Capítulo 06
Genteee.. que saudade que eu já
tô!! Meu terceiro dia na África do Sul. Ainda não vi nenhuma girafa, nem leão,
nem nada.. rss.
Estamos no outono, mas o clima é de um deserto.. com muito sol e calor de dia e
noites frias e com geada. De dia, me sinto no Rio de Janeiro, jurooo..
delícia!!! Estava com saudades depois de tanto tempo em NY. Mas, quando o sol se
põe, me sinto no Alasca... huahuha!
O Isaac não botou fé no sol daqui não, tá vermelho que nem um pimentão. Temos que comprar protetor solar fator 100... cara, não dá mais pra viajar com ele... meu Deus, parece criança, tudo acontece com ele!!
Demos uma volta pela cidade, não há muito o que se ver por aqui... mas dá para reparar em muita coisa interessante. A maioria da população é de negros, (duh), cerca de 90%. Brancos em sua maioria são descendentes de holandeses. As línguas faladas aqui são o inglês, afrikaans, swahili e zulu.
Mesmo com o pessoal falando inglês, a gente fica meio perdido. Temos que pedir pra repetir mil vezes, até conseguirmos entender. Fora que tem muita palavra que não existe no nosso vocabulário..
Outro aspecto que dá pra notar de longe é a segregação racial. Hoje a África do Sul colhe os frutos do Apartheid, onde os negros não tinham direito a nada, nem a ir a escola ou usar um restaurante. É uma situação complicada, porque o fim do Apartheid não resolveu os problemas sociais daqui, pois por mais que agora empresas são obrigadas a contratar negros, e escolas são obrigadas a acolhê-los.. isso significou demissão de empregados brancos e uma lentidão no ensino. Óbvio que a discórdia só aumentou, mas óbvio que também o Apartheid tinha que ser instinto.
Bom, vamos falar de coisas boas.... temos muitas lembrancinhas pra vocês, é claro!! Beijos enormes, estamos com saudades! Vocês bem que poderiam vir pra cá também.
Lola.
Nathaly e Taylor fecharam o email e riram da situação do irmão. O Isaac não tinha muita sorte pra essas viagens diferentes mesmo, parecia até que atraía coisa ruim. Se a Paola mandasse um mail dizendo que dezenas de abelhas tze tze tivessem perseguido o Isaac até um riacho, eles acreditariam, pois seria algo bem típico dele.
Taylor>> Bom.. tá na hora do Erza estudar.. vou subir pro estúdio e trabalhar um pouco, ok, amor? - Nathaly o olhou, cansada. - O que foi? Que carinha é essa?
Nathaly>> Amor, acho que precisamos ter uma conversa. - A sobrancelha direita de Taylor saltou na hora. Como mulher adorava conversar sobre as coisas, ao invés de simplesmente resolver os problemas.
Taylor>> Diga, baby..
Nathaly>> Eu não tô mais agüentando. Sério. - Colocou a mão na coluna e a esticou pra trás. - É muita coisa pra fazer.. é cuidar da casa.. é ensinar o Erza as matérias, é cuidar de você.. tá sendo muito pra mim.
Taylor>> Ow, baby.. mas não tem a Simone.. que te ajuda?
Nathaly>> Tem, né.. mas ela só vem uma vez na semana.. eu não tô agüentando mais mesmo! Eu queria botar o Erza na escola!
Taylor>> Ah, Nath.. a gente já discutiu sobre isso.. eu queria que ele tivesse o mesmo ensino que eu.. em casa.. é muito melhor.
Nathaly>> Taylor, o Erza é uma peste. Ele precisa ir pra escola pra exercer as pestices dele lá na escola, entende? Bater nos colegas, xingar as meninas, puxar trança, etc... ele tá perdendo isso tudo, e o pior.. tá descontando em mim!!
Taylor>> Ai, cê tá exagerando!
Nathaly>> Então trocamos, ué. Você ensina o Erza e eu...
Taylor>> E você passa a compor as músicas do Hanson? - Ela riu.
Nathaly>> Não.. eu.. sei lá.. não tem nada que eu possa fazer pra adiantar teu trabalho?
Taylor pensou um pouco e fez que sim com a cabeça.
Nathaly>> Ótimo! - Os dois subiram para o estúdio.
Taylor>> É o seguinte.. tá vendo esse bolo aqui? - Pegou uma pasta cheia de partituras. - Então.. eu tenho que passar tudo a limpo. São as últimas canções que a gente compôs.
Nathaly>> Taylor isso aqui é a obra inteira de Bethoven.. como assim as últimas canções que vocês compuseram tão nesse bolo todo? - Taylor riu do comentário dela.
Taylor>> Tem três tipos de caderno aí.. esses são os meus.. esses do Isaac.. e esses do Zac. A gente faz tudo num rascunho, já passamos a limpo o rascunho, mas daí eu tenho que juntar os três cadernos num só, entende? Isso aqui é o código pra você poder decifrar o que significa cada coisa... olha aqui.. - Ela fez. - Isso aqui significa que entra o trecho do Zac.. daí é o meu.. isso aqui é quando é o solo dos dois juntos.
