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Em: 16-MAI-1999 A tristeza da destruição insensata até à ruína O partido do Poder (PAIGC) continua a dominar completamente os acontecimentos Luís Naves ![]() SOBREVIVÊNCIA. É difícil combater a tristeza quando o ambiente é de extrema desolação, de ruína O Palácio Colinas do Boé é um triste espectáculo de destruição insensata. O que devia ser o novo edifício da Assembleia Nacional Popular é, de facto, uma ruína. Os deputados discursam num espaço sem janelas laterais, como se aquilo fosse um tosco de construção inacabada. O tecto está esventrado, a estrutura metálica à mostra, porque a cobertura intermédia tem as suas placas suspensas no ar, oscilando à brisa que penetra dos lados. Depois, mais acima, as chapas onduladas do tecto superior estão abertas, com grandes fissuras que deixam entrar a luz. Visto do exterior, o palácio não possui uma única janela intacta e as paredes foram esculpidas ao acaso pelas rajadas de tiro pesado. As discussões decorrem na sala ampla, com a bandeira ao fundo, a mesa à frente, os grupos parlamentares misturados. O partido do poder (PAIGC) continua a dominar completamente os acontecimentos na Assembleia Popular. Trata-se do maior grupo e tem maioria absoluta esmagadora. Numa concessão de Nino Vieira ao exterior, a oposição conseguiu eleger alguns deputados, mas mesmo estes estão muito divididos em pequenas formações partidárias rivais entre si. O que sairá das próximas legislativas é uma perfeita incógnita. Kumba Ialá é um dos políticos da oposição mais conhecidos na Guiné. Ele foi o candidato presidencial derrotado em 1994, numa eleição que toda a gente diz ter sido fraudulenta. Depois, a pedido de vários países (entre os quais Portugal) fez o sacrifício de não contestar a eleição de Nino Vieira. Kumba Ialá foi combatente da liberdade, é cristão e estudou teologia em Portugal, onde viveu 11 anos. Também estudou direito e filosofia. Na sessão da eleição do novo presidente da Assembleia, um deputado ouve a rádio, totalmente alheio ao orador. Os homens que apoiaram Nino Vieira estão aqui em grande número e usam muitas vezes a palavra democracia. Desta vez, votaram em bloco num homem do partido, evitando eleger um oposicionista. Até Novembro, o Parlamento terá escassa ou nenhuma influência. Depois, tudo pode acontecer. Ou o sistema continua ou esta bizarra assembleia de paredes abertas vai cumprir o sonho improvável de um verdadeiro multipartidarismo. "Portugal pediu para que eu sofresse e deixasse Nino vencer", recorda Kumbai Ialá, de 46 anos, referindo-se às eleições de 94. "Mais tarde, perdemos a esperança de ser uma democracia autêntica, porque o Presidente recusou aceitar o diálogo." "Sem o levantamento militar, jamais teríamos democracia na Guiné", diz o líder do Partido da Renovação Social, de tendência socialista. Esta formação responsabiliza pelos erros do anterior regime as altas figuras do PAIGC, entre eles o actual Presidente da República interino, Malam Bacai Sanhá, que foi empossado na sexta-feira: "Ele era a segunda figura do regime e nunca levantou um dedo, poderia ter renunciado ao cargo de presidente da Assembleia". Para Kumbai Ialá, a oposição guineense continua sem abertura, sem poder para influenciar. Mesmo assim, considera o dirigente oposicionista, há boas perspectivas de democracia para depois de Novembro. Kumbai Ialá pretende ser candidato presidencial. "O PAIGC não tem chances de ganhar nas próximas eleições", afirma. "Nós pensamos que neste momento somos potenciais vencedores das eleições de Novembro. Porque fomos os únicos que não baixaram os braços." Sobre a Junta, Kumbai Ialá está convencido de que não haverá militares a candidatarem-se a cargos políticos, tal como foi prometido desde o início do movimento. Em relação a Nino Vieira, Kumba Ialá começou por apoiar a ideia do julgamento. Neste momento, admite alguma flexibilidade, mas lembra que "não se pode libertar Nino imediatamente e depois julgar os subordinados, porque isso não era justo. Mas pode vir a acontecer, por força maior". Jornal Diário de Notícias: E-mail: dnot@mail.telepac.pt
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