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![]() Em: 22-MAI-1999 Portugal à espera de Nino Vieira ![]() TUDO indica que Nino Vieira venha a ficar uma larga temporada na embaixada de Portugal em Bissau. As autoridades guineenses são irredutíveis na sua decisão de levar o ex-Presidente a tribunal, por alegado envolvimento no tráfico de armas. Em contrapartida, o Governo de Lisboa, que concedeu asilo a Nino, parece inabalável na sua recusa em abrir os portões da embaixada e entregá-lo. O contencioso em torno do presidente deposto pode arrastar-se por meses e corre o risco de envenenar as excelentes relações entre as novas autoridades da Guiné e Portugal. O futuro imediato de Nino foi traçado na quinta-feira, numa reunião que juntou o comandante-supremo da Junta Militar, brigadeiro Ansumane Mané, os presidentes da República interino e da Assembleia Nacional Popular, o primeiro-ministro e os líderes de todos os partidos políticos. Rejeitando as pressões internacionais - que ameaçam suspender as ajudas de carácter económico -, foi confirmada a decisão, já tomada na semana passada, de avançar com o processo judicial. O consenso foi quase geral, confirmando-se o isolamento do primeiro-ministro, Francisco Fadul, defensor da saída de Nino do país, como forma de desbloquear o prometido auxílio internacional e impedir o que, em declarações ao «Diário de Notícias», denominou «caça às bruxas». Nos meios diplomáticos, admite-se que esta decisão venha comprometer a solução que estava a ser gizada e que passava por uma declaração de renúncia de Nino Vieira ao cargo de Presidente da República. A declaração em causa poderia anteceder ou, na pior das hipóteses, ser simultânea à sua saída do país. Por outro lado, é muito provável que a retenção forçada de Nino tenha efeitos negativos no relacionamento internacional com Bissau. Com efeito, a forma como a Junta Militar derrubou o regime de Nino Vieira suscitou um coro de condenações por parte da comunidade internacional, que a encarou como um clássico golpe de Estado contra um presidente eleito. Foi nesse sentido que se pronunciou, logo no dia 11, o porta-voz do secretário-geral da ONU A posição da UE O documento limita-se a advertir que «seguirá com atenção os desenvolvimentos na Guiné-Bissau (...) e que retirará as suas próprias conclusões». Ignora-se, entretanto, qual será a reacção da comunidade internacional à decisão de não deixar Nino sair para o asilo. Uma delegação da Junta Militar, que esta semana esteve em Lisboa, procurou desvalorizar o problema, remetendo sempre a decisão para as instituições políticas. A delegação, chefiada pelo comandante operacional - o tenente-coronel Veríssimo Seabra, futuro chefe de Estado- -Maior General das Forças Armadas -, foi recebida pelos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros e fez questão de visitar Mário Soares. Desde o dia 7 de Maio que Nino está na residência do embaixador de Portugal em Bissau, António Dias. Num primeiro momento, limitou-se a pedir (por escrito) a protecção das autoridades portuguesas, para si, para a mulher Isabel e para cinco acompanhantes. Mais tarde, viria a formalizar o pedido de asilo político, prontamente aceite pelo Governo de Lisboa. O julgamento de Nino visa apurar as suas responsabilidades no caso de tráfico e venda de armas para o movimento independentista de Casamança, a província do extremo Sul do Senegal e que faz fronteira com a Guiné-Bissau. Foi este caso, recorde-se, que esteve na génese do levantamento militar de 7 de Junho, liderado pelo brigadeiro Ansumane Mané. Posteriormente, a Assembleia Nacional Popular viria a aprovar, por esmagadora maioria, um relatório em que Nino surge indiciado no escândalo da venda de armas. JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA Valentim Loureiro: Cônsul honorário e diplomata amador ![]() EM 1972, Valentim Loureiro chefiou uma digressão da equipa do Boavista à Guiné. No regresso, trouxe um jovem guineense que ajudou a criar e um jogador para o seu clube: Rufino, hoje embaixador daquele país nos EUA. Três anos volvidos, já depois da