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Em: 04-FEV-1999

Cessar-fogo foi logo violado

Mediação da CEDEAO levou Nino Vieira e Ansumane Mané a assinarem ontem uma trégua. Horas depois, tiroteios seguiam


Arquivo DN-Eduardo Tomé FUGA. Todos os meios são bons para fugir de um conflito que não se desejou

Um forte tiroteio de armas ligeiras e artilharia pesada estalou ontem às 18 e 45 em Bissau, ignorando assim o acordo de cessar-fogo assinado ao início da tarde pelo Presidente João Bernardo Vieira e pelo líder rebelde Ansumane Mané.

O cessar-fogo, resultado da mediação da CEDEAO, deveria ter entrado em vigor às 15 horas locais, mas as armas nunca chegaram a calar-se completamente, continuando sempre os tiroteios esporádicos.

Ao final da tarde, os representantes diplomáticos de Portugal, da França e da Suécia - Artur Magalhães, François Chappellet e Ulla Andren - encontravam-se reunidos com o Presidente Nino Vieira, no palácio presidencial, para analisar as formas de consolidar o cessar-fogo.

A trégua foi conseguida através da mediação de dois enviados especiais do Presidente togolês - os ministros dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Joseph Koffigoh, e da Defesa, general Hassani Tidjani - que chegaram durante a manhã a Bissau.

Nos termos do acordo assinado por Nino Vieira e Ansumane Mané, as partes em conflito "autorizam" a entrada em Bissau das tropas da força de interposição da Ecomog e comprometem-se a facilitar a sua distribuição no terreno. O acordo prevê ainda que os chefes do estado-maior das duas forças beligerantes se encontrem, sob a égide da Ecomog, para definir as modalidades práticas do cessar-fogo.

Trezentos soldados nigerianos e beninenses da Ecomog esperam ao largo, a bordo do navio militar francês Siroco, a oportunidade de desembarcarem em Bissau e de se juntarem ao contingente togolês que já aí se encontra. O Sirico recebeu há três dias ordens para se manter ao largo, aguardando o desenrolar dos combates.

Fontes próximas da Junta Militar disseram ontem à agência Lusa que as tropas de Mané estavam a fazer grandes avanços no terreno em três flancos, depois de passarem da política de "se defender progredindo" para uma de "avanço determinado".

As forças da Junta estavam ontem ao princípio da tarde na zona de Granja, a norte da cidade e a cerca de dois quilómetros do palácio presidencial, no flanco esquerdo dos combates. No flanco direito, tinham avançado até ao Bairro das Pescas, a quatro quilómetros do centro da capital.

Fontes da Junta, citando um militar governamental feito prisioneiro, referiram que houve ou há militares franceses na Presidência da República, na marinha e na linha da frente do flanco esquerdo das forças da Junta Militar. A denúnicia já fora feita na terça-feira pelo primeiro-ministro Francisco Fadul e referida também por missionários.

De acordo com os dados recolhidos pela Junta, foram vistos três helicópteros - ou três voos de um mesmo helicóptero - transportando militares franceses. Crê-se que fossem forças especiais, entretanto retiradas das linhas da frente para posições mais recuadas.

Situação "catastrófica" no principal hospital

A situação no Hospital Simão Mendes, o principal de Bissau, continuava ontem "catastrófica", com três centenas de feridos "a não poderem ser tratados por falta de medicamentos", indicaram fontes hospitalares na capital guineense.

A maioria das vítimas que chegou a este hospital - 80 mortos e 300 feridos - registou-se no domingo, dia em que os combates se revestiram de maior violência. E, em muitos casos, estavam a ser utilizadas ligaduras para fechar as feridas, face à inexistência de linha de sutura, segundo revelou o próprio pessoal médico.

Além da impossiblidade de tratar e alimentar feridos e doentes internados no hospital, existem "riscos de fome" numa cidade abandonada por três quartos dos seus habitantes. Mais de 250 mil pessoas, que tinham regressado às suas casas após a assinatura do acordo de Abuja, optaram por partir de novo face ao reacender dos combates.

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