipônico!
Conclusão: o Brasil criou o primeiro robô da banda desenhada, no mundo.
E é absolutamente inacreditável que ninguém dê os devidos e justos créditos! Em
verdade, a tendência brasileira é sempre conferir louros de vitória ao EEUU, sem
nem ao menos pesquisar as raízes dos fatos, e tampouco a história.
É uma atitude que eu, como lusitano morando no Brasil há tanto tempo, me esforço
bastante, mas não consigo entender. Chega a parecer que o Brasil dos quadrinhos
se compraz em ser sempre subalterno, diminuto, e o último colocado na corrida.
O Audaz foi contemplado com uma segunda aventura publicada na Gazeta Juvenil
número 1, no dia 4 de agosto de 1949, àquela feita com argumento de Lindbergh. A
Hq foi parcialmente colorida.*
*Essa Hq está reproduzida aqui na CQB.
VÁ AO ÍNDICE PARA VER MATÉRIAS ANTIGAS DAS CQB: ÍNDICE ANTIGO DA CQB
VÁ AO ÍNDICE COM AS ÚLTIMAS NOVIDADES DA CQB: ÍNDICE NOVO DA CQB