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Em: 20-ABR-1999

Fadul quer acordo de defesa

O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, que comparou Nino Vieira a Salazar, está disposto a formalizar "um convite" ao Governo de Lisboa para que envie forças militares para o seu país


DN-José Carlos Carvalho
BOAS RELAÇÕES. Francisco Fadul visitou a Assembleia da República,
onde foi recebido por Almeida Santos

Francisco Fadul, primeiro-minstro da Guiné-Bissau, pediu ontem a disponibilidade portuguesa para enviar forças militares para aquele país, acrescentando que o seu Governo poderá vir a formalizar "um convite" nesse sentido. E deixou ainda claro que espera transformar o actual acordo de cooperação com Portugal "num acordo de defesa militar".

Fadul, que falava na Assembleia da República, recordou que "o maior factor de dissuasão contra a política imperialista foi a presença de duas fragatas portuguesas bem armadas". Durante a manhã, numa visita a dezenas de refugiados guineenses alojados numa unidade militar da Pontinha, Fadul comparou o regime do Presidente Nino Vieira ao salazarismo, sugerindo que o Chefe de Estado se demita do cargo que ocupa desde 1980.

Falando em crioulo, Fadul disse que os guineenses "foram sujeitos a uma ditadura mais grave que a portuguesa". Comparou ainda o Serviço de Segurança da Guiné-Bissau à polícia política de Salazar, dizendo que, entre as duas, "preferia a PIDE".

Acusando o regime de Nino Vieira de "ditadura feroz e pouco humana", Fadul acrescentou que o Presidente, "por uma simples vontade individual, tem aniquilado os direitos das pessoas". Ao referir-se à revolta militar de 7 de Junho passado, Fadul afirmou que "alguém teria que levantar-se; a Junta Militar levantou-se", explicando que o acto não foi um acontecimento isolado, mas o culminar de um longo processo. "A crise começou a 24 de Setembro de 1973 e não a 7 de Junho de 1998.

Começou quando assumiram o Poder personalidades que depressa esqueceram que o Poder não lhes pertence", disse, numa alusão à data da declaração unilateral de independência da Guiné-Bissau. Às perguntas dos jornalistas sobre a recente indiciação judicial de Nino Vieira, acusado de omissão no tráfico de armas, o chefe do Executivo respondeu que "ninguém está acima da justiça" e caso seja concretizada a acusação, o Presidente "terá que sofrer as consequências".

Fadul foi mesmo ao ponto de afirmar que a única saída "digna e com honra" para o Chefe de Estado seria a demissão. "Quando todos os quadrantes sociais põem em causa um dirigente, esse deve repensar a sua permanência nas funções que ocupa e que exigem que represente a sociedade". Fadul apelou ainda também às dezenas de refugiados para que regressem ao seu país.

Aos presentes - que vivem nos arredores de Lisboa -, alguns deles médicos e juristas, disse que "comecem a pensar em voltar à vossa terra. Precisamos das cabeças sentadas nesta sala. As portas da Guiné estão abertas", garantindo que "nunca mais voltará a acontecer a situação de 6 de Junho de 1998. Daqui em diante, os responsáveis políticos serão julgados pelos seus actos".

Antes da alocução do chefe do Governo, tiveram lugar intervenções de refugiados, que expuseram as suas preocupações com o futuro da Guiné. Esperando garantias acerca da estabilidade do país, mostraram-se interessados em regressar. Fadul foi recebido à chegada com cânticos de paz entoados por crianças guineenses. E um grupo de jovens entregou-lhe uma carta, que leu atentamente, respondendo: "Não vou esquecer."

Encontros com Guterres e Sampaio

Francisco Fadul prossegue hoje a sua visita oficial a Portugal, tendo marcado para de manhã um encontro com o primeiro-ministro, António Guterres, seguido de almoço e uma conferência de imprensa. Ao final da tarde, o chefe do Governo guineense será recebido em Belém pelo Presidente, Jorge Sampaio.

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