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![]() Em: 22-MAI-1999 A última batalha O assalto fulminante à capital pôs termo a onze meses de conflito armado na Guiné-Bissau. Em menos de 18 horas, as forças da Junta Militar, de Ansumane Mané, conquistaram o palácio e obrigaram o Presidente Nino a pedir asilo à embaixada de Portugal. A vitória era aguardada, mas o último combate teve consequências desastrosas ![]() O «FALCON» da Força Aérea Portuguesa, que transporta o primeiro-ministro da Guiné no seu apressado regresso a Bissau, faz-se à pista do aeroporto de Bissalanca. No exacto momento em que o aparelho toca suavemente o solo, alguém da comitiva propõe um brinde: «Viva a Guiné-Bissau livre de Nino!». No pequeno avião, o chefe do Governo, Francisco Fadul, o líder do Movimento Bafatá, Domingos Fernandes e os demais passageiros unem-se num «Viva!» onde perpassa um sentimento de alívio e de alegria genuínos. Na véspera, 7 de Maio, findara uma guerra de onze meses, com a vitória mais que anunciada da Junta Militar, comandada por Ansumane Mané, o brigadeiro mandinga nascido na Gâmbia, que durante 37 anos fora uma espécie de braço-direito de Nino Vieira. A última batalha, a de Bissau, tantas vezes adiada, demorou 18 horas. Desta vez, e ao contrário do que acontecera em batalhas anteriores, não houve conversas, nem negociações, nem intermediações, nem cessar-fogos. Com a vitória à vista, farto das artimanhas do inimigo e desiludido com os resultados da pressão internacional, o comando da Junta decidiu ignorar os inevitáveis apelos ao diálogo. Alguém superiormente autorizado deu ordens ao tenente Sayegh para abandonar a base aérea onde os militares revoltosos instalaram o quartel-general. Sem o telefone-satélite de Sayegh (oferecido pelo Governo português no início da guerra), a Junta ficou incomunicável. Muitos foram certamente os que tentaram contactar com a Junta: o ministro Jaime Gama, os seus homólogos da França e Senegal, dirigentes do Togo, Gâmbia, Níger e Benin - os países que integram as forças da ECOMOG estacionadas em Bissau. O próprio Presidente Nino tentou, como de costume, chegar à fala com o chefe inimigo. E de Paris, foi com desespero que o primeiro-ministro Fadul tudo fez - incluindo um apelo difundido pela RDP-África - para falar com Ansumane. Debalde. O homem do telefone ausentara-se com a «máquina faladora». Acatando as ordens que recebera, só regressou à base na manhã de dia 7. Tarde demais: as tropas da Junta já haviam penetrado no centro de Bissau, o palácio presidencial estava à beira de ser tomado, a batalha final estava ganha. Baciro Dabó era um dos mais temidos responsáveis dos serviços secretos e dos mais expostos, devido às suas intervenções na rádio![]() O assalto a Bissau foi rápido e sangrento. Calcula-se que o número de mortos dos dias 6 e 7 tenha andado à volta da centena - dos quais metade foram civis, atingidos por morteiros que caíram num centro de formação profissional da Igreja, fora do perímetro urbano. A Junta, a crer nas informações do seu porta-voz, comandante Zamora Induta, teve uma única baixa. Os restantes militares mortos pertenciam às fileiras do regime, sobretudo à guarda presidencial, os chamados «Anguentas», jovens recrutados à pressa entre as etnias papel e bijagó e que receberam um treino intensivo nos países vizinhos. Feridos foram várias centenas. No rescaldo dos combates, o ministro da Saúde queixava-se de ter no Hospital Simão Mendes um total de 272 feridos (desconhece-se quantos provocados pela refrega) e pouco mais que um saco de arroz... O número oficioso de mortos, durante os onze meses de guerra, é de mais de dois mil guineenses - desconhecendo-se quantas baixas tiveram as tropas do Senegal e da Guiné-Conacri, vindas em socorro de Nino Vieira. Consumada a vitória militar - consubstanciada na rendição do CEMGFA, brigadeiro Humberto Gomes, e no refúgio de Nino na embaixada de Portugal -, os dois dias seguintes foram de autêntica anarquia. «Não é para admirar: foi uma explosão, ao fim de 18 anos!» A explicação - mais que uma justificação - é de Nuno Grilo. O jornalista e relator de futebol, que deu a voz à Rádio da Junta Militar, continua a usar o mesmo boné de soldado, mas mudou o «pin» que ostenta junto à pala: já não é o da SIC, mas o do «Canal Plus». «Este povo