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Expresso

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Em: 15-MAI-1999

O primeiro comício pós-Nino


Sob o olhar de Ansumane Mané, o primeiro-ministro, Francisco Fadul, abraça um dos 186 «aguentas» libertados na quinta-feira, numa cerimónia destinada a «dar um sinal» ao mundo

NA REUNIÃO histórica, aberta à comunicação social, que se realizou na manhã de terça-feira na Base Aérea de Bissau não houve uma única voz - e foram mais de trinta os intervenientes - a defender ou sequer a justificar o comportamento de Nino, que durante quase um ano teimou em fazer «gato-sapato» do país. Nem um dos seus camaradas do PAIGC, companheiros de armas, parceiros de negócios ou amigos pessoais. Da mesma forma como não se ouviu uma só voz a propor a condenação sumária ou a pena capital.

A reunião foi dirigida pelo brigadeiro Ansumane Mané, comandante supremo da Junta Militar. No final dos trabalhos, verdadeiro homem-forte da Guiné, coube-lhe tirar a conclusão. Fiel ao tom geral, rejeitou a saída de Nino do país e reclamou a sua entrega às entidades judiciais, para eventual julgamento sobre o seu envolvimento no tráfico e venda de armas ao movimento independentista de Casamança, a província sul do Senegal - o caso que, recorde-se, desencadeou o levantamento militar de 7 de Junho do ano passado.

Ansumane Mané referiu-se a um alegado compromisso, assumido pelo Governo português junto dos militares revoltosos, no sentido de colocar Nino à disposição das autoridades guineenses.

O acordo foi imediatamente desmentido por Lisboa, mas a Junta, em comunicado emitido na quarta-feira, insistiu na sua versão, o que deixou ainda mais brancos os cabelos do embaixador António Dias, acabado de chegar a Bissau.


Na sua intervenção inicial, Ansumane Mané referira-se a três outros problemas, a carecer de resolução imediata. Um deles foi a nomeação do novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas - o tenente-coronel Veríssimo Seabra, chefe operacional da Junta e que durante os onze meses do conflito não largou o camuflado com a insígnia do Batalhão de Comandos de Portugal. Foi a fusão, simbólica, da estrutura rebelde com a hierarquia convencional do comando militar. A substituição do Presidente da República foi outro problema abordado pelo líder da Junta. Com Nino a solicitar asilo político, mas sem ter renunciado ao cargo de Presidente, para o qual fora eleito em 1994, a questão era melindrosa.

A libertação dos «aguentas»

A solução encontrada foi a indigitação de um Presidente interino, na pessoa de Malan Bacai Sanhá, o presidente da Assembleia Nacional Popular. Muçulmano, de etnia beafada, pertencente ao PAIGC, o novo Presidente há muito que entrara em ruptura com o ninismo. Considerado um elemento ponderado e de equilíbrio, Malan Bacai Sanhá é das raras vozes que se têm feito ouvir a favor da saída de Nino do país - no que é acompanhado pelo primeiro-ministro, Francisco Fadul, e pelo administrador da diocese de Bissau, o padre Camenate.

Um último problema suscitado por Ansumane Mané foi o destino a dar aos famosos «Aguentas» - o nome pelo qual ficou conhecida a guarda presidencial, formada por cerca de seis centenas de jovens de etnia papel e bijagó e que receberam um treino militar acelerado na Guiné-Conacri.

Alguns deles morreram durante os combates do fim da semana passada, mas a maioria foi presa ou entregou-se nos dias imediatos. A decisão unânime, que dispensou qualquer discussão, foi a sua libertação.

O primeiro grupo (de 186) foi entregue à Liga Guineense dos Direitos Humanos, numa cerimónia realizada na manhã de quinta-feira e que constituiu o primeiro comício político da era pós-Nino.


O comício decorreu de forma absolutamente caótica, o que terá sido um espelho fiel da situação em que se encontra o país. O seu objectivo foi o de dar um sinal ao mundo - através das representações diplomáticas, órgãos de comunicação social e organizações não governamentais - de que o país caminha «para a paz, tranquilidade, estabilidade e justiça», palavras utilizadas até à exaustão por Ansumane Mané. Para demonstrar que a Junta não quer o poder, o brigadeiro entregou simbolicamente dois jovens «aguentas» - transidos de susto e espanto - ao primeiro-ministro, para que fosse o Governo a devolvê-los à liberdade, sob a custódia insuspeita da Liga, liderada pelo jurista Fernando Gomes.

O comandante togolês das forças da ECOMOG, coronel Berena, apreciou o gesto dos novos senhores da Guiné e fez um apelo ao «regresso à calma e ao trabalho». O coronel Berena pôs o dedo na ferida. O país está praticamente paralisado. As suas infra-estruturas estão destruídas. A confiança é diminuta. Numa intervenção extremamente lúcida, mas muito mal acolhida pela maioria dos presentes na assembleia da Base Aérea, Joaquim Baldé alertou contra o risco de se entrar «numa discussão político-filosófica interminável» sobre o destino a dar ao ex-chefe de Estado.

No palácio presidencial, as cinzas ainda fumegam e o ar cheira a pólvora. Mudo e humilhado, João Bernardo Vieira passa os dias no quarto de hóspedes da residência do embaixador de Portugal. Mas o ex-Presidente continua a polarizar a vida da Guiné. Desnecessariamente…

JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, enviado à Guiné-Bissau

O desalento de Horácia

HORÁCIA, uma mulher jovem e robusta do bairro da Ajuda, é a imagem do desalento. Com a decepção estampada no rosto, conta às vizinhas as razões que a levaram a trazer de volta o pequeno-almoço que preparara para o marido. Este, Marcolino A., oficial das tropas fiéis ao chefe de Estado deposto, encontra-se detido na base aérea de Bissalanca, juntamente com centenas de outros militares.

Na impossibilidade de entregar pessoalmente «o mata-bicho» ao marido, não quis confiá-lo às sentinelas, com receio de que estes pudessem usá-lo para fazer mal ao prisioneiro. Depois de ter tentado, em vão, entrar na prisão, regressa a casa já depois da uma da tarde, para preparar o almoço e ir buscar de novo alguém de confiança que faça chegar a comida ao marido. O problema de Horácia aflige actualmente milhares de mulheres guineenses, depois dos violentos confrontos de quinta e sexta-feiras da semana passada, que conduziram à derrocada do regime de Nino Vieira.

Além dos prisioneiros, o assalto final à capital enlutou dezenas de famílias, ensombrando o alívio e o júbilo com que a população acolheu o fim das hostilidades em Bissau. Por outro lado, inúmeros malfeitores aproveitaram os combates para assaltar propriedades privadas e públicas e roubar bens, instalando nos últimos dias um clima de insegurança e descontrolo. Preocupadas em detectar e neutralizar os partidários do ex-Presidente, as novas autoridades tiveram sérias dificuldades para estabilizar gradualmente a situação. Não obstante haver menos homens armados nas ruas, os guineenses ainda têm medo de ladrões, de detenções arbitrárias e de ajustes de contas isolados, que foram assinalados no fim da última semana em alguns locais de periferia.

E ainda hoje se ouvem disparos esporádicos de armas ligeiras, sobretudo à noite. Por precaução, alguns estabelecimentos comerciais fecharam as portas, assim como o Banco Central, dando a sensação de que o processo de normalização da vida socioeconómica na Guiné-Bissau voltou novamente à estaca zero.

NANDO COIATÉ, correspondente em Bissau

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Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Geocities

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