Jornais

Expresso

Expresso

Em: 15-MAI-1999

Um «cadáver político» que condiciona o futuro


Num sinal claro de apaziguamento, o novo poder libertou na quinta-feira 186 «aguentas», numa cerimónia pública

DERROTADO, rendido, substituído, refugiado, o deposto Presidente guineense João Bernardo «Nino» Vieira é «um cadáver político», como não se cansa de dizer o primeiro-ministro, Francisco Fadul. Apesar disso, uma semana depois do fim de uma estranha guerra de onze meses entre as tropas de Nino e os rebeldes comandados pelo brigadeiro Ansumane Mané, a figura do ex-Presidente da República continua a pairar sobre a vida da Guiné-Bissau e a condicionar o seu futuro político. Que fazer do ditador deposto? A pergunta transformou-se numa obsessão nacional desde que o então ainda Presidente se refugiou, na sexta-feira da semana passada, dia 7, na vivenda cor-de-rosa que serve de residência ao embaixador de Portugal em Bissau.

Consumada a derrota militar, e sem qualquer alternativa à vista, Nino Vieira acabou por pedir asilo às autoridades portuguesas. O pedido foi prontamente aceite, mas antes de o deixar partir os vencedores da guerra querem que seja feita justiça.

«Golpe de Estado» foi como a queda de Nino foi classificada pela ONU e pela Organização da Unidade Africana (OUA). Em Bissau, porém, ninguém de boa-fé equaciona a questão nesses termos tão simplistas. Pelo contrário: se existe alguma coisa a fazer, a opinião unânime é a condenação do regime e da actuação do ex-Presidente, que tomou o poder através de um golpe de Estado clássico, em 1980.

Essa unanimidade ficou expressa numa reunião verdadeiramente histórica que se realizou durante toda a manhã de terça-feira, no anfiteatro da Base Aérea de Bissau.

No encontro participaram o comando da Junta Militar, o Governo, a Assembleia Nacional Popular (Parlamento), os partidos políticos e vários representantes da chamada sociedade civil.

Foi uma reunião de catarse colectiva, que teria decorrido de forma exemplar, não fosse a falta de energia eléctrica e a presença de inúmeros militares empunhando metralhadoras, dois factores que entraram na rotina do país.

Na quinta-feira, num claro sinal de apaziguamento em relação à comunidade internacional, o novo poder libertou, numa cerimónia pública, quase duas centenas de «aguentas», a guarda pretoriana que Nino Vieira criou depois da revolta de 7 de Junho do ano passado.

JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, enviado à Guiné-Bissau

Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.

ÍNDICE DO JORNAL

Contactos E-mail:

Geocities:  bissau99@oocities.com

Outros endereços referentes a este tema:

Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Geocities

Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Terràvista

     Get Internet Explorer