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Correio da Manhã

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Em: 04-FEV-1999

Acordo de cessar-fogo ao som de tiros em Bissau


A guerra voltou a levar a morte a Bissau (telefoto EPA/Lusa/CM)

Após mais uma manhã de intensos combates em Bissau, a população guineense recebeu um sinal de esperança: um novo acordo de cessar-fogo foi assinado ao princípio da tarde pelo presidente "Nino" Vieira" e o líder da Junta Militar, Ansumane Mané. Uma esperança que, no entanto, em breve seria ensombrada, com o som da guerra a fazer-se de novo ouvir poucas horas após a entrada em vigor das tréguas, resultantes da mediação do Togo.

A notícia do cessar-fogo foi anunciada às agências noticiosas por fontes diplomáticas em Bissau, que não adiantaram pormenores sobre o teor do acordo. Sabe-se apenas que a tréguas foram declaradas depois de os ministros togoleses Joseph Koffigoh (chefe da diplomacia de Lomé) e o general Hassani Tidjani (responsável da Defesa) terem mantido conversações com "Nino" Vieira e mais tarde com o brigadeiro Mané.

Fontes oficiais contactadas na capital do Togo tinham afirmado que o próprio presidente Gnassingbe Eyadema, igualmente presidente em exercício da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) se tinha mantido em "contacto permanente" com os dois líderes em conflito, no sentido de conciliar um regresso à paz, acordada com as duas partes em Novembro último na Nigéria. Um acordo que previa, nomeadamente, o deslocamento para a Guiné-Bissau de uma força da ECOMOG (braço armado da CEDEAO), com a missão de se interpor entre as forças militares dos dois beligerantes.

Mas o destacamento total desta força, que deveria substituir os efectivos militares do Senegal e da Guiné-Conacri, que lutaram ao lado das forças do presidente "Nino" Vieira, não chegou a concluir-se. O regresso dos combates no último domingo acabou mesmo por impedir a chegada das tropas regionais que permanecem a bordo de navio de guerra francês, fundeado ao largo de Bissau. A esperança que renasceu após a assinatura do cessar-fogo bem depressa esmoreceu.

Horas depois da entrada em vigor das tréguas (15 horas), um violento tiroteio era escutado de novo em Bissau. A troca de tiros prolongou-se por mais de cinco minutos, desconhecendo-se qual das partes voltou a violar o cessar-fogo. Sabe-se apenas que àquela hora, os representantes diplomáticos de Portugal, cônsul Artur Magalhães, da França, embaixador François Chappellet, e a encarregada de negócios da Suécia, Ulla Andren, se encontravam reunidos com o presidente "Nino" Vieira para analisar a melhor forma de consolidar as tréguas assinadas.

No encontro os três diplomatas manifestaram a sua preocupação em relação ao reacender do conflito, fazendo sentir a necessidade da aplicação de uma cessar fogo duradouro. Segundo fontes diplomáticas, esta reúnião "não adiantou nada" na busca de solução para o conflito político-militar no país.

Portugueses retirados se quiserem

Desde o reinício da guerra, milhares e milhares de habitantes fugiram da capital e os que ficaram têm vivido horas de pânico e desespero, abrigados em subterrâneos e refúgios improvisados, num cenário de carência absoluta e falta generalizada de alimentos. O número exacto de vítimas continua ainda por contabilizar, mas os hospitais dão conta de dezenas de mortos e centenas de feridos. Ontem, o Governo português anunciou a sua disposição para repatriar todos os cidadãos lusos que queiram deixar Bissau.

De acordo com o secretário de Estado da Cooperação, Luís Amado, muitos cidadãos portugueses saíram de Bissau durante o primeiro processo de repatriamento, existindo, no entanto, um grupo ainda significativo que optou por permanecer na capital. "Quando os que ficaram solicitarem às autoridades portugueses apoio para a sua saída no quadro da segurança que as operações devem exigir, as acções serão desenvolvidas" - sublinhou o governante.

Recorde-se que o cargueiro "Cofra" recolheu, na última segunda-feira à noite, cerca de 260 refugiados de Bissau, entre os quais alguns cidadãos portugueses, mas o navio acabaria por encalhar nos bancos de areia do arquipélago de Bijagós. O "Cofra" foi posteriormente rebocado por uma embarcação guineense e os refugiados desembarcaram já em Bubaque, principal ilha de Bijagós.

A fuga de Bissau terá sido, aliás, a única escolha possível para a maior parte da população. A capital tem estado nos últimos três dias sob intensos bombardeamentos que têm atingido invariavlemente alvos civis. De acordo com a agência católica missionária MISNA, cinco pessoas morreram ontem e 15 outras ficaram gravemente feridas devido ao coflapso de uma igreja onde se haviam refugiado, atingida em cheio por uma granada.

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