independência, Nino Vieira, conhecedor daqueles factos, passou por Portugal e quis conhecer o major. Nasceu, então, uma amizade que se foi fortalecendo ao longo dos anos. Valentim Loureiro acompanhou de perto e de forma discreta alguns filhos do Presidente deposto que estudaram no Colégio dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia. Esse apoio não é quantificado pelo major, que não revela se ajudou monetariamente na formação académica dos descendentes de Nino - que, entretanto, já não se encontram em Portugal. Terá sido esse o mais evidente gesto de solidariedade directa para com o ex-responsável máximo da Guiné-Bissau. Valentim foi nomeado cônsul honorário do jovem país africano na cidade do Porto e esse cargo deu-lhe notoriedade como interlocutor junto das autoridades guineenses. Esse relacionamento próximo com Nino Vieira valeu a Valentim Loureiro ter resolvido, com intervenções pessoais, graves crises, como a ocorrida entre Bissau e Lisboa, após o deposto primeiro-ministro Vítor Saúde Maria se ter refugiado na embaixada portuguesa. Quando eclodiu a guerra civil entre a Junta Militar e o Presidente Nino, o major anteviu o pior para o seu amigo mas nada fez, uma vez que nenhuma das partes em conflito solicitou a sua intervenção. J.M. Manuel Macedo: O segundo pai de Amílcar Vieira ![]() APENAS com 11 anos de idade, Amílcar Vieira, hoje com 26, foi estudar para a ex-URSS, onde tirou o curso de Economia. Filho de Nino Vieira, sabe falar russo, mas nada sabia de português. Em 1997, veio para o Porto, onde estuda Língua Portuguesa. Durante estes dois anos, a sua estada e estudos têm sido custeados por Manuel Macedo, homem hoje mais conhecido por ter lançado a Associação de Amizade Portugal-Indonésia do que lembrado pelas sua participação nas actividades da direita a seguir ao 25 de Abril Para Valentim Loureiro - seu inimigo declarado -, Macedo mais não fez do que intrometer-se, o mesmo é dizer do que insinuar-se junto de Nino Vieira. Macedo lembra que o ex-dirigente guineense sempre quis que os seus filhos soubessem português, sendo essa a razão por que tem em sua casa Amílcar. Lembra, igualmente, que o seu gesto é tido como natural em África. A figura do «segundo pai» - no sentido de alguém que patrocine os estudos de um jovem, por exemplo - é bem aceite. Nino Vieira teria tido sob sua custódia um sobrinho de Seku-Touré. A amizade entre Macedo e Vieira é muito mais recente do que a mantida por Valentim Loureiro com o ex-Presidente. Macedo diz resumir-se a este «patrocínio» o seu apoio a Nino. O futuro do jovem Amílcar, depois dos acontecimentos em Bissau, não deve passar, pelo menos no imediato, pela capital da Guiné. J.M. Laurindo Costa: O empreiteiro do Porto que lhe deu um tecto ![]() LAURINDO Costa, o patrão da empresa de construção Soares da Costa, é apontado como um dos melhores amigos de Nino Vieira em Portugal. O primeiro e mais significativo episódio desta amizade consistiu na transacção do único activo que o ex-Presidente da Guiné-Bissau declara possuir no estrangeiro: uma vivenda junto ao Jardim Soares do Reis, em Vila Nova de Gaia. Em entrevista ao EXPRESSO, Nino afirmou que Laurindo lhe ofereceu a casa. António Vasconcelos, porta-voz da construtora, nega esta versão e é peremptório em garantir que foi vendida quando o presidente da Soares da Costa deixou de lá viver e mudou para a quinta onde ainda reside. Aquando desta transacção ou oferta imobiliária, não era conhecida uma amizade especial entre Laurindo Costa (hoje cônsul da Guiné em Braga) e Nino Vieira, nem a atitude daquele foi entendida como pagamento de qualquer favor. Antes se diz que o empresário português procurou posicionar-se, e, na realidade, teve oportunidade de vir a fazer obras na Guiné-Bissau. Mas a verdade é que os rendimentos do investimento não poderão ter sido muito grandes, dada a estreiteza do mercado de construção civil e obras públicas daquele país, um dos mais pobres dos PALOP e muitíssimo menos atraente do que os de Angola Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.
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