estava cheio desse homem». O palácio presidencial - o mesmo onde, na época colonial, se acolhia o governador nomeado por Lisboa - foi destroçado e pilhado. A destruição, foi tudo menos um acto de heroísmo. Consumada já após a rendição, assemelhou-se a uma bacanal de violência, onde nem faltou um tanque de fabrico soviético a disparar a menos de uma centena de metros, depois de ter manobrado calmamente no centro da praça. Ao lado, a sede do PAIGC foi saqueada e esventrada. «Destruíram o arquivo. Eram 40 anos da História da Guiné», lamenta, e com toda a razão, o ex-primeiro-ministro Manuel Saturnino, que emerge como um dos principais dirigentes do partido. Mais grave ainda, pelas suas consequências no plano externo, foi a destruição do Centro Cultural Francês. Foi o inaceitável extravasar de um sentimento antifrancófono por parte de militares e de muitos populares, que se manifestou através da destruição de outros imóveis e da humilhação de vários cidadãos franceses. ![]() Baciro Dabó, de mãos atadas atrás das costas, a sua prisão é um símbolo da queda de um regime de 18 anos O exemplo estava dado. E como não tivesse havido reacção pronta por parte da Junta, o banditismo tomou conta de Bissau durante dois dias. O saque atingiu vários estabelecimentos comerciais e casas particulares, pertencentes a militares e civis suspeitos de «ninistas». As instalações diplomáticas foram especialmente visadas. A Delegação da União Europeia - uma das poucas que ainda estava intacta - foi visitada por uma turba que tudo levou: mobiliário, computadores, material de escritório, lâmpadas. Até as janelas e portas foram tiradas dos gonzos. Só deixaram o robusto e pesado cofre, derrubado e violado com uma picareta, impotente perante tanto aço... O vandalismo nem poupou o gabinete do primeiro-ministro, que só cinco dias depois começou a ver o escritório lentamente reconstituído. As primeiras peças repostas foram dois velhos sofás de napa, encontrados no mercado do Bandim, à venda... Um bem especialmente ambicionado e disputado pelos militares vitoriosos foram os automóveis, especialmente os «jeep», sobretudo se novos e com ar condicionado. As viaturas da União Europeia foram requisitadas - uma figura muito usada por ambos os contendores durante a guerra. O «jeep» do ex-ministro da Defesa, Samba Lamine Mané, passou para as mãos de um qualquer oficial. O mesmo aconteceu com o carro do conceituado cineasta Flora Gomes. Até o carro da agência Lusa foi requisitado, já a guerra tinha acabado há quase um dia, com a alegação de que era para ir buscar munições. Foi devolvido no dia seguinte, após insistentes e vigorosos protestos. Enquanto os populares se entregavam ao saque, os militares empreendiam uma verdadeira - e inevitável - caça ao homem. Temendo o pior, as figuras gradas do regime optaram por se entregar. Nino foi o único que conseguiu refúgio numa embaixada. João Monteiro e Afonso Té - os dois colaboradores de Nino mais temidos - pediram protecção à ECOMOG, a força militar multinacional que era suposto assegurar o cumprimento dos acordos de Abuja mas que se revelou completamente inoperante. Odiado e tenebroso, João Monteiro era o director-geral da Segurança do Estado. Chegou a constar que se tinha suicidado; nada mais falso. Pelo contrário: antes de se entregar, ainda teve tempo para fazer das suas. Nos «mentideros» de Bissau - férteis em boatos e rumores - diz-se que baleou pessoalmente cinco dos seus homens, em quem não tinha confiança. O seu sucessor, Antero Correia (um tenente-coronel formado em Direito na Checoslováquia), não confirma os cinco. «Mas sei que matou pelo menos o Amílcar Baticã e o Boaventura. Foi ao gabinete deles e disparou, sem mais quê. E andou à procura de outros». João Monteiro e Afonso Té (o vice-CEMGFA) refugiaram-se na Igreja Evangélica. O respectivo pastor telefonou a Fernando Gomes, o líder da Liga Guineense dos Direitos Humanos. «Fui lá buscá-los, no meu 'jeep', escoltado pelo ministro da Defesa, Francisco Benante, e pelo comandante da ECOMOG, o coronel Berena. O João Monteiro parecia uma criança assustada». Transportados para o Hotel 24 de Setembro, transformado em quartel-general da ECOMOG, foram mais tarde entregues à Junta e detidos na Base Aérea. «O João Monteiro ainda protestou, por não ter um colchão onde se deitar» - conta