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Expresso

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Em: 22-MAI-1999

A rendição de Nino


Nino Vieira: após onze meses de resistência armada, o Presidente guineense assinou a rendição incondicional. Foi o fim de mais de 18 anos de poder quase absoluto

PASSAVA das 13 horas de dia 7 de Maio quando o telefone satélite do embaixador de Portugal em Bissau tocou. Nessa altura, o centro da capital estava a ferro e fogo, com as forças da Junta Militar já virtualmente vencedoras, prestes a apoderarem-se do palácio. Quem fez a ligação fora Francisco Soares Martins, aliás Chico Caruca, conhecido músico guineense e assessor de Nino Vieira.

Com voz que mal se ouvia, Caruca disse ao embaixador António Dias que estava a falar em nome do Presidente e que este decidira pedir protecção à embaixada de Portugal. Inquirido sobre o local onde se encontrava, o assessor limitou-se a dizer que estava escondido e que só o revelaria depois de a embaixada garantir que o iria buscar. Ficou entretanto assente que o assessor de Nino telefonaria para a embaixada de 20 em 20 minutos, para irem concertando posições.

Sem margem para tomar sozinho uma decisão, António Dias ligou para Lisboa, para o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Luís Amado. Com a batalha final a decorrer, ficou combinado que este iria pedir uma escolta à Junta Militar, por forma a garantir a segurança da comitiva que iria procurar trazer Nino para a embaixada. O contacto foi estabelecido com o porta-voz da Junta, comandante Zamora Induta. O comando dos rebeldes colocou três condições: a assinatura pelo Presidente de uma declaração de rendição; um pedido formal à embaixada de acolhimento nas suas instalações; e, por fim, o compromisso das autoridades portugueses de que Nino não sairia do país.

O comandante da Junta, brigadeiro Ansumane Mané, entregou esta delicada missão a dois dos seus homens de maior confiança, o coronel Buota N'Batcha e o major Melcíades Gomes Fernandes, que antes já haviam escoltado um grupo de cidadãos franceses do centro cultural para o edifício da representação portuguesa. Os dois oficias, acompanhados por alguns soldados, dirigiram-se de imediato à embaixada, de onde partiu um comboio de quatro viaturas: um jeep da Junta, dois da embaixada e o Mercedes do embaixador, que viajou acompanhado por dois elementos dos GOE (Grupo de Operações Especiais) e pelo coronel Evaristo, responsável pela cooperação técnico-militar.

A comitiva dirigiu-se ao local onde Nino se escondera, o edifício onde viveu o falecido bispo de Bissau, D. Septimio Ferrazeta, a alguns quarteirões da embaixada. Fora ali que Nino se refugiara, acompanhado de três assessores (Herculano Barnabé Gomes, Norberto Gomes da Silva e o Chico Caruca) e dois médicos cubanos (Cástulo Coelho e Ibrahim Cabrales).

Antes, o grupo procurara abrigo no centro cultural francês e na embaixada do Senegal, onde lhe fizeram ver que não havia condições mínimas de segurança, o que os levou a demandar a residência episcopal. Ainda madrugada, Nino telefonara para a embaixada da Suécia, mas não conseguiu falar com a encarregada de Negócios, ausente em Dacar.

As forças da Junta trataram de bloquear as duas saídas da rua e afastar todos curiosos. Na residência, nem vivalma, o que obrigou os dois polícias portugueses a arrombar o portão, por onde entrou o Mercedes. Após terem batido insistentemente às portas e janelas, lá apareceu, muito timidamente, uma cabeça. Certificada a presença do embaixador, foi aberta a porta, por onde António Dias entrou, acompanhado do coronel e do chefe do GOE, José Pires.

A casa estava completamente às escuras. Numa das salas, silencioso e acabrunhado, estava o Presidente da Guiné. O diplomata português expôs-lhe rapidamente a situação. Sem qualquer alternativa, Nino aceitou de imediato as condições colocadas pela Junta. E assinou de pronto os dois documentos. A declaração reza assim: «Eu, General João Bernardo Vieira, Comandante Supremo das Forças Armadas, após onze meses de conflito político-militar, declaro a minha rendição incondicional.» No segundo documento pede o seguinte: «Que a Embaixada de Portugal me acolha nas suas instalações, bem como à minha família e às pessoas que neste momento me acompanham.»

Consumada a rendição, António Dias conduziu Nino à sua viatura. À frente, sentaram-se os dois polícias, Esteves (ao volante) e Pires; atrás, o diplomata, o Presidente e um dos assessores. A viagem de regresso, com a escolta da Junta, fez-se rapidamente e sem qualquer incidente.

Já na embaixada, juntou-se-lhe a mulher, Isabel Romano Vieira, que procurara refúgio no centro cultural francês. Posteriormente, Nino viria a formalizar o pedido de asilo político, imediatamente aceite por Portugal. O casal ocupa o quarto de hóspedes da residência do embaixador. Os cinco acompanhantes dormem sobre colchões de espuma, num corredor da casa.

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