Ela concordou com a cabeça. Ele explicou mais algumas coisas.
Nathaly>> Moleza!
Taylor>> Então tá! Vou lá chamar o Erza.. o que ele vai estudar hoje?
Nathaly>> Matemática.
Taylor>> Uuurgh, ok.. - Foi até o quarto do filho. - Erza.. vambora, é o pai que vai te ensinar hoje.
Erza estava jogando videogame. Ele nem se mexera.
Taylor>> Filho... vem, vamos estudar? - O filho continuava na mesma. - Vem cá, moleque malcriado! - Desligou o videogame e puxou Erza pela camisa. - Sentae. - Colocou o filho na cadeira. - Bom... continuando.. - Pegou o livro de matemática que já estava separado e a aula começou.
Nathaly estava no estúdio, com a cabeça doendo de tanto que decifrava a letra do Isaac e os códigos que Taylor havia lhe mostrado.
Enquanto isso, Gabriela estava na casa de Rachel com Mattew. Elas conversavam na sala, enquanto ele lia um livrinho que Rachel havia acabado de lhe dar de presente.
Algumas horas depois, ela ouviu uma gritaria vindo do quarto de Erza. Largou tudo o que estava fazendo e apareceu no quarto, levando um susto. Taylor estava segurando Erza pelos tornozelos, sacudindo o garoto, que estava de cabeça pra baixo.
Nathaly>> Taylor!!!!! - Ele soltou o menino. - O que é isso????
Taylor>> Er.. pensando bem, sabe aquela conversa que a gente teve mais cedo??? - Ela cruzou os braços, irritada. - Poisé.. acho melhor a gente botar o Erza na escola mesmo. - Ela riu.
Nathaly>> Só bastou um dia ensinando ele pra você entender isso.... - Continuou rindo.
Taylor>> Um dia??? Algumas horas!! - Olhou para o Erza que já estava jogando videogame. - E as minhas cifras?? - Perguntou, empolgado.
Nathaly>> Er.. eu fiz um pouquinho diferente do que você disse.. - Ele olhou meio zangado pra ela, os dois iam até o estúdio.
Ele pegou o caderno que ela fizera, tudo rosa, lilás e azul claro, canetas coloridas com purpurina e cheirinho.
Taylor>> Nath, eu não te falei pra fazer com a caneta preta mesmo?
Nathaly>> Falou, mas eu achei que assim ia ficar mais fácil de vocês entenderem......
Taylor>> Ai.. - Virou os olhos. - Tá.. deixa que eu continuo assim mesmo. Brigado, amor. - Cheirou o caderno. - Pelo menos o cheiro é bom.
Nathaly>> Nada. - Riu dele.
Já passava da meia noite, quando Barbara e Zachary saíam do cinema, de mãos dadas, caminhando para a praça de alimentação. Comeram alguma coisa, e ficaram conversando e beliscando uns petiscos.
Naquela hora, Gabriela ainda estava na casa de Rachel, Mattew apagado no sofá da sala, roncando de tão cansado que estava. Ela resolveu ir embora, por mais que Rachel insistisse para ela dormir por ali mesmo. Ela não queria, Mattew poderia acordar no meio da noite, precisar de uma nebulização, e ela estaria ali na casa de outra pessoa, incomodando.
Gabriela>> Eu pego um ônibus, vai rapidinho.
Rachel>> Tem certeza, Gaby?
Gabriela não queria que Rachel a levasse em casa, pois ela já estava de pijamas e tudo, e nada a faria mudar de idéia. Ela pegou Mattew no colo, que ainda dormia, e desceu pro ponto de ônibus.
Alguns minutos depois, conseguira pegar seu ônibus, o 410. Mattew ia em seu colo, que nem um macaquinho, com a cabeça apoiada em seu ombro, cochilando profundamente. Nada iria acordá-lo.
Passou um tempo, quando Gabriela percebeu que o ônibus entrara numa rua completamente contrária para onde ela iria. Bateu um desespero, um medo, um não saber o que fazer. Ela puxou a cordinha e desceu logo, na esperança de pegar um táxi.
Quando ela desceu, se dera conta como aquele lugar era deserto. Não tinha nada, ninguém, nem um táxi, nem uma pessoa, nem ônibus estava passando direito.
Gabriela pegou seu celular pra tentar ligar para Rachel, estava tão desesperada que uma carona aquela hora não seria má idéia. O telefone dela estava desligado. Tentara para Nathaly e Taylor, a mesma coisa. O desespero foi aumentando, Mattew ainda estava dormindo em seu colo, isso era um alívio.