Antero Correia, de camuflado e revólver preso ao cinto. «Olhei para ele e respondi-lhe: 'Então já se esqueceu como é que tratava os presos?'». ![]() A batalha final saldou-se por uma centena de mortos. Metade eram civis, que estavam num centro católico, fora de Bissau, atingido por morteiros. A outra metade foram militares «Anguentas» - a jovem e inexperiente guarda presidencial recrutada entre a etnia papel - a que pertence Nino Vieira Baciro Dabó, um outro responsável dos serviços secretos, foi preso pelos militares nas imediações do palácio. A imagem da detenção, em plena Avenida Amílcar Cabral, foi registada por um amador; cópias da fotografia foram vendidas aos montes nas ruas de Bissau. Não admira: Baciro era o principal animador da rádio governamental, gritando cobras e lagartos contra todos os homens da Junta. Um dos poucos homens de Nino que conseguiu fugir foi o chefe da Contra-Inteligência Militar, José Manuel Mendes Pereira. No auge da refrega, escapuliu-se com um grupo de colaboradores numa canoa, para uma das ilhas do arquipélago dos Bijagós. Por pouco tempo: o longo braço da Junta não demorou a ir buscá-lo. Ao todo, terá sido de sete centenas o número de presos. A esmagadora maioria foram militares: os célebres «Anguentas» e as forças que, durante a guerra, se mantiveram fiéis ao Presidente. As primeiras duas centenas foram libertadas no final da semana passada. Quanto a civis, calcula-se que tenham sido detidos duas dezenas. Os mais conhecidos foram Cipriano Cassamá e Avito José da Silva, que, à semelhança de quase todos os altos dignitários do regime, procuraram alguém que os protegesse de eventuais desmandos. Neste caso, acolheram-se em casa do padre Neves, um respeitado sacerdote português. Foi lá que a Junta os foi buscar. Influentes conselheiros de Nino, Cassamá era o porta-voz do Presidente, enquanto Avito era suspeito de ser o homem que tratava dos seus negócios pessoais. As residências de ambos foram saqueadas. A fúria contra Avito era tal que, passados dois dias sobre a sua detenção - já mostrada pela RTP-África - ainda havia um grupo da Junta à sua procura, tendo passado a pente fino a casa de um conhecido empresário português. Na tarde do dia 10, o EXPRESSO presenciou, junto à «auto-estrada» que serve o aeroporto, a detenção de um militar que servira no palácio. Identificado por uma brigada da Junta, foi levado, sob o silêncio acusador de numerosos populares, para uma viatura branca, que o transportou para a prisão. Tanto quanto foi possível apurar, os presos não foram alvo de maus tratos. Isso mesmo foi confirmado por Fernando Gomes, o líder da Liga dos Direitos Humanos, que se apressou a visitar todas as prisões: a Base Aérea, o Forte da Amura, o Quartel-General, a Marinha, a Segunda Esquadra. Não contente, Fernando Gomes avistou-se com o tenente-coronel Veríssimo Seabra, o chefe operacional dos rebeldes e indigitado CEMGFA. «Pedi-lhe garantias de que não haveria torturas e que os presos veriam os seus direitos respeitados». A resposta foi satisfatória. «Ele disse-me que essa era uma das diferenças entre a Junta e o regime deposto». Também a mulher de um dos presos garantiu que o marido não fora apoquentado. Mesmo assim, até ao passado fim-de-semana, não fora interrogado nem conhecia as acusações de que era alvo - e muito menos constituíra advogado. Nos primeiros dias, verificaram-se algumas prisões arbitrárias. As mais faladas foram as de Conceição Évora e de Nicandro Barreto. A primeira, fora directora da Radiodifusão Nacional; o segundo, foi ministro e procurador-geral da República. Ambos foram libertados após algumas horas. «Quando soube que a 'Sãozinha' fora presa, mandei soltá-la e pedi-lhe desculpas», afiança o novo homem-forte da Segurança, Antero Correia. ![]() Ameaçados de morte, os dez comandos franceses, que faziam a segurança do Centro Cultural, saíram para o exterior de braços ao alto e improvisadas bandeiras brancas. Uma humilhação que Paris não esquecerá tão cedo As prisões estão longe de ser um local minimamente recomendável. Na da Marinha, por exemplo, situada junto ao porto de Pidjiguiti, a água invade as celas cada vez que há maré-alta... É lá que estão detidos alguns dos oficiais da Marinha, a arma que foi mais fiel a Nino. A verdade, porém, é que, como reconhece Fernando