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Em: 04-DEZ-1999

Partidos da oposição devem ganhar na Guiné

PRS e RGB empatados na contagem. Kumba Ialá é favorito na segunda volta das presidenciais

Luís Naves em Bissau

Lusa-Manuel Moura

FAVORITO. Kumba Ialá parte para a segunda volta das presidenciais em condições favoráveis

A oposição deverá ter ganho as eleições legislativas na Guiné-Bissau apesar de os resultados finais provisórios não terem sido ontem divulgados como estava previsto. Dados credíveis avançados pelo RGB dão um empate nas legislativas entre este partido e o PRS, ambos com 31 deputados, seguidos pelo PAIGC com 28.

Este quase empate entre as três forças (que garantem no conjunto 90 dos 100 lugares no Parlamento) é conhecido da população e os atrasos na divulgação dos resultados começam já a alimentar rumores de fraude.

Em relação às presidencais, Kumba Ialá deverá partir como favorito para a segunda volta, contra o candidato do PAIGC, Malan Bacai Sanhá, Presidente interino. Segundo a CNE, contados que estão 230 mil dos 400 mil votos, Ialá tem 71 mil e Sanhá 55 mil, o que significa que é improvável haver vencedor logo à primeira volta.

A ausência de resultados não contribui para suavizar toda a tensão que já subia em Bissau, consequência dos boatos. O rumor mais insistente era que a CNE se preparava para anunciar a vitória do PAIGC, numa repetição da fraude que as pessoas acreditam ter ocorrido em 1994. Esse anúncio criaria grande indignação de consequências imprevisíveis.

A apresentação dos dados provisórios continua essencial para afastar o cenário de violência, mas mesmo assim haverá ainda muita incompreensão em torno dos efeitos do método de Hondt, que decide a eleição de deputados. O verdadeiro debate passará depois para as presidenciais e a formação de governo.

Caetano N'Tchamá é um dos candidatos a primeiro-ministro, se o PRS de Kumba Ialá vencer. Por enquanto, N'Tchamá é ministro do Interior e, nessa qualidade, um dos responsáveis pelas eleições. Ainda antes do novo adiamento na divulgação, este político com formação de jurista confessou ao DN estar apreensivo com o clima de ansiedade causado pelo atraso nos resultados. "Faço um apelo aos políticos. Não haverá confusão social", disse o ministro, que rejeita a ideia de manipulações na contagem.

"A CNE está dentro do prazo", acrescentou N'Tchamá, para quem o órgão que organizou a votação não se encontra politizado, nem dominado pelo partido no Poder. Assim, as "eleições foram "livres" e aceites pela "comunidade internacional". Aliás, na sua opinião, "globalmente, o processo está sob controlo". Em relação à hipótese de vir a ser primeiro-ministro, N'Tchamá considerou isso mera possibilidade. "Queremos paz e tranquilidade neste país, que teve uma gestão desastrosa no passado".

O seu governo procuraria a estabilidade e a credibilidade internacionais, entregando a responsabilidade da saúde e da educação à Igreja Católica. Perante um cenário parlamentar com três partidos em posições muito equilibradas, o possível candidato do PRS não rejeitou à partida um entendimento entre PRS e RGB, ou mesmo com o PAIGC.

Esta última possibilidade, um governo entre PRS e PAIGC, não é tão estranha como poderia parecer. Para Carlos Schwarz, actual ministro do Equipamento Social e um técnico que deixa a política quando acabar o governo de transição, a "votação foi claramente de ruptura" e quem se aliar ao PAIGC terá problemas com a opinião pública. Nestas eleições, houve muito controlo e não aconteceram as "aldrabices habituais", mesmo se a oposição acabou pontualmente por cair pela segunda vez nos mesmos erros: a divisão e a falta de estrutura para controlar cada mesa de voto. Se passar à oposição, o PAIGC deverá desaparecer a prazo, prevê Schwarz, "absorvido pelos outros partidos".

Na Guiné existe uma festa tradicional balanta, o Cantopó, que só acaba ao pôr-do-sol. As tabancas entram em competição de popularidade, com grupos de música e de dança, atraindo mais e mais gente, ao longo de vários dias. As pessoas vão escolhendo a tabanca mais divertida e isso aumenta a sua popularidade. O vencedor, naturalmente, é aquele que tem mais gente e mais festa.

Neste país chegou a hora de saber quem ganhou o Cantopó, ao pôr-do-sol do derradeiro dia da festa. Apesar da incerteza, no final do Cantopó deverá ganhar a mudança. As pessoas da tabanca querem preparar o dia seguinte.

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