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Em: 03-FEV-1999 Líder guineense acusa França de participar nos combates ![]() Fadul (à esquerda, ao lado do líder da revolta, Ansumane Mané, em Lomé, Togo, Dezembro do ano passado) disse que a França está a bombardear Bissau e tem tropas a combater no terreno (telefoto EPA/Lusa/CM) O primeiro-ministro indigitado na Guiné-Bissau, Francisco Fadul, acusou ontem a França de participar nos combates em Bissau com disparos cirúrgicos de longa distância "efectuados por um navio francês fundeado na zona de Suru" e com tropas especiais no terreno. Ao terceiro dia de combates, já com mais de trinta mortos civis, centenas de feridos e milhares de refugiados sem assistência básica, Fadul pediu a Portugal "que perca os seus complexos de país colonizador (e) mande os seus navios de guerra para Bissau". Fadul foi escolhido pela Junta Militar do brigadeiro Ansumane Mané, de quem era conselheiro político, e indigitado pelo presidente "Nino" Vieira para chefiar o Governo de unidade nacional que ainda não tomou posse. Foi este homem que ontem acusou a França de bombardear posições da Junta em Bissau e de ter forças especiais a combater na zona do Hotel Oti, de acordo com o que lhe disseram populares. Fadul recordou que já no ano passado, a Marinha de Guerra francesa foi acusada de participar numa tentativa de cerco às forças amotinadas. O embaixador francês em Bissau, François Chapellet, desmentiu. Um correspondente da "Reuters" a bordo do navio de guerra francês estacionado ao largo de Bissau, "Siroco", garantiu não terem havido disparos daquela embarcação. O "Siroco" deveria ter desembarcado em Bissau 300 homens (do Níger e do Benin) para a força de interposição da ECOMOG, que já tem um contingente avançado de 110 togoleses na capital guineense (no porto marítimo e aeroporto). O "Siroco" é um navio de comando e transporte e está em águas territoriais guineenses acompanhado pela corveta "D'Estienne d'Orve", presumivelmente para protecção. Finalmente, o próprio presidente francês desmentiu as acusações aos microfones da Rádio Alfa parisiense: "A França não pratica qualquer ingerência nos assuntos internos da Guiné-Bissau", declarou Jacques Chirac, que amanhã se desloca a Lisboa. O primeiro-ministro António Guterres afirmou não ter confirmação do envolvimento francês, "pelo contrário, só desmentidos", e disse que o ministro Jaime Gama estava a promover contactos de esclarecimento com o seu homólogo francês. "Portugal quer fazer parte de uma solução e não de um problema", disse Guterres. Lisboa pediu ontem ajuda a Paris para auxílio de um barco português que saiu de Bissau com 200 refugiados, na segunda-feira à noite, e avariou ou encalhou ontem perto dos Bijagós. Havia indicações sobre a possibilidade de ser o "Siroco" a assistir. O Estado-Maior das Forças Armadas senegalesas emitiu ontem um comunicado garantindo que nenhum dos seus militares está envolvido nos combates e que estes começaram com um ataque da Junta Militar contra posições defendidas por soldados da Guiné-Conacri. Os dois países citados têm 3 mil soldados na Guiné-Bissau em defesa de "Nino" Vieira, que de outra forma não tinha tropas para resistir a Mané. Os combates prosseguiam ontem em Bissau, com uso intermitente de artilharia pesada, e as forças da Junta Militar estariam em progressão, segundo Fadul e fontes militares. A Rádio Nacional sobrepôs a sua emissão na frequência da Rádio Junta Militar e as iniciativas diplomáticas de Portugal e da França não surtiram qualquer efeito pacificador. Não há ligações telefónicas internacionais para Bissau, falta a electricidade e a água e acabaram as reservas de comida. O Hospital Simão Mendes contava ontem 35 mortos e 220 feridos civis. A população refugia-se onde pode, mas não há meios para lhes prestar assistência. Num momento dramático, as forças presidenciais deixaram ontem que dez mil civis fugissem do seu refúgio na missão de Andula para fora de Bissau. Um dos missionários desabafou sobre o desespero da situação: "A Junta disse que ía até ao fim. Ninguém sabe o que isso quer dizer. Matar todos?" © 1998 Correio da Manhã. Todos os direitos reservados.
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