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Em: 09-MAI-1999 Junta Militar desarma forças leais a 'Nino' ![]() A morte voltou a Bissau, no epílogo do braço de ferro entre as forças de "Nino" Vieira e Ansumane Mané (telefoto EPA/Lusa/CM) Forças da Junta Militar desarmaram, ontem, em Bissau, soldados leais ao deposto presidente "Nino" Vieira que se tinham entrincheirado num edifício do centro da capital guineense e tinham aberto fogo, perturbando a calma reinante após os combates de sexta-feira, que terão causado pelo menos cem mortos. O incidente, que causou algum pânico entre os habitantes de Bissau, assinalou, ao que parece, o fim da resistência das forças leais a "Nino" Vieira, que ontem permanecia na residência do embaixador de Portugal, António Dias, sem, no entanto, ter pedido asilo político às autoridades de Lisboa, apesar da disponibilidade destas, já manifestada pelo primeiro-ministro António Guterres, em lho conceder. Os combates que levaram à destituição de "Nino" Vieira foram, recorde-se, desencadeados após o ex-presidente ter recusado atender os pedidos da Junta Militar para dissolver o seu corpo especial de guarda, de 600 homens, e ficar apenas com 30. A Junta Militar, liderada pelo novo "homem forte" da Guiné-Bissau, brigadeiro Ansumane Mané, venceu o "braço de ferro" mas o saldo foi sangrento: cem pessoas terão morrido. Bissau despertou ontem calma, mas o pânico regressou quando soldados leais a "Nino", entrincheirados num edifício no centro da cidade, começaram a disparar sobre elementos da Junta. Mas a resistência dos adeptos do presidente deposto foi rapidamente vencida e a Junta domina agora a cidade onde, segundo diplomatas franceses refugiados em Dacar, reina a desordem, com pilhagens generalizadas. "Nada foi poupado. Todos os ministérios e os escritórios das Nações Unidas foram saqueados. E, segundo o nosso encarregado de negócios, até gravações foram levadas", afirmou um dos diplomatas. Residentes na capital guineense garantiram, por seu lado, que os edifícios da delegação da União Europeia e do Centro Cultural Francês, atingido por quinze rockets, foram igualmente saqueados por populares que levaram tudo o que puderam. E o próprio Palácio Presidencial foi saqueado por populares depois de fortemente bombardeado pelas forças de Ansumane Mané que deixaram os andares superiores em chamas. Enquanto em Bissau a Junta Militar se preparava para nomear o presidente do Parlamento, Malam Bacai Sanhá, chefe de Estado interino, o primeiro-ministro Francisco Fadul, regressava ao seu país num avião "Falcon" da Força Aérea Portuguesa. Ainda em Lisboa, falando a propósito da situação de "Nino" Vieira e da sua eventual vinda para a capital portuguesa no mesmo aparelho, Fadul comentava: "Há duas questões distintas: a primeira é a presença na embaixada de Portugal, sob a protecção das autoridades portuguesas, que lhe é garantida. Outra coisa é saber se pede ou não asilo político a Portugal. Em situações destas, a saída do país depende da autorização das autoridades locais. Há pessoas que têm pedidos de asilo em que esse mesmo asilo se materializa nas embaixadas". Estas palavras de Fadul, e o facto de Guterres ter afirmado ser "prematuro" especular sobre a vinda de "Nino" para Lisboa no avião que transportou o chefe do Governo guineense para Bissau prendem-se, certamente, com o anúncio da Junta Militar de que o ex-presidente terá que permanecer no seu país a fim de ser julgado por traição à pátria. Na ocasião, Fadul fez questão de confirmar que o chefe de Estado interino será, de facto, Bacai Sanhá, e reafirmou a sua disposição de se candidatar ao cargo nas próximas eleições, caso isso lhe seja pedido pela Junta Militar. Quanto aos ministros apontados por "Nino" Vieira para o actual Governo de Unidade Nacional - Ilia Barber, (MNE e Educação), Carlos Domingos Gomes (Justiça e Trabalho), António Pinho Brandão (Agricultura, Pescas e Recursos Naturais) e Luis Fadiah (Saúde e Assuntos Sociais) - Fadul assegurou que tenciona mantê-los, embora não ponha de parte alguma eventual substituição. Sobre o facto de, segundo a Constituição, em situações como a que a Guiné-Bissau vive, terem de ser convocadas eleições gerais no prazo de 60 dias, e tendo em conta que as eleições estão marcadas para 28 de Novembro, Fadul lembrou que o acordo de paz de Abuja prevalece sobre a Magna Carta guineense. "Os protocolos adicionais do acordo de Abuja são soberanos e prevalecem, dada a especificidade da situação de transição sobre a Constituição", explicou. © 1998 Correio da Manhã. Todos os direitos reservados.
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