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Expresso

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Em: 15-MAI-1999

O filme da batalha final


O Centro Cultural francês, onde Nino Vieira chegou a tentar refugiar-se, foi bombardeado, atacado, e pilhado por uma multidão em fúria

1 - O ataque ao Centro Cultural francês

O CENTRO Cultural francês foi um dos dois alvos principais (o outro foi o palácio presidencial) gratuitamente bombardeados, destruídos, incendiados e pilhados durante o assalto final ao poder de Nino Vieira. O palácio, símbolo deste poder, foi atingido, já depois da rendição do Presidente, por disparos de tanques e de artilharia pesada.

No Centro Cultural francês funcionava desde o início do conflito (em 7 de Junho do ano passado) a Embaixada da França.

Na manhã de sexta-feira, 7, com o centro da capital a ferro e fogo, Nino Vieira terá procurado refúgio no Centro, situado a algumas centenas de metros do palácio presidencial. Um funcionário diplomático terá comunicado ao Presidente que não havia condições de segurança, pelo que Nino se retirou. Mas logo correu, célere, o rumor de que Nino se abrigara no Centro - imediatamente cercado por uma numerosa multidão e por forças da Junta.

No Centro estavam refugiados 24 franceses (incluindo uma dezena de comandos) e o cônsul honorário da Itália. Na ausência do embaixador, François Chapellet - que estava em Dacar e que deveria chegar a Bissau nesse mesmo dia -, o funcionário diplomático mais credenciado era o cônsul, Gaston Grelaud.

Não demorou muito para que o Centro começasse a ser alvejado. «Foram tiros orientados, sem qualquer dúvida», acusou o cônsul, que o EXPRESSO encontrou no dia seguinte, no aeroporto de Bissalanca, à espera do Hercules 130 da Força Aérea Portuguesa que retirou da Guiné cerca de meia centena de pessoas. A seu lado, um funcionário da segurança do Centro Cultural especificou que foram disparados inúmeros projécteis de RPG7 (uma poderosa arma anticarro) a uma distância de cerca de dez metros. O cônsul, acreditado em Bissau desde Agosto de 1996, disse que o ataque «foi feito sem qualquer explicação». E recusou liminarmente a hipótese de terem sido grupos de marginais armados: «Não! Foi gente da Junta Militar, sem contestação possível».

As explosões e os disparos provocaram um incêndio que rapidamente se estendeu a todo o edifício. Salvou-se apenas a estrutura do anfiteatro, cujo recheio, contudo, não escapou à pilhagem que se seguiu. Os militares (fortemente armados e de colete antibala), os funcionários diplomáticos e os demais civis abandonaram o edifício de braços no ar e com bandeiras brancas, aterrorizados.

«Cheguei a admitir o pior!», confessou o cônsul, um diplomata com larga experiência de situações de conflito, como na Líbia, Israel e Chade. «Quando saímos, cheguei a pensar que iríamos ser todos fuzilados», adiantou Gaston Grelaud, que elogiou a intervenção de dois oficiais entretanto enviados pelo Comando da Junta: o coronel Buota Nabatcha e o major Melcíades Fernandes. O cônsul honorário de Itália, Gian-Paolo Pisano, que também se abrigara no Centro, não esquecerá jamais a forma como a multidão os cercou e acolheu. «Tinham os olhos inchados, não sei se de raiva, se de alegria por terem conquistado o Centro», comentou.

2 - O refúgio na Embaixada de Portugal


Mamadou Niang, embaixador do Senegal (à direita), chegado de Dacar na véspera, também retirado no Hércules português, agradeceu a «hospitalidade» na embaixada portuguesa e também prometeu regressar, «o mais rapidamente possível»

SERIAM umas 13.15 horas quando os franceses foram escoltados para a Embaixada de Portugal, tendo ficado instalados no Centro Cultural. A este grupo juntar-se-ia, pouco depois, um grupo de 14 senegaleses, incluindo o embaixador. Os nacionais do Senegal pediram protecção às autoridades portugueses depois de também a sua embaixada ter sido atacada. General na reforma, o embaixador, Mamadou Niang, chegara de Dacar na véspera. Lamentando embora o sucedido, o diplomata preferiu «agradecer calorosamente à Embaixada de Portugal a hospitalidade. Não nos faltou nada: segurança, dormida, alimentação, água». Explicou que a sua retirada para a embaixada lusa se efectuou «depois de o assunto ter sido regulado entre os dois Governos». E prometeu voltar a Bissau, «o mais rapidamente possível».

3 - A saída da Guiné no Hércules português

AO PRINCÍPIO da tarde de sábado e depois de uma noite dormida no chão da sala de leitura do Centro Cultural português, os cerca de 40 cidadãos franceses e senegaleses deixaram a embaixada, rumo ao aeroporto de Bissalanca. Quase todos se apresentaram sem qualquer bagagem. Dos poucos que levaram uma pequena trouxa, alguns ainda foram vistoriados por militares da Junta. Foi o caso do cônsul de Itália, a quem foi retirado o telefone satélite.


Antes de entrar no Hércules da Força Aérea Portuguesa, o cônsul francês na Guiné, Gaston Grelaud (à esquerda), prometeu «voltar», por ser «o melhor para toda a gente». Em segundo plano, vários soldados franceses também retirados

Com o seu inseparável boné azul escuro, fato de banho e chinelos, e apesar de um forte ataque de paludismo, Melcíades esteve no aeroporto para se despedir dos militares franceses, a quem, mais uma vez, apresentou desculpas. Melcíades, que foi o primeiro porta-voz da Junta, reconheceu que «a multidão estava furiosa» e que teve «bastantes dificuldades em impor a ordem». O cônsul e os militares franceses agradeceram.

Abordado pelo EXPRESSO, o comandante da força militar gaulesa confirmou que temera «uma verdadeira catástrofe». «Havia um sentimento de cólera muito grande contra os franceses», explicou. Contra os franceses ou contra os militares? «Contra os franceses - e graças à imprensa portuguesa», respondeu, para logo virar as costas e retirar-se.

Desconsolado, o cônsul italiano, que vive em Bissau desde 1982, ainda não sabia se voltará. «Vou ter que descansar um tempo. E pensar. Estava a preparar uma visita do primeiro-ministro Fadul a Itália, mas agora já não sei…»

Quanto ao seu colega francês - que já fizera um relatório verbal para Dacar e Paris -, também era incapaz de prever o seu futuro. Condenando embora os acontecimentos - tal como o Governo de Paris -, não encarava a hipótese de um corte de relações diplomáticas da França com a Guiné. «Vamos voltar», assegurou Gaston Grelaud. «Quando, não sei, mas dentro de semanas ou poucos meses. É o melhor para toda a gente».

J.P.C.

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