|
![]() Em: 22-MAI-1999 Lavar-se com copos de água ![]() Aproveitando a sua passagem por Lisboa, Francisco Fadul foi a um oftalmologista do São José e comprou uns óculos novos, de aros finos e dourados. Foi o suficiente para correr o rumor que tinham armação de ouro A PRINCIPAL riqueza do primeiro-ministro guineense, Francisco Fadul, é um telefone e fax satélite, oferecido pelo PNUD, um organismo da ONU: «Sem ele, não poderia fazer nada.» À falta de água corrente, Fadul toma banho socorrendo-se de um púcaro de plástico. A sua alimentação é igual à das quase duas dezenas de pessoas que tem ao seu serviço, entre assessores, motoristas, secretários, cozinheiros, guardas... ou seja, arroz, arroz e arroz, ora com peixe frito ora com um pouco de carne de cabra. Conhecido pela capacidade de trabalho e de sacrifício, nunca tem horas para almoçar: «Já houve dias em que almocei às nove da noite!» Uma vez, a mãe não gostou do seu aspecto: «Obrigou-me a tomar todas as manhãs pequeno-almoço reforçado. Aqui chamamos-lhe 'camoca'! É leite misturado com farinha de milho do Brasil (torrado e pilado) e café.» Como todos os demais dirigentes da Junta, Fadul anda em viaturas «requisitadas» a particulares, empresas, embaixadas, organizações não governamentais... Os dois carros que lhe foram cedidos (um para ele e outro para a escolta) não estavam em condições: «Só pegavam de empurrão, e partiram-se os pistões...» Foram para a oficina e nunca mais vieram. Ultimamente tem utilizado um carro do ministro da Saúde, um jipe Toyota: «Como teve de ir ao estrangeiro, cedeu-mo temporariamente.» No périplo europeu que fez no final de Abril (num «Falcon» da Força Aérea Portuguesa), Fadul obteve um assinalável êxito diplomático. Além de ter sido recebido pelos governantes de Portugal, França, Itália e Suécia, conseguiu em Genebra um financiamento para projectos de reconstrução no valor de 200 milhões de dólares - mais do que o seu Governo solicitara. No entanto, ao chegar a Bissau, ouviu imensas críticas. Num ambiente político mesquinho e habituado à corrupção, houve quem não visse com bons olhos que Fadul tivesse viajado acompanhado pela esposa e que tivesse recorrido às ajudas de custo: «É um direito de qualquer governante e funcionário do Estado... A lei dá-me esse direito, e à minha mulher também. Mas eu não só dispensei as ajudas de custo dela como apenas utilizei dois terços do montante a que tinha direito.» Quando chegou à Guiné, Fadul tinha um visual diferente, devido aos novos óculos: «Comprei-os em Lisboa, depois de ter sido visto por um oftalmologista do Hospital de São José.» O médico verificou que as lentes dos óculos que ele usava eram fortes de mais e a origem das suas «permanentes dores de cabeça». Então Fadul aproveitou «para comprar mais uns óculos, com a graduação apropriada». Como os novos óculos são de aros finos e dourados, logo correu o rumor de que o primeiro-ministro comprara uma armação em ouro... segundo insinuou alguém situado perto do comando da Junta Militar e com um passado ligado aos serviços secretos. Já sem paciência perante tanta desconfiança, Fadul tirou os óculos e mostrou-os ao interlocutor: «Olhe bem para eles e veja o peso. Acha que são de ouro?» Pressões aumentam Apesar de ser considerado um asceta, Fadul não tem ilusões: «É por essas e por outras que, em Genebra, propus que no final do meu mandato se realizasse uma auditoria externa às contas da Guiné-Bissau.» O primeiro-ministro está na mira de muita gente, dentro e fora do Governo. No Executivo, tem desde logo a desconfiança de metade dos ministros, que foram indicados por Nino Vieira e com alguns dos quais já teve problemas, como Carlos Gomes, o titular do Trabalho; e, entre os ministros propostos pela Junta, a maioria demarcou-se publicamente de Fadul quando este defendeu a saída de Nino do país; um deles (Silvestre Alves, ministro do Equipamento Social) não perde uma oportunidade para o criticar; foi representante da Junta Militar em Lisboa durante boa parte da guerra e não esconde a ambição de chefiar o Governo. A verdade é que Fadul denota dificuldades crescentes na condução de um Executivo que precisa de ser remodelado. Filho de pai libanês, a sua condição de mestiço é uma reconhecida desvantagem. Católico, vive num país onde a maioria é animista ou muçulmana. Legalista, tem de remar contra uma maré habituada à arbitrariedade e ao abuso do poder. Civilista, é olhado com certa desconfiança por alguns homens da Junta, inclusive por Ansumane Mané, o verdadeiro homem forte da Guiné. Frontal, diz o que pensa e em voz alta, o que num país sem qualquer tradição democrática é uma ousadia. Independente, não tem a confiança dos partidos, que vêem chegada a sua grande oportunidade. Teimoso, é um homem com quem não é fácil negociar. Determinado, sente que é chegado o momento de um virar de página. A sua demissão já foi ventilada por mais de uma vez nos meios políticos de Bissau. O testemunho recente de Vítor Saúde Maria, ex-primeiro-ministro de Nino Vieira, fê-lo meditar profundamente; Saúde Maria demitiu-se em 1984 e pediu asilo político na Embaixada de Portugal explicando que Nino nunca lhe perdoara o facto de se ter demitido. «Porque em África», ironizou Saúde Maria, «um primeiro-ministro ou é morto ou é demitido - nunca se demite!» JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, enviado a Bissau Copyright 1998 Sojornal. Todos os direitos reservados.
Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Geocities Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Terràvista
|