Ela tentou ligar para o rádio táxi, mas não tinha nenhum disponível. Mattew tossira, estava muito tarde e o frio era absurdo. Ele acabou acordando, olhou para sua mãe e sorriu de levinho, ainda com os olhinhos fechadinhos e inchados de sono. Voltou a tossir e respirar forçado. Cada vez que ele inspirava, dava pra ouvir um zumbidinho de pulmão congestionado. Precisava urgente fazer nebulização.
Naquela hora, Gabriela não pensou em outra possibilidade a não ser ligar para Zachary, que atendeu, meio preocupado. Barbara estava do lado dele, e ele não sabia o que o preocupava mais, a Gaby ligando aquela hora ou a Babi o olhando puta da vida por sua ex-mulher ter ligado.
Gabriela explicou toda a situação, nervosa. Falava rápido, estava quase chorando de tão assustada. Zachary não hesitou nem um pouco em buscá-la, e quando desligou o celular pediu a conta ao garçom. Barbara cruzou os braços e olhou feio pra ele.
Barbara>> Não, a gente não vai.
Zachary>> Eu não tô com muito tempo pra discutir isso com você, sério mesmo.
Barbara>> Não tem a menor condição da gente interromper o que a gente tava fazendo pra você sair correndo pra ela.
Zachary>> Que parte da história você não entendeu?? Não é por ela, é pelo meu filho.
Barbara>> Você não me engana! Eu sei que é por ela também.. seu filho é só um pretexto!
Ele ignorou o que ela disse, pegou a pastinha que o garçon lhe entregara e deixou o dinheiro, sem nem se importar com o troco e levantou.
Zachary>> Você vai ficar aí ou vem também?
Barbara>> Eu já disse que a gente não vai. - Disse, duvidando que ele fosse fazer alguma coisa. Ele não deixaria ela ali, sozinha, a noite, sem carro, sem nada.
Ele pegou um dinheiro da sua carteira e deixou na mesa.
Zachary>> Pro seu táxi. - Saindo dali.
Barbara o olhou, incrédula. Como ele teve coragem de fazer isso com ela? Como ele iria sair correndo assim atrás da outra? Ela respirou fundo, não iria sair correndo atrás dele, não iria fazer esse papelão. Foi até o banheiro do shopping, se trancou lá dentro e começou a chorar. Chorou muito, de raiva, de ódio, de mágoa. Aquilo não iria ficar assim, não mesmo.
Algum tempo depois, Zachary chegou no lugar indicado por Gabriela. Era muito deserto mesmo, o coração dele estava aflito, podia ter acontecido alguma coisa. Ela entrou correndo no quarto.
Gabriela>> Vamos, vamos pra casa.
Zachary>> Pra minha ou pra sua???
Gabriela>> Tanto faz, Zac, vamos logo!! Ele não tá conseguindo respirar direito!!! - Encostando a cabeça dele em seu peito, ninando-o. Ele não era mais um bebê, mas ela o ninava como num instinto para fazê-lo se sentir melhor, mais protegido.
Zachary bufou e saiu derrapando até a casa dela. Assim que chegaram, ele pegou o Mattew do colo dela e correu com ele até a entrada de casa, enquanto ela procurava a chave da porta no molho de chaves. Os dois subiram rápido, enquanto ele acalmava Mattew, ela preparava o nebulizador, com uma substância parecida com o que se tem na bombinha pra asma, que fazia com que ele sentisse o ar melhor entrando por seus pulmões, acabando com a falta de ar.
Assim que Mattew dera seu primeiro suspiro de alívio, os dois fizeram o mesmo. Estavam sem ar também, o coração acelerado de tanta preocupação.
Gabriela>> Ai, acho que eu vou vomitar. - Indo até o banheiro, devagar, com uma mão na barriga e outra na cabeça, que estava explodindo.
Zachary>> Matt, fica direitinho aí com o nebulizador que eu vou ver a mamãe, tá? - Ele fez que sim com a cabeça, segurando o nebulizador com mais força contra seu rosto. - O que houve, Gaby? - Entrando no banheiro também, fechando a porta pro Mattew não ouvir.
Ela estava sentada no chão, tinha acabado de vomitar e chorava muito, de soluçar.
Zachary>> Gaby? Calma.. - Se ajoelhou no chão, acariciando o cabelo dela. - Hey, calma.. - Puxou ela para seu peito, que ficou um tempão chorando.
Gabriela>> Eu pensei que eu ia perder ele, Zac.. eu pensei mesmo.. pra sempre.. eu não tô preparada.. não tô preparada pra ele ir embora..
Zachary a apertou mais forte contra seu peito, seus olhos se encheram d'água. Ele também não estava preparado... e sabia que era uma situação que não tinha jeito. Por mais que conseguissem um transplante de coração, não tinha como transplantar os pulmões também.
Gabriela>> Eu não quero que ele vai embora.. - Murmurou chorando, Zachary acabou não conseguindo conter a lágrima que escorrera de seu rosto e acabou chorando também, a abraçando muito forte.