Gomes, «essas situações foram herdadas do anterior regime». A esmagadora maioria dos detidos são de origem papel - a etnia dominante na área de Bissau e de onde é oriundo o próprio Nino. Não são apenas os «Anguentas» - espécie de guarda pretoriana do Presidente - que são papéis. Também o são personagens centrais como João Monteiro, Afonso Té, Domingos Indi, José Manuel Mendes Pereira. O Presidente, que tomou o poder em 1980 - num golpe de estado em que depôs Luís Cabral -, foi colocando em lugares-chave dos serviços de Segurança e das Forças Armadas homens da sua própria etnia, que é claramente minoritária na Guiné, suplantada pelos balantas, fulas, mandingas ou manjacos. Um sinal elucidativo do absoluto isolamento do regime - político, militar, mesmo étnico. Apesar de derrotado, Nino continua a polarizar a vida do país. O seu futuro é o tema central, quase exclusivo, das conversas: na Junta, na Assembleia Nacional Popular, no Governo, nos partidos, nas rádios. O sentimento nas tabancas parece ser largamente favorável ao julgamento de Nino - e, nessa medida, à recusa de asilo político em Portugal. Esta opinião é partilhada por todos os partidos que se opuseram à hegemonia do PAIGC. À beira da campanha para as eleições históricas de 28 de Novembro, a oposição pretende transformar Nino num trunfo e fazer o julgamento político do regime e do PAIGC. Contra esta obsessão pronunciaram-se o Presidente da República interino, Malan Bacai Sanhá, o primeiro-ministro, Francisco Fadul, e o padre Camenate, o respeitado administrador da diocese de Bissau. «Um homem grande, sentado, olha mais longe que um jovem forte, de pé», foi o provérbio africano que o sacerdote lembrou, numa reunião realizada no anfiteatro da Base Aérea. Um sábio provérbio que, aplicado à conjuntura do país, aconselharia a saída de Nino. Ela seria um sinal de apaziguamento - um sinal de que parte da comunidade internacional necessita para relançar o apoio à reconstrução de um país que em menos de um ano retrocedeu uma boa década. A acusação, feita pela França - e acolhida pela ONU e OUA -, de golpe de estado é apenas um pretexto para punir duramente a forma como os interesses de Paris saíram humilhados. «A diplomacia francesa não perdoará tão cedo a destruição do Centro Cultural», prevê Manuel Saturnino, com a autoridade de quem foi primeiro-ministro. Uma posição tanto mais preocupante quanto arrastará os países vizinhos - Senegal e Guiné-Conacri - e toda a zona da francofonia, em que Bissau se insere no plano económico. Povo sumamente orgulhoso da sua luta de libertação, o guineense tem uma reconhecida capacidade de sacrifício. Estes argumentos levam Agnelo Regala, deputado da União para a Mudança, a não duvidar: «Quem foi capaz de viver onze anos no mato, é muito bem capaz de continuar a apertar o cinto». Caso muito citado é o da Gâmbia, um país onde um golpe de estado clássico depôs o Presidente Dawda Jawara, que estava no poder há 24 anos. «Cinco anos depois, e apesar de todos os boicotes do Reino Unido, a Gâmbia não só se aguentou, como é, a muitos títulos, um exemplo», observa Helder Vaz Lopes, do Movimento Bafatá, um dos políticos mais moderados de Bissau, com um largo futuro à sua frente. As carências, contudo, são de toda a ordem. À excepção de «Bissauzinho», o país está há quase um ano sem água, sem electricidade, sem telefones, sem correios. O aeroporto continua encerrado. Os bancos voltaram a fechar. Os salários não são pagos. A administração pública é virtual. As empresas estão falidas. A mesa-redonda dos países e organizações doadoras, realizada em Genebra no princípio do mês, não poderia ter corrido melhor. «Só apresentámos projectos da ordem dos 138 milhões de dólares», explica o primeiro-ministro. «Tivemos vergonha de pedir mais. No final, conseguimos 200 milhões!» Entretanto, a guerra acabou. Só que a batalha final decorreu de forma desastrosa. O capital de confiança e a ajuda internacional estão comprometidas. À espera de um sinal inequívoco. Textos de JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, enviado a Bissau Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.
Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Geocities Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Terràvista
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