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Em: 28-NOV-1999 Militares procuram coabitação Estão em causa as garantias que os militares pretendem do novo poder político, mesmo sem haver conselho de revolução Luís Naves em Bissau ![]() AP-Clement Ntaye VERIFICAÇÃO. Milhares de eleitores guineenses deslocaram-se ontem às assembleias eleitorais para ver se o seu nome figurava nas listas A reunião entre a Junta Militar e os partidos foi marcada para ontem, véspera de eleições, mas os políticos não apareceram. Talvez por isso o encontro tenha começado de uma maneira bizarra: os elementos da mesa permaneceram cerca de cinco minutos em silêncio, enquanto escrevinhavam nos papéis e sussurravam palavras discretas. Nada aconteceu durante esse tempo. Depois, o que se ouviu foi um misto de pedido de desculpas e palavras duras. O coronel Veríssimo Seabra, número dois da Junta, disse aos escassos civis presentes na sala que os vencedores da guerra fizeram sacrifícios, mas não querem impor documentos que limitem o poder civil, embora exijam garantias de boa governação. "A Junta está interessada em que a democracia vença", disse o militar, explicando que não há pressões e censurando os líderes partidários por não dialogarem. O discurso foi curto, terminando com o adiamento da reunião para depois das eleições. À saída, Veríssimo Seabra foi questionado pelos jornalistas sobre a existência de três versões muito diferentes do documento que a Junta pretende discutir com os líderes partidários. "Ainda não apresentámos nenhum documento, portanto (o que vamos apresentar) é o primeiro", esclareceu o chefe do estado-maior. Os rumores sobre os diversos textos - magna carta, pacto de regime e um provável terceiro - têm agitado estas eleições. Eles podem corresponder a distintas sensibilidades internas da Junta ou trata-se apenas de subtis manobras. São tais as diferenças entre eles que se torna difícil saber se os militares querem tutelar o poder eleito ou se aceitarão um papel discreto. O encontro entre partidos políticos e Junta, marcado para o dia da reflexão eleitoral, foi um fracasso anunciado e uma pequena humilhação para os militares. A razão do adiamento foi a comparência de apenas cinco dos 13 partidos e de dois dos 12 candidatos presidenciais. Os únicos políticos de destaque presentes eram Hélder Vaz, o líder do RGB (favorito às legislativas), e os dois candidatos presidenciais Abubacar Baldé e Malan Bacai Sanhá, este último Presidente interino da Guiné-Bissau. Os oficiais da Junta não escondiam o seu embaraço. O comandante supremo, brigadeiro Ansumane Mané, com uma febre, também não apareceu no encontro. O outro grande ausente foi Kumba Ialá, favorito às presidenciais, que realizou um gigantesco comício no último dia da campanha, sexta-feira. No final da fracassada reunião entre a Junta e os partidos políticos, Hélder Vaz disse aos jornalistas que o seu partido vai apresentar uma proposta que irá regular o problema da coabitação entre os dois poderes. "Os militares pretendem garantias. O novo poder eleito deve oferecer essas garantias", disse Vaz, esclarecendo que não haverá no seu documento nenhuma fórmula de conselho de revolução, mas sim um órgão que enquadre as forças armadas "na Lei de Bases de Defesa Nacional aprovada na Assembleia". A resposta prudente do RGB contrasta com a ausência de Kumba Ialá e dos restantes candidatos que têm hoje possibilidades de boa votação. Na base da revolta de 7 de Junho de 1998 está o problema dos antigos combatentes da liberdade da pátria - que viviam na miséria - e as condições degradantes em que sobreviviam as forças armadas. Em resumo, o prometido regresso aos quartéis é de certa forma impossível, porque os quartéis não existem. "Os militares vão cumprir as suas promessas e a democracia não se esgota nas eleições", dizia na manhã de sexta-feira o representante da União Europeia, Miguel Amado, que falava numa conferência de imprensa organizada pelas Nações Unidas. "Seremos o garante de que o problema social dos antigos combatentes será considerado desde já", disse Miguel Amado. "O exército afirmou desde o início que não se iria misturar na política e não temos razão para dizer que os militares não cumpriram a sua palavra", acrescentou este responsável. A comunidade internacional parece finalmente convencida da boa-fé da Junta e vai enviar dinheiro se as eleições forem livres e limpas. Mas o atraso pode ter radicalizado alguns dos militares e explicar as versões duras de pactos de transição. A Junta cumpriu a sua promessa de derrubar o regime de Nino Vieira e expulsar os invasores senegaleses; as prometidas eleições são hoje e a campanha decorreu com civismo, alegria e festa. Por seu turno, a comunidade internacional prometeu 90 milhões de dólares até ao final do ano para projectos de apoio aos antigos combatentes, para construir casas e melhorar as infra-estruturas do país. Chegaram só os cinco milhões para as eleições, deixando os problemas por resolver. Antes das eleições, os partidos prometeram aceitar uma forma de transição que dignifique os militares. Com a sua ausência de ontem, a negociação fica adiada para depois das eleições, quando a conversa for mais difícil, entre vencedor e vencedor. Escrutinadores ameaçam boicotar eleição Os escrutinadores e presidentes de mesa de voto ameaçam não aparecer amanhã na eleição. O salário previsto para um dia de trabalho, 25 mil CFA (cerca de oito mil escudos) não é suficiente para os presidentes de mesa, que exigem pelo menos cem mil CFA. O episódio, a confirmar-se, poderá repetir o que sucedeu nas eleições de 1994, quando a votação se transformou num caos que se prolongou até de madrugada. Estes problemas vêm agora juntar-se a uma série de questões aparentemente tão corriqueiras como a falta de luz na maioria das mesas de voto espalhadas por todo o país, o que irá, no mínimo, dificultar a contagem. Os observadores que já estiveram na anterior eleição garantem que a de hoje terá, à partida, um controlo mais eficaz. Cerca de 90 observadores internacionais vão vigiar 1200 mesas de voto. Jornal Diário de Notícias: E-mail: dnot@mail.telepac.pt
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