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![]() Em: 22-MAI-1999 Um PM que dorme no chão A SEMANA passada, e pela primeira vez em quase um ano, o primeiro-ministro guineense, Francisco Fadul, foi jantar a um restaurante em Bissau. Foi no dia 13, a convite do EXPRESSO e da Lusa, que o levaram ao restaurante O Bacalhau. Propriedade de um português, comeu com gosto e sobriedade: camarões grelhados, bacalhau cozido com batatas e, à falta de melhor, um Borba tinto. Principal assessor civil da Junta, Fadul foi o autor de todos os documentos apresentados pelos militares que se revoltaram contra Nino Vieira. Imposto por Ansumane Mané para primeiro-ministro do Governo de Unidade Nacional, foi indigitado a 3 de Dezembro. Durante quase toda a guerra, viveu num quarto disponibilizado por um empresário português, conhecido por «coronel Vidigueira», junto à linha da frente. Numa das inúmeras violações do cessar-fogo, quando a urbanização foi bombardeada pela artilharia «ninista», Fadul mudou de poiso. Instalou-se na central eléctrica que fornece o aeroporto de Bissalanca, um local mais afastado, teoricamente mais seguro. Mas nem aí esteve a salvo dos morteiros. Em finais de Janeiro, um obus caiu a uma dezena de metros da sua «residência», matou duas pessoas e cravejou de estilhaços a viatura que lhe estava entregue. Com o início da guerra, a 7 de Junho, deixou de ter trabalho e remuneração no escritório do primo, o advogado Amin Saad (líder do partido União para a Mudança). Com os bancos encerrados, sem poder recorrer à poupança, valeu-lhe o apoio financeiro dispensado pela ADPP, uma organização não governamental escandinava com uma forte presença na Guiné. A posse foi a 20 de Fevereiro. «Nesse mesmo dia, disse à ADPP que não podia aceitar mais nada», conta Fadul. Só que, até agora - e já vai com três meses à frente do Governo - ainda não recebeu um único vencimento. «Nem um centavo!» Com a agravante de ser ele quem tem de alimentar a escolta, o que numa conjuntura de guerra é absolutamente indispensável. Na circunstância, têm-lhe valido os magros proventos de um modesto bar de que é proprietário em Bissorã, uma cidade a norte de Bissau, onde vive desde que deixou de trabalhar no Palácio e entrou em ruptura com Nino. O único «luxo» O único «luxo» a que tem direito na central eléctrica é isso mesmo: electricidade, um bem raro no resto do país. O quarto onde vive com a esposa é um autêntico acampamento. A cama é um colchão emprestado, estendido sobre o chão de cimento. À falta de ar condicionado, tem direito a uma pequena ventoinha. Em lugar de guarda-fato, tem um tosco bengaleiro de madeira, improvisado por um dos seus colaboradores. É lá que está pendurada a roupa, incluindo os três fatos novos oferecidos por um cunhado na recente estada em Portugal. O escritório foi recentemente separado do quarto de dormir por um tabique de madeira. Em cima das mesas, estão três computadores, dos quais só um funciona - «um deles, começou a deitar fumo e nunca mais trabalhou». Um pequeno frigorífico é só para decoração, porque não refrigera. JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, enviado a Bissau Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.
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