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![]() Em: 22-MAI-1999 VALENTIM LOUREIRO, cônsul honorário da Guiné-Bissau «Sampaio pediu-me para intervir» TIDO como um dos políticos portugueses que melhor relacionamento tem com Nino Vieira, Valentim Loureiro vem mantendo um posicionamento discreto em relação à actual crise na Guiné-Bissau. Mas revela que foi sondado há um ano por Jorge Sampaio sobre a possibilidade de ajudar a resolver um conflito que agora culminou com a deposição do ex-Presidente. «O Governo não quis», acrescenta o major. EXPRESSO - Em algum momento da crise na Guiné-Bissau foi sondado no sentido de ser parte negociadora? VALENTIM LOUREIRO - Em conflitos como este só entidades diplomáticas têm autoridade para, formalmente, intervir. Como é sabido, sou um simples cônsul honorário no Porto, embora pense ser mesmo o decano dos cônsules da Guiné em todo o mundo, já que sempre tive uma boa relação pessoal e institucional com o Presidente. No tempo das presidências do general Eanes e do dr. Mário Soares participei, de facto, do ponto de vista particular e pessoal, na resolução de alguns problemas. EXP. - Um deles também envolveu a Embaixada portuguesa... V.L. - Sim, foram os casos da saída de Luís Cabral para Portugal e do primeiro-ministro Vítor Saúde Maria, que também se havia refugiado na Embaixada de Portugal. São situações públicas e bem conhecidas. A minha intervenção só foi possível porque, sendo amigo das pessoas em litígio, os meus eventuais conselhos eram ouvidos sem desconfiança. EXP. - Desta vez ninguém se socorreu dos seus préstimos? V.L. - Nunca disse a ninguém o que vou agora revelar. Fui, de facto, sondado por parte do dr. Jorge Sampaio o ano passado, no Dia das Forças Armadas, na Maia, para me deslocar a Bissau numa missão de pacificação e de ajuda à solução do conflito. Disponibilizei-me, mesmo correndo alguns riscos, mas a verdade é que houve alguém do Governo que não achou aconselhável a minha deslocação. E, pelo telefone, nunca pude dizer ao Presidente Nino aquilo que então disse ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Delfim da Silva, e ao então embaixador em Portugal, José Baptista. EXP. - O que não pôde dizer pelo telefone a Nino Vieira? V.L. - Que fizesse uma declaração pública no sentido de que, tendo sido democraticamente eleito para um mandato de cinco anos, entendia ter o direito de o terminar, declarando ao mesmo tempo que não se recandidataria. Infelizmente, não lhe pude dar esse conselho e devo dizer que ele foi muito mal aconselhado neste processo. Penso mesmo que tenha sido alvo de algumas traições. EXP. - Nino Vieira deve vir para Portugal? V.L. - O Presidente Nino pediu asilo político a Portugal, face a acontecimentos que terão ferido o acordo de Abidjan. O primeiro-ministro já tornou pública a posição de lhe conceder esse asilo. Penso que essa foi a atitude mais correcta do Governo português relativamente a Nino Vieira e da qual não vai, de certeza, recuar. Com isso, estou de acordo. EXP. - E, nesse caso, é preferível que se radique no Porto? V.L. - Se vem para o Porto, para Lisboa, para o Algarve, Funchal ou Trás-os-Montes é uma questão que, neste momento, não quero abordar. EXP. - Que amigos fiéis tem Nino Vieira em Portugal? V.L. - Penso que Nino Vieira, enquanto foi Presidente, sempre teve muitos amigos: Rodrigo Leite, Laurindo Costa, Fernando Barata, etc., etc. Agora que caiu em desgraça, não sei quantos vão dar a cara por ele. Claro que comigo - eu sou assim -, ele pode contar. É que nas horas más ainda sou mais amigo do meu amigo. EXP. - A Guiné-Bissau fica melhor e mais calma com o exílio do ex-Presidente? V. L. - Julgo que a continuação de Nino Vieira em Bissau é um foco de instabilidade. Sou da opinião que a Guiné-Bissau precisa de paz para trabalhar, para se desenvolver e estabilizar a democracia. JORGE MASSADA Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.
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