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Correio da Manhã

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Em: 08-MAI-1999

Banho de sangue na queda de 'Nino'


Ao fim de 19 anos no poder, "Nino" Vieira foi afastado (telefoto Reuters/CM)

É o fim oficial do regime de "Nino" Vieira, o homem que liderou a Guiné durante duas décadas. Ao fim de pouco mais de cinco meses de tréguas, os guineenses foram surpreendidos na última quinta-feira à noite por forte tiroteio no centro da capital entre forças leais ao presidente "Nino" Vieira e da Junta Militar, liderada pelo brigadeiro Ansumane Mané.

Alarmada, a população iniciou nova fuga para o interior mas ao príncipio da tarde de ontem as tropas de "Nino" renderam-se e o presidente encontrava-se já refugiado na embaixada portuguesa em Bissau, com o seu exílio em Portugal a ser ponderado. Na derradeira batalha de um conflito fratricida e sangrento, mais de 100 pessoas terão morrido, 50 das quais no centro missionário de um bairro suburbano, apanhado no fogo cruzado dos últimos combates.

As forças leais ao presidente "Nino" Vieira renderam-se à Junta Militar às 10H50 locais (11H50) em Lisboa. "Considerando a situação degradante e os superiores interesses do país, o Estado-Maior General das Forças Armadas, forças leais à República, e considerando ainda que basta de sacrifício de vidas humanas, declaram a sua rendição" - afirmou-se num comunicado oficial, assinado pelo brigadeiro Humberto Gomes, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e um dos poucos oficiais que se manteve fiel a "Nino", juntamente com o contingente da guarda presidencial.

Os combates das últimas horas terão causado cerca de uma centena de mortos e nas ruas e edifícios da cidade são visíveis os sinais da violência dos confrontos. Ontem à tarde, os soldados da Junta Militar percorriam o centro da cidade, disparando tiros para o ar em sinal de vitória consumada. Num centro missionário do Alto de Bandim, um bairro suburbano de Bissau apanhado pela intensa troca de tiros de quinta-feira à tarde e ontem de manhã, pelo menos 50 pessoas morreram quando um obus caiu no edifício onde se haviam refugiado.

No Hospital Simão Mendes deram entrada pelo menos 20 cadáveres e dezenas de feridos, enquanto era noticiada a existência de corpos amontoados em várias zonas da cidade. O texto da rendição foi entregue ao chefe da cooperação militar portuguesa, coronel Evaristo, encarregue de fazê-lo chegar ao comando da Junta Militar. À hora que foi divulgado o comunicado, uma hora antes do meio-dia, as forças de Ansumane Mané avançavam para o Palácio Presidencial, que pouco depois ficou completamente em chamas, tendo sido posteriomente saqueado.

Os militares da Junta tinham já entrado no quartel da Marinha, assumindo o controlo das instalações. Foi este quartel que abrigou o comando das forças senegalesas, que juntamente com as tropas da Guiné-Conacri apoiaram "Nino" Vieira durante o conflito do ano passado e que foram substituídas por uma força de interposição de paz da ECOMOG (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), ao abrigo do Acordo de Paz de Abuja, de Novembro último.

O reacender do conflito adivinhava-se, face à tensão crescente dos últimos dias entre militares da Junta e tropas governamentais. Embora as razões que levaram ao reacender do conflito sejam ainda pouco claras, sabe-se que o comando militar de Ansumane Mané exigiu o desarmamento da guarda pessoal do presidente e esta "respondeu", avançando para a antiga linha da frente. Nas horas que precederam o reinício do tiroteio, responsáveis estrangeiros na capital, incluindo portugueses, tentaram ainda obter um acordo entre as partes, que se revelou, no entanto, infrutífero.

Com a rendição das últimas tropas que lhe eram fiéis, o presidente "Nino" Vieira, que já havia procurado refúgio no episcopado católico, foi transferido, juntamente com a sua família, para a embaixada lusa em Bissau, sob escolta de soldados rebeldes e acompanhado pelo embaixador português, António Dias.Também os funcionários e os "comandos" franceses responsáveis pela segurança da delegação diplomática gaulesa foram transferidos para a embaixada portuguesa, depois de o Centro Cultural Francês ter sido saqueado e incendiado.

'Nino' asila-se em Lisboa?

Ontem, especulava-se em Lisboa e em Bissau se "Nino" Vieira iria ou não pedir asilo político ao nosso país. Segundo o próprio ministro Jaime Gama afirmou, nenhum pedido oficial foi formulado nesse sentido mas o primeiro-ministro português, António Guterres, já admitiu que Portugal se disponibiliza para acolher alguns governantes guineenses, caso tal seja solicitado.

Perante a nova instabilidade no país, os responsáveis da Junta reafirmaram ontem que não tencionam tomar o poder pela força, que estão por enquanto a assegurar a Lei e Ordem no país, e prometeram trabalhar no sentido de organizar eleições "justas e transparentes", após o que regressaram rapidamente aos quartéis. Também o primeiro-ministro Francisco Fadul, surpreendido pelo golpe da Junta no estrangeiro, afirmou ontem em Lisboa, para onde viajou rapidamente, que a normalidade democrática não está em causa na Guiné.

"Pedimos à comunidade internacional que confie em nós" - afirmou o responsável guineense, segundo o qual o calendário eleitoral será respeitado. Fadul afirmou ainda que a Constituição guineense contempla a hipótese de o presidente ser substituído interinamente pelo presidente da Assembleia Nacional Popular, Malam Bacai Sanhá. "O tempo urge e não se pode "perder tempo" com "Nino" - assegurou ainda o primeiro-ministro, que, questionado sobre se um eventual pedido de asilo político se traduziria no não-julgamento do presidente deposto, foi claro: "Não se deve bater em cadáveres"...

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