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Em: 12-JUN-1999

Nino só regressa com segurança

Ex-presidente aguarda uma viagem para tratamentos em Paris e só pensa voltar à Guiné com garantias de protecção

Alfredo Teixeira

DN-Amin Chaar
FAMÍLIA. Nino Vieira está instalado na casa do seu filho Amílcar, em Vila Nova de Gaia

O ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, está desde a madrugada de ontem em Portugal, onde permanecerá durante mais alguns dias antes de partir para Paris, onde será sujeito a mais uma intervenção cirúrgica.

Nino Vieira está em Vila Nova de Gaia e diz que, depois de tratado em França, quer regressar a Portugal. O presidente deposto agradeceu ao Governo português o asilo concedido e mantém a vontade de voltar a Bissau caso as novas autoridades lhe ofereçam segurança e "se as condições forem criadas para isso".

Debilitado, João Bernardo "Nino" Vieira acedeu falar aos jornalistas ao princípio da tarde à porta da sua vivenda junto ao Jardim Soares dos Reis, em Vila Nova de Gaia, acompanhado por Valentim Loureiro e Manuel Macedo.

A casa é residência habitual do seu filho Amílcar e foi o local escolhido (Nino tem outras habitações em Portugal, nomeadamente no Algarve, Cascais e Lisboa, na zona da Expo) para fixar residência.

"Não tenho nada contra as autoridades portuguesas. Só tenho de agradecer ao Governo português por me ter concedido asilo político imediatamente, logo que o pedi", afirmou. O presidente deposto da Guiné-Bissau salientou que em breve irá a França para tratamento. Um problema hepático tem obrigado Nino Vieira a deslocações frequentes a um hospital de Paris. A última das quais aconteceu há já mais de um ano, tendo sido, já nessa altura, sujeito a uma operação.

Após o tratamento, a vontade do ex-presidente é agora de regressar a Portugal. No entanto, Nino Vieira admite voltar à Guiné. "Sou guineense, porque não?", acrescentou, recusando, no entanto, comentar a situação política vivida neste momento em Bissau. "A Guiné vai para a frente." Uma coisa é certa, Nino Vieira está disposto a respeitar a carta que lhe permitiu saír do seu país, estando, no entanto, ainda por explicar as razões que levaram à retenção ocorrida na Gâmbia.

"Uma situação que só terá explicação com o passar do tempo", garantiu ontem também à porta da residência do ex-presidente o empresário e amigo de Nino Vieira, Manuel Macedo.

"Ele não esteve retido, foi sequestrado contra a sua vontade com o conhecimento do Governo português", salientou o empresário, também conhecido como "o amigo da Indonésia".

Uma escala técnica transformada em sequestro, mas quem sabe de tudo o que se passou é, segundo diz, o embaixador português em Bissau. Recorde-se que Nino Vieira chegou com a mulher e duas cunhadas cerca da 1 hora e 30 de ontem à Base Aérea de Monte Real, em Leiria, proveniente da Gâmbia, a bordo de um avião Falcon da Força Aérea Portuguesa.

Valentim Loureiro, que também se deslocou a casa de Nino, ainda não revelou se vai manter o cargo de cônsul honorário da Guiné-Bissau no Porto, dizendo apenas que vai "ponderar sobre o assunto".

António Guterres afirma, por seu lado, que Portugal cumpriu o seu dever humanitário e a sua tradição de país tolerante. O importante agora é "a consolidação da democracia na Guiné-Bissau, importante para a credibilidade externa e para facilitar que os apoios cheguem ao país". Quem poderá ser menos tolerante perante este asilo político é a comunidade guineense em Portugal, que prepara já manifestações a realizar à porta do ex-presidente.

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