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Em: 03-DEZ-1999 Festa eleitoral à beira do pesadelo na Guiné Entre boatos desencontrados, anúncios vários de vitória e ameaças de caos, resultados finais podem ser anunciados hoje em Bissau Luís Naves em Bissau ![]() Lusa-Manuel Moura DECLARAÇÃO. Kumba Ialá autoproclama-se vencedor das presidenciais A Guiné não pode esperar mais. O clima de boatos, anúncios de vitória e ameaças de caos pode transformar num pesadelo eleições que decorreram em festa. A votação foi há quatro dias e os resultados continuam limitados à capital, que elege 20 dos cem deputados. O nervosismo dos partidos é cada vez mais evidente. Kumba Yalá proclamou ontem a vitória do seu partido, o PRS, avisando os adversários dos perigos de "manipulação". Em conferência de imprensa na sede do PRS, Kumba reagiu aos boatos que circulam na cidade, agravados pelos atrasos nos anúncios dos resultados provisórios. A tese de muitas pessoas é que decorreu uma fraude eleitoral na fase do transporte e contagem dos votos, após ter terminado o trabalho dos observadores internacionais. "Jamais aceitaremos", avisou Kumba, "que voltem a enganar os eleitores guineenses. Jamais aceitaremos qualquer tipo de manipulação." O líder reformista falou numa pequena sala que dava para o pátio da sede, enquanto os militantes, pendurados à janela, ouviam atentamente. Um gerador produzia forte ruído e o ambiente era de crispação. "Acabou a festa da manipulação", afirmou Kumba, antes de ameaçar os autores da alegada fraude - o PAIGC - com uma "catástrofe" se continuassem "a tentar alterar" resultados. O PRS reclamou a vitória nas legislativas, afirmando que elegeu 41 deputados. O candidato presidencial disse também que ultrapassou 104 mil votos, contra pouco mais de 40 mil para o seu adversário apoiado pelo PAIGC, Malan Bacai Sanhá. Depois, com alguma falta de lógica, Kumba Yalá acrescentou ter ganho com maioria absoluta, para isso bastando ter mais do dobro de Malan Bacai, retirando-se do cálculo os restantes dez candidatos. Também no apuramento do PRS impera a confusão. Para alguns dirigentes, foram eleitos 39 deputados; para outros, o valor real é de 41. Também o RGB e o PAIGC reclamam maioria relativa. "Não há nenhuma fraude detectada digna desse nome", garantiu ao DN Miguel Amado, delegado da União Europeia em Bissau. "Até agora, as eleições foram limpas e transparentes." A UE é o principal financiador das eleições, que foram organizadas pela ONU e contaram com 80 observadores internacionais, entre os quais 25 portugueses. Os relatos conhecidos sobre a missão de observação indicam que houve uma votação sem incidentes na maioria dos locais. Na segunda-feira, a ONU declarou que tudo correra bem, mesmo antes dos primeiros resultados e quando a missão de observação não tinha terminado. Ainda se votou no dia seguinte. Foi então que surgiram os primeiros indícios de irregularidades - nunca confirmadas pela Comissão Nacional de Eleições - relativas ao transporte e contagem dos votos. Ontem de manhã, na rádio, Miguel Amado criticou o sistema de observação montado pela ONU, dizendo que o processo deveria ter incluído a fase posterior à da votação. À tarde, falando ao DN, o delegado da UE foi muito mais cuidadoso, explicando desconhecer (na altura das anteriores declarações) que a missão de observação ainda decorre. "Terei de me redimir das minhas palavras", disse Amado, adiantando não haver razões para agitação. "Vamos minimizar isto", acrescentou o delegado da UE. "Há uma certa euforia na esperança de mudar, mas os partidos que protagonizam essa mudança exageram. Sem resultados concretos e definitivos, as pessoas especulam", concluiu. Aparentemente, só a especulação resta aos guineenses. Segundo a CNE, o resultado final poderá ser conhecido hoje, mas a conferência de imprensa de ontem para divulgar dados provisórios foi adiada. Os partidos queriam a mudança e estão impacientes. Por isso, não compreendem a ausência de dados sobre Bafatá (a duas horas de Bissau), ou de Gabu (a três horas); não compreendem o discurso confiante do PAIGC, que elegeu só dois deputados em Bissau e reclama vitória no país. Não compreendem atrasos na contagem ou segredos no resultado; e têm o conhecimento suficiente do país para temerem a perspectiva de pesadelo: o adiamento da mudança, com a comunidade internacional a lavar tranquilamente as mãos. Jornal Diário de Notícias: E-mail: dnot@mail.telepac.pt
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