Ministério Público da União
Ministério Público do Distrito Federal e Territórios
13ª e 14ª Promotorias de Justiça Criminal de Brasília
A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (American History X)
por Rogério Schietti Machado Cruz
Promotor de Justiça do Distrito
Federal
Muitos foram os filmes feitos sobre a questão do racismo, do ódio recíproco entre brancos e negros, algo tão comum na sociedade norte-americana.
A diferença que percebemos no recente filme "A outra história americana" é, basicamente, a radical mudança de comportamento de um neonazista - o skinhead Derek Vinyard protagonizado pelo brilhante EDWARD NORTON - após cumprir alguns anos de prisão pelo morte de dois negros.
Com o assassinato do pai - um bombeiro que semeou idéias de separatividade racial nos filhos - Derek passa a viver em função do ódio pelas minorias (negros, latinos e judeus), liderando os jovens de seu bairro em atos de vandalismo e violência.
Na prisão, vê-se em permanente conflito ao ser agredido pelos seus próprios pares - brancos igualmente violentos e racistas - e ao ver em um negro o único interno a lhe nutrir alguma afeição.
Em meio a tudo isso, Derek se culpa pelo fato de haver atraído para o buraco que ele próprio cavou para o irmão mais novo, Danny (estrelado por EDWARD FURLONG), um jovem que luta contra seus próprios sentimentos para seguir o exemplo de seu irmão.
O final é trágico, o filme contém cenas de muita violência, mas a sensação pós-créditos é incrivelmente positiva, diante da idéia de que o homem, por mais irrecuperável e corrompido que possa parecer, ainda é capaz de resgatar a divindade que guarda adormecida ou aprisionada em seu interior.
DESTAQUE JURÍDICO
O filme ora em comento, escrito por D. McKenna, produzido por J. Morrissey e dirigido por Tony Kaye conduz-nos a algumas reflexões.
"A outra história americana" nos leva, em um primeiro momento, a pensar em como o meio social e a família podem contribuir para que alguém enverede pelo caminho da marginalidade, e como é extremamente difícil abandonar tudo o que isso representa.
A maior reflexão, porém, que este filme suscita diz com a questão racial, que tem minado a sociedade norte-americana com seu crescente segregacionismo.
As leis americanas são rígidas na proteção das minorias e no combate a todo tipo de discriminação étnica, sexual, religiosa etc, mas, na realidade, boa parte da população ainda nutre esse vil sentimento de separatividade. A própria construção do federalismo americano deve um tributo à reação de uma parte da sociedade contra o apartheid social que os estados do sul do país impunham àqueles americanos diferenciados pela cor de sua pele.
Esta ainda é, talvez, a grande questão a ser resolvida nos Estados Unidos. Estatísticas indicam que um em cada três jovens negros está sob a supervisão do sistema criminal nos EUA. Em muitas cidades, como Baltimore, cerca da metade da população jovem negra está sob controle do sistema. Em Los Angeles, um terço dos jovens negros já estiveram alguma vez atrás das grades. Quando atingirem a idade de 35 anos, oito em dez negros provavelmente já terão sido presos por algum motivo. A discriminação racial se evidencia nos índices relativos de aprisionamento de negros em relação a brancos. Afro-americanos constituem 12% da população dos EUA, 13% da população que usa drogas, mas representam 74% das pessoas enviadas para a prisão por porte de entorpecente (fontes: BJS, Baltimore Sun e NCIA).
Em suma, a aparente igualdade formal reproduzida em textos de lei (law on the books) não encontra correspondência na realidade (law in action), formando um hiato entre o modelo idealizado pelo legislador e o que se vê nas ruas e nos presídios.
A forma discriminatória e cruel com que o sistema criminal e penitenciário norte-americano trata os negros (ou afro-americanos como se preferir), faz-nos lembrar do pensamento do maior dentre seus líderes (Martin Luther King), quando disse: "Aprendamos a viver juntos como irmãos; caso contrário, vamos morrer juntos como